No mais fundo do meu coração

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Estava casada fazia um ano. Um dia, quando abriu a porta da casa, deu de cara com um desconhecido. Boa tarde, disse. Naquela época ainda não havia esse medo que as pessoas sentem hoje da violência que se espraia pelo País como um polvo. Então ela ouviu um rosário de atribulações. Em casa, o visitante inesperado tinha cinco filhos e uma companheira que estava à espera de mais um. Faltava comida. “Rico”, foi com esse nome que Henrique se apresentou, queria esmola.
O som da conversa atraiu a atenção do marido de Mathilda e ele também veio até a porta. Era daquele tipo de gente que, na falta de alguém que segurasse seu ímpeto, entregaria sua última camisa a quem lhe chorasse as pitangas. Segurá-lo competia a ela, que era filha de um empresário e tinha outra visão da solidariedade. Não é que o infortúnio de “Rico” a deixasse insensível, mas o que se perguntou é como ficaria a situação dele depois que tivesse consumido a ajuda que poderia lhe dar naquele momento. Então resolveu fazer uma proposta. Afinal, a gravidez do primeiro filho já lhe pesava e…
Ele aceitaria se lhe pedisse uma ajuda na horta e no jardim? Claro. Como não? O acordo que então firmaram nunca perdeu validade. Em compensação, “Rico” parou de esmolar os trocados com que até então alimentava a família, os filhos dele foram à escola, cresceram saudáveis e os netos não viram o pai saindo de casa para mendigar o pão de cada dia.
Mathilda é minha mãe.

x.x.x.x.

Continuo revendo a cena, 33 anos depois: antes de colocar o pé no primeiro degrau, no topo da escada que leva ao pátio do hospital, me virei. E lá estava, na outra ponta do longo corredor, uma linda figura feminina, fragilizada pela doença. Minha mãe se despedia de mim com um aceno. E um sorriso. Esta é a última imagem que guardo dela, congelada na minha memória afetiva.
Era março de 1984. Oito dias depois desse aceno e oito meses depois de meu pai, Mathilda transpôs o limite da condição humana e embarcou nessa viagem que é definitiva, pelo menos no que se refere ao aqui e agora de cada um de nós. Nunca visitei seu túmulo. Nunca lhe levei flores ao cemitério.
Indiferença? Esquecimento? Não. O que sei é que, embora seu nome esteja na lápide, ela não está lá. Para mim, minha mãe continua no jardim que plantou em volta da casa, reservando um gramado para o futebol de meus irmãos e cometendo ousadias como replantar uma árvore pela terceira vez, com sucesso. Nesse jardim ela acarinhou meu filho Diego. E nesse jardim ela continua muito viva. Mesmo agora, quando outras mãos – as mãos de minha cunhada Vera – cuidam dele com muito carinho, aqui e ali acrescentando ou tirando algum tipo de planta, mas certamente sempre com a aprovação dela.
É para onde vou quando quero reencontrá-la. Então, enquanto os outros sentam em roda e conversam, busco a sombra do arvoredo, para evitar que a mistura de vozes se interponha entre nós duas. Sento no balanço, converso com as flores, me acomodo sobre a grama e me sinto realmente alegre no meio da natureza. Ouço a cantoria dos grilos, dos pássaros, os latidos de Luke e de Sebastian, que posa para a foto espiando através

da folhagem ou, brincalhão, corre em volta de um limoeiro, querendo abocanhar uma borboleta arredia; sinto o vento no rosto e escuto o barulho que ele produz nas folhas das árvores.
Tive um reencontro maravilhoso com ela no domingo passado. E vi o jardim de minha mãe servindo como cenário para a felicidade de Bárbara, bisneta dela. Vi minha sobrinha Stefânia mimando Quico, o cãozinho que minha irmã recolheu quando ele agonizava na beira do mar em Capão da Canoa e agora corre pelo gramado, apesar de não ter uma das patas. Ela foi amputada para que pudesse sobreviver.
Na verdade, Mathilda é onipresente. Está na forma como preparo a massa de pão. Durante a noite, depois de um dia atribulado, acordo sentindo o toque de sua mão no meu cabelo, ou no meu rosto. Então volto a dormir. De manhã ela volta, num “ai, minha mãe”, diante da perspectiva de um dia cheio de trabalho. E me diz que tenho força para enfrentá-lo, como ela teve em todos os dias de sua vida. Está sempre ao meu lado. Nos temperos da comida que preparo para meu filho. Nas ruas pelas quais ando. No mais fundo do meu coração.

A economia em canoa furada

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SOCORRO. Preciso de ajuda. Explico: estou procurando lógica nas mudanças que têm a CLT como alvo.  O governo afirma que pretende, com essas mudanças, reanimar a economia brasileira e que, para isso, precisa socorrer as empresas.

E há quem, embora não seja economista ou administrador de empresas, acredita que a solução encontrada por Temer é correta. “Afinal, as empresas precisam ser ajudadas, porque são elas que criam postos de trabalho e empregam”, ouvi hoje de manhã, durante longa troca de ideias, depois de um atendimento em consultório.

Então por que procuro e não vejo lógica no projeto que o governo quer aprovar no Congresso? E sei que não estou sozinha nessa busca. Ontem vi a entrevista de Mário Sérgio Conti com Alessandro Molon (Rede-Rio), que explicou detalhadamente um dos aspectos dessa reforma: a criação do “emprego intermitente”, em que o trabalhador fica à disposição da empresa por um determinado número de horas ao longo dia, em qualquer lugar, mas nada recebe como pagamento se não for chamado nesse espaço de tempo. E a situação pode piorar: se for chamado e não realizar o trabalho, o mesmo trabalhador terá que pagar ao empregador 50% do dinheiro que receberia se tivesse atendido ao chamado.

Afora isso, tem deputado sugerindo que o pagamento seja em forma de “casa e comida”. Portanto, quer usar o voto que lhe deu assento na Câmara dos Deputados para reinstalar o regime de Casa Grande e Senzala no País. Esse tipo teria concorrido se o dinheiro público que recebe como salário fosse substituído por “casa e comida”, ou se, quando faltasse a uma sessão, tivesse que devolver ao povo – que é seu patrão – 50% do que receberia se tivesse comparecido?

A mexida que mira a CLT tem como propósito aliviar a carga das empresas. O alívio vai durar? Não acredito, porque o trabalhador é a grande massa da população brasileira, mas também é massa no consumo. Quando ele não tem emprego e ganhos garantidos, vai deixar de comprar. Comprar como, se o dinheiro que ganha num mês poderá faltar no seguinte, se bancos que hoje o assediam oferecendo cartões de crédito vão fugir dele amanhã como o diabo fugindo da cruz? Daí uma pergunta: para quem as empresas aliviadas agora fabricarão seus produtos? Acredito que o governo Temer está colocando a economia brasileira em canoa furada.

Crítica bem feita à desumanização

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Não tenho formação – nem pretensão – para exercer a crítica de teatro. Gosto de boas montagens. Mas aí a pergunta: do que é feita, na minha avaliação amadorística, uma boa montagem? A resposta para essa pergunta combina tema; texto que desenvolve esse tema; e um cenário apropriado. Só isso? Claro que não. Tudo isso nada é se quem interpreta e se movimenta diante dos meus olhos não me coloca dentro de uma realidade. Quero dizer: para mim, teatro bom é aquele em que predomina a naturalidade com que o ator se mete no papel, assumindo o personagem como se tivesse nascido com ele.
Já vi disso. Lá na metade da década de 1970 localizo a montagem de Mockinpott, de Peter Weiss, quando apresentada no Teatro de Arena sob direção do espanhol José Luiz Gomez. O desempenho me convenceu tanto, que saí da sala em prantos. Depois disso vi outras montagens, algumas muito interessantes. Outras nem tanto. E ontem vi O Método Arbeuq, em que cinco candidatos a um emprego na empresa Acilbuper (República) se digladiam e se eliminam mutuamente cumprindo ordens que lhes vêm através de meios eletrônicos. O cenário é econômico e, por isso mesmo, muito coerente com a dureza do processo de seleção, que é cruel e abre espaço, inclusive, para um olhar nada complacente sobre a mulher no mercado de trabalho. Aliás, nada complacente também entre as mulheres quando elas se veem como concorrentes.

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Criação da argentina Viviane Juguero, O Método Arbeuq tem como alvo a desumanização a que estamos sujeitos em determinadas situações. O texto apresentado em curta temporada no Teatro Renascença não é o original. É uma adaptação feita durante os ensaios para esta montagem, explica a atriz Juliana Barros. Ela está no elenco como Ana e ressalta: “Fizemos várias alterações, mas o resultado não muda, ou muda quase nada do texto original”.
Na plateia, uma risada aqui, outra ali. Normal diante de um texto tão crítico? Talvez não para quem foi ao Renascença esperando encontrar lá uma encenação marcada pela sisudez. E muito normal – bem calculado – para quem vê na interpretação histriônica uma forma até mais cáustica de condenar um processo em que o humano que há em nós cede lugar ao canibalismo, devolvendo-nos à caverna. No caso, o método de seleção a que os cinco candidatos a um cargo na Acilbuper se sujeitam.
Saí chorando do Teatro Renascença? Não. Saí de lá quase furiosa. Comigo mesma, porque a peça me levou de volta a uma situação em que me vi faz pouco tempo. Foram os dois piores anos da minha vida e, ao longo deles, sobrevivi tentando encontrar um jeito de escapar de uma máquina verdadeiramente moedora, metáfora para o comportamento de duas mediocridades – um homem e uma mulher – cuja competição reverberava na minha rotina no local de trabalho, invadindo também o meu direito ao repouso em casa. Hoje sou grata a quem abriu a porta e me devolveu à liberdade.
Pois é, a peça no Renascença não me levou às lágrimas, mas não fiquei incólume. Portanto, foi convincente. Também para quem se manifestou com risos nervosos, penso. Sempre no limite da minha avaliação amadorística, acredito que esse efeito espelho deve ser computado, principalmente, à atuação dos atores, que se equilibram sobre um fio quando usam o histrionismo como recurso, vestindo o personagem e, ao mesmo tempo, oferecendo-o à plateia como vítima do sistema e algoz do seu concorrente. Um jogo difícil, em que não se percebe a mão de um diretor. É minha única ressalva como espectadora. A encenação me parece mais uma criação coletiva de Elison Couto, Álvaro Rosacosta, Carol Martins, Renato Santa Catarina e Juliana Barros. As apresentações de O Método no Renascença terminaram. Quem não viu na temporada de agora não deve perder a próxima oportunidade.

Quem venceu a eleição?

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O resultado das eleições em Porto Alegre:
Brancos, nulos e abstenções: 433.751 ou 39.49%
Marchezan Jr: 402.165 votos ou 36.61%
Melo: 262.601 ou 23.90%
TOTAL: 1.098.517 igual a 100,00%.

O jornalista Lino Brum propôs hoje, em sua página no Facebook, uma reflexão sobre o resultado da eleição em Porto Alegre, apresentando o quadro acima. Acho que se presta a várias interpretações. Além disso, penso que ver nele a vitória do candidato do PSDB, Nelson Marchezan Jr, também pode estar bem de acordo com o que se entende como aplicação da justiça no País: uma questão de vírgula. Dependendo de onde a colocamos, o criminoso é inocente e o inocente é criminoso.
É por isso que, segundo estudiosos, a palavra pode ser usada como arma. Também é por isso que consigo ver mal disfarçada hipocrisia na lei eleitoral em vigor no País. A começar pela obrigatoriedade do voto entre 16 e 70 anos de idade. O cidadão que decide não votar e faz parte dessa faixa etária tem que encontrar uma justificativa para a abstenção, porque, em não fazendo isso, enfrentará problemas lá adiante, quando necessitar de um passaporte para sua viagem dos sonhos. Por exemplo.
Então é isso. O voto é obrigatório. Aliás, chamada do TSE nas emissoras de televisão tratou de salientar essa obrigatoriedade ao longo da campanha eleitoral. Ainda neste domingo, enquanto os votos se somavam nas urnas, vi esse alerta na TV. Mas achei defeito nela. Pelo jeito, a peça foi pensada por alguém não muito consciente das armadilhas em que podemos cair no uso da palavra, porque contrapôs conceitos antagônicos. Isto é, não se deu conta de que não pode confundir direito com obrigação, o que acabou fazendo ao defender o voto dessa maneira: “O voto é obrigatório”, acrescentando que “o voto é seu direito”. Como?
Pode parecer estranho, mas penso que essa forma de ver o voto deve ter um parentesco com o Brasil colônia. Por exemplo, com o “direito” do escravo no engenho de açúcar. Moer a cana ou encarar um castigo. Fosse outra a circunstância teria me empenhado em uma pesquisa para saber quando e quem definiu a lei eleitoral em vigor no Brasil. Desta vez não. A contradição contida na chamada do TSE produziu outro efeito: até ali eu estava decidida a usar meu voto como manifestação de oposição ao Marchezan Jr e ao PSDB, mas mudei de ideia. E me abstive.
Hoje, um pouco antes ou um pouco depois do meio-dia, sintonizei a TV Cultura, onde o JC Debate ouvia a opinião de um advogado e de um cientista político sobre os resultados deste domingo e sobre o quanto mostram a necessidade de uma reforma na lei eleitoral. Mas, enquanto os dois focaram seus discursos na miséria de recursos da última campanha – um deles chegou a dizer que a situação havia “traumatizado” partidos – , na BandNews, Boechat defendia o fim do voto obrigatório. Claro que concordo com ele.
Por quê? Explico: entendo que, neste domingo, o voto em branco, o nulo e a abstenção deixaram clara a desaprovação da maioria dos eleitores de Porto Alegre aos dois candidatos em disputa. É o que mostra o quadro acima. Quem somou mais votos foi a oposição a Marchezan Jr e a Melo. Por rejeição a um e rejeição a outro. A rejeição é um tipo de voto e deveria ser validada pela lei eleitoral, que é mais que hipócrita. É antidemocrática, repetindo em cada eleição o papel do dono do engenho lá no Brasil colônia.
Enquanto o voto for obrigatório, o TSE comete contradição ao defini-lo como “direito” do cidadão. Ele será um direito quando não for obrigatório. Então, sim, fará sentido não validar a abstenção e o voto no resultado da eleição.

A busca para calar o silêncio

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Mais um ano passou e a Feira do Livro de Porto Alegre está de volta ao centro da cidade. Nos 18 dias de sua permanência na Praça da Alfândega, 111 estandes oferecem uma infinidade de obras escritas por autores nacionais e estrangeiros, do romance à ficção científica. Como de hábito. E também como de hábito há leitores para todos os tipos de livros.

cilon-livroA propósito, estou lendo Histórias da Gente Brasileira, em que Mary Del Priore aborda o tempo em que o Brasil foi colônia de Portugal. Mas para quem, como eu, prefere este tipo de obra, a editora Arquipélago oferece um título sobre período mais recente – e muito duro – da história política e social brasileira. É Antes do Passado (R$ 25,00), escrito pela jornalista gaúcha, nascida em São Sepé, Liniane Haag Brum.

Aliás, embora tão distanciados no tempo, o livro de Mary Del Priore ajuda a entender por que o Brasil se repete em movimentos que opõem os interesses de uma elite às necessidades do povo, como aconteceu em 1964, quando empresários, setores da imprensa e militares se uniram para instalar uma ditadura de 25 anos, impondo o silêncio através do medo. Mas houve quem, mesmo assim, se rebelou.

Cilon Cunha Brum foi um desses rebeldes. Queria ser médico, mas largou o curso para lutar contra a ditadura, como militante do PCdoB, e, em 1971, a família o viu pela última vez. Muito rapidamente, na igreja, quando ele deu um jeito de comparecer ao batizado de sua sobrinha e afilhada, Liniane. Na verdade, ela nunca o viu, mas a presença do tio e padrinho em sua vida sempre foi muito intensa, porque seu desaparecimento – sem explicações – não permite à família esquecer o filho, o neto, o irmão.

downloadrua-cilon-cunha-rioO nome de Cilon – hoje nome de rua no Rio de Janeiro – apareceu em lista de vítimas da ditadura, a família providenciou lápide para seu túmulo, mas faltava (e ainda falta) o corpo. Então Liniane resolveu procurá-lo e, nessa busca, refez o roteiro dele, encontrando quem o conheceu no Araguaia. O resultado é o livro Antes do Passado, lançado em 2012. Em 2015, portanto três anos depois, Curió, major do Exército Sebastião de Moura (77 anos e agora na reserva), disse em depoimento à Justiça Federal que matou Cilon Cunha Brum (codinome Simão) em janeiro de 1974. O corpo? Ainda não foi encontrado.

Antes do Passado é comovente por vários motivos: porque conta a dor da ausência; porque mostra a coragem de alguém disposto a lutar pela liberdade; porque mostra o empenho de uma jovem não conformada com o silêncio em torno do assunto. Ela quis a verdade e saiu a buscá-la.

Eu, por minha vez, acredito que o livro deve ser lido especialmente por aqueles jovens – e não tão jovens – que hoje, em meio a mais uma crise, acreditam que os problemas do Brasil podem ser resolvidos através de uma ditadura. Também por isso resolvi conversar com Liniane sobre Cilon Brum e sobre a imagem que tem desse tio, do qual nunca desistiu.

PComo ponto de partida, me fala da relação com seu tio Cilon e sobre essa força que a levou a refazer o roteiro dele.

Liniane Brum– É interessante responder isso agora, após quatro anos da publicação de Antes do Passado. Não que as motivações tenham mudado desde a época do lançamento do livro. Foi o jeito como eu as vejo que se transformou.

No início, início da minha vida, o Cilon era uma pessoa tão viva… Embora jamais o tenha visto, nenhuma vez sequer, para mim era como se ele existisse realmente – e não só na memória de meus pais, de quem eu recebi a narrativa sobre ele.

Cilon em família

Cilon em família

A história você conhece. Foi Cilon quem me batizou, em 1971, em Porto Alegre.  Daí em diante nunca mais foi visto pela família. Eu tinha 11 dias de vida: era um bebê recém-nascido. Os meus avós e o meu pai passaram a encarar, e a lembrar, aquele batismo como o último dia em que falaram e conviveram com o filho e o irmão, respectivamente. Mas as coisas não foram assim tão simples de se constatar, tão dadas e explicadas… O processo de desaparecimento de Cilon foi extenso e envolveu o engendramento do tabu e do trauma na família Brum. E aqui, quando escrevo “família”, me refiro aos pais de Cilon, seus irmãos, irmãs, sobrinhos, sobrinhas, tios, tias, primos. Eu mesma “bebi na mamadeira”, junto com as primeiras gotas de leite, certa ânsia, fruto da espera e da expectativa por esse afeto que jamais voltaria. E que, arrisco dizer agora, talvez se soubesse ou intuísse desde aquele junho de 1971, que nunca retornaria.

A consciência de que essa expectativa – vivida como segredo e submersa no medo – estava ligada ao Brasil, me veio muito tempo depois de 1971. Em Antes do Passado eu narro isso. Esse percurso de viver-esperar, foi percorrendo-o que descobri o Brasil que se relaciona à vida e ao desaparecimento de Cilon. Era a ditadura de 64/85; o medo e o segredo transformando Cilon em tabu. E o tabu é assim: ele é um silêncio espesso, denso; você vive o tabu semiconsciente, sabendo e não sabendo que é ele quem atua na sua vida.

PDepois de percorrer o roteiro de Cilon, que imagem tens do tio?

Meu tio, por um lado, foi um jovem comunista num contexto atingido pela polaridade da Guerra Fria (entre Estados Unidos e a então União Soviética), num Brasil onde as pessoas eram mortas (desaparecidas, torturadas, exiladas) em razão da resistência política; e, por outro, no plano pessoal, foi alguém que escolheu o enfrentamento a um regime de exceção, a luta pela democracia, quando o “líquido e certo”, de acordo com sua formação familiar, teria sido o caminho convencional: “vencer na vida” e tornar-se “bem-sucedido”. Ainda, complementando, é preciso dizer que se tratava de uma escolha que trazia à família o estigma da vergonha e a ameaça da violência de Estado. (Escrevo isso como constatação, sem juízo de valor).

A “força que me levou a fazer o roteiro dele”, usando as tuas palavras – de que gosto muito, o vocábulo “força” traduz o que senti – acontece ao longo desse percurso de, digamos, mais de 30 anos. A negação, pelos sucessivos governos, da trajetória e da vida do resistente Cilon, foi a força. O desaparecimento político (a morte) foi a força – como se eu dissesse para os assassinos impunes, para a oficialidade do silêncio: “então vocês estão achando que vai ficar por isso mesmo? Não vai.” Da necessidade de contar essa história de autoritarismo, de violência, de ausência, de medo, de segredo e de amor é que nasce a força.

guerrilha-15472052Eu ainda ressaltaria dois pontos fundamentais, para dar mais concretude ao meu relato. Primeiro, o livro Guerrilha do Araguaia, que apareceu na casa dos meus pais quando eu tinha por volta de 10 ou 11 anos. Ou seja, em plena ditadura militar. Era um livro de capa verde, contava a história de uma guerra, uma guerra desconhecida. E citava o Cilon. Alguns anos depois – e isso eu falo em palestras e entrevistas – a experiência derradeira foi a leitura de Brasil Nunca Mais. Eu tinha 15 anos. Imagina uma menina dessa idade, cheia de sonhos, imersa numa vida pequeno-burguesa, frequentando bailes de debutantes, vivendo o primeiro amor, descobrir a seco aquela realidade. Que, além do mais, era a realidade de pouquíssimas pessoas! (sentia-me sozinha no deserto, digamos assim…) Foi um choque. Eu me perguntava como aquilo pudera acontecer. Como aquela barbárie “existia” e ninguém sabia? E, sobretudo, como o Cilon, padrinho querido – que um dia deveria ter voltado, mas jamais o fizera – figurava nos anexos daquele livro como “desaparecido”. (Com a letra A, de Araguaia, ao lado). Sem nenhuma explicação!!!! Apesar de Brasil Nunca Mais escancarar os crimes daquela ditadura, uma vez que é baseado inteiramente em processos militares, eu sentia que ainda tinha muita coisa a ser revelada/desvelada. Como lidar com tudo isso?

Um livro, um divisor de águas

brasil-nunca-maisHoje eu acho que Brasil Nunca Mais foi um marco, um divisor de águas na minha vida. Ali, naquela leitura, introjetei coisas que só viria a compreender muitos anos depois. A principal delas acho que também resume a questão da força: afinal, um desaparecimento político/assassinato não poderia ser desconhecido de quem escrevera aquele livro. Quem escrevera aquelas páginas mesmo? Outra questão propulsora: ninguém na família iria ao Araguaia checar por onde Cilon andou e o que fez? Mesmo as caravanas familiares, soube anos depois, não conseguiam dar conta de buscar as histórias de todos os desaparecidos no Araguaia…. Então a força reside nessa consciência de que as coisas não poderiam “ficar por isso mesmo”.

Hoje se sabe dos crimes cometidos pelos agentes do Estado, a mando do Estado, durante a ditadura civil-militar brasileira. Se sabe – embora não se possa, em todos os casos, “comprová-los”. Não houve vontade política, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi necessária, mas não evoluiu nessa trilha.

Símbolo de luta contra a ditadura

A gente sabe hoje que Cilon não é um herói, mas um mártir – ele é reverenciado, virou símbolo de luta contra a ditadura e do processo de transição para a democracia… Cilon não é “somente” um tio desaparecido. A meu ver, a memória de sua curta existência é patrimônio da humanidade. Ela é exemplar no sentido de nos contar da ditadura brasileira, da restrição do direito à vida em nome de interesses espúrios, da negação da justiça – a civilização dando lugar à barbárie.

A força veio também desse lugar, dessa consciência adquirida.  E veio, finalmente, de um lugar de amor que eu não sei explicar. (Talvez porque uma vida ceifada no nascedouro chamado juventude seja mesmo irrecuperável. Impronunciável).

PA tua relação com tio Cilon mudou de alguma forma depois de refazer o roteiro dele?

Liniane – É difícil, quase impossível, traduzir em palavras. Tentando mais uma vez dar concretude a minha resposta, eu diria, primeiro, que a relação com Cilon é, antes de mais nada, a relação com a sua ausência, uma relação rememorada e projetada por adultos e transmitida a mim  quando eu era criança.

Aprendi, com meus pais, a amá-lo. Então ela é metafísica nesse sentido. Porque é um amor por alguém incorpóreo. Por alguém que não conheci de fato, muitas vezes superando o amor que tenho por familiares que conheci e com quem convivi.

É claro que a partir da escrita de Antes do Passado elaborei, mesmo que involuntariamente, muitos sentimentos. Mas tem uma coisa difícil de explicar e que sempre me emociona. Mesmo depois de tantas palestras, entrevistas e artigos…

PO que estás preparando para ser publicado?

Liniane Haag Brum

Liniane Haag Brum

Liniane – Estou dedicada à escrita, à pesquisa acadêmica (Unicamp) e à docência.  Tenho três projetos.

  1. O primeiro é o livro de contos E n t r e / C o r t e s, que, a exemplo do que aconteceu com Antes do Passado, foi contemplado com um prêmio de criação literária, o PROAC, específico do Estado de São Paulo/Secretaria da Cultura (ainda sem data de lançamento). É uma obra que toca na sexualidade feminina de maneira curiosa, escancarada, e às vezes dolorida. Mexe em tabus familiares, como a violência entre pais e filhos. São contos 100 % ficcionais. Alguns vão dizer que é feminista… pode ser…
  2. Um projeto em andamento é a pesquisa de doutorado em teoria literária, que focaliza a ditadura civil-militar. Trabalhando as fronteiras do relato testemunhal, entrelaçando História e literatura, pesquiso a poética do arquivo no Brasil Nunca Mais e em três documentários (auto)biográficos sobre vítimas da ditadura brasileira.
  3. Em terceiro, estou escrevendo um romance que se desdobra de Antes do Passado. Assim: a gênese e concepção literária de “a guerra aconteceu em segredo da mata” é indissociável da pesquisa e da recepção de Antes do Passado. A ideia é contar aquilo que acontece no entorno de uma busca como a que fiz, também encenando fragmentos de vidas e trajetórias de perseguidos políticos em passagem por grandes centros urbanos, na década de 1970. Pessoas que, durante a ditadura, se deslocavam à guerra de guerrilhas no norte do Brasil, ao exílio, ou que se escondiam nos cafundós do próprio país.

Máquina italiana reequilibra o cérebro

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Uma dor no pé, outra no cotovelo, mais uma no joelho. Azia. Mau humor. Melancolia. Insônia. O despertador manda sair da cama, mas a vontade de nada fazer manda ignorar a música. Nem o convite para um cafezinho anima. Coração batendo a mil. Ai que desânimo! Qual a causa? Boa pergunta. E sem resposta aparente, porque você continua respondendo às demandas no emprego, em casa, do companheiro, dos filhos e também dos amigos. Então? Pois é, tudo parece em harmonia, na santa paz. Mas não está.

Dr. Juarez Callegaro

Dr. Juarez Callegaro

Todos esses desconfortos são sinais de que algo está errado em nosso organismo. E não devemos subestimá-los. É o que ouço do médico ortomolecular Juarez Callegaro, autor do livro Mente Criativa – a aventura do cérebro bem nutrido. Como psiquiatra – o que também é -, ele dá a esse motor uma atenção que vai além da medicação. Por isso, em fevereiro de 2015, participou na Itália do curso de formação em Neuropsicofisio Patalogia Adattiva e Ottimazzione Neuropsicofísica em Tecnologia REAC. Em decorrência, trouxe uma novidade a Porto Alegre: é a REAC Terapia.

O que vem a ser essa terapia? É o tratamento aplicado através de máquina criada na Itália por uma equipe interdisciplinar que inclui especialistas de várias áreas da saúde. São professores de três institutos: Bolonha, Florença e Sassari. Eles se dedicaram a essa pesquisa ao longo de 30 anos e sua criatura – que estimula a formação de células-tronco no cérebro, ressalta Callegaro – já foi aprovada em artigo publicado na revista especializada Nature, principalmente pelos resultados “revolucionários” em relação ao mal de Parkinson.

A máquina criada na Itália

A máquina criada na Itália

Mas REAC é uma sigla. Significa Radio Electric Conveyer Assimetric. O que promete é muito importante: reequilibrar o cérebro e, em consequência, as funções do corpo. “Sua função é melhorar as frequências cerebrais, que comandam a saúde de todo o organismo, inclusive o funcionamento da mente”, explica Callegaro. Ele ressalta que um dos benefícios decorrentes dessa terapia é “o aumento da longevidade”, pois destrói as substâncias tóxicas que se acumulam no organismo.

Melhorando o uso das conexões no cérebro, o REAC combate o estresse e a depressão; diminui a agressividade, o pânico, os pensamentos obsessivos, os sintomas do mal de Parkinson, a hiperatividade e a dependência de medicamentos e drogas. A partir do tratamento, a pessoa passa a realizar as mesmas tarefas com menor gasto de energia mental, afirma Juarez Callegaro.

Carlo Ventura, professor de Biologia Molecular e um dos pesquisadores envolvidos na criação do aparelho, explica que “a tecnologia REAC foi concebida fundamentalmente para desenvolver funções bio e neuro através da modulação/otimização”. É uma nova visão e uma nova estratégia em relação aos aspectos da doença não possíveis de serem combatidos com medicamentos ou outros meios. Juarez Callegaro acrescenta a isso que a Terapia REAC faz com que o sistema nervoso central reconheça os desequilíbrios que se acumularam ao longo do tempo e os corrija, promovendo seu reequilíbrio.

Como funciona

O REAC – Radio Electric Conveyer Assimetric – transporta informações neurobiológicas através de correntes de baixíssima intensidade. Cada uma das aplicações – ciclos de 18 – é absolutamente indolor e muito rápida. São segundos. Tempo suficiente para que o equipamento leia a situação neurobiológica – todos os defeitos resultantes de traumas – da pessoa em tratamento. Todo o processo é parecido com o da ressonância magnética.

Sua aplicação não tem limite de idade, máxima ou mínima. Além disso, o espectro de abrangência é muito amplo, incluindo ansiedade, transtorno bipolar, TOC, fobias e vício em drogas. É a tecnologia mais uma vez a serviço da humana esperança.

 

20150819-juarez-callegaro-300x225A palavra de Juarez Callegaro sobre o REAC

A sigla REAC é uma nova tecnologia de otimização dos códigos de frequência do cérebro e do DNA, permitindo tratar, prevenir e até aperfeiçoar o funcionamento mental e fisiológico.

A sigla REAC é a abreviação de Radio Eletric Asymmetric Conveyer Technology, instrumento criado após cerca trinta anos de pesquisa por uma equipe liderada pelo Dr. Rinaldi Fontani (ver Instituto Rinaldi Fontani ou http://www.irf.it). Este aparelho, com sua imensa lista de benefícios, foi aprovado pela Anvisa. Entre os benefícios, inclui-se o tratamento da Depressão, Mal de Alzheimer e Mal de Parkinson, através da regeneração do cérebro. Além disso, esta inovadora e revolucionária tecnologia foi objeto de publicação elogiosa por parte da prestigiada revista Nature, a maior referência em termos científicos da área médica.

A aplicação é indolor

A aplicação é indolor

Sua aplicação é rápida, indolor (não invasiva), feita através de uma caneta conectada a um pequeno computador, a qual detecta sinais eletromagnéticos do cérebro e emite sinais para o mesmo depois que passa pelo computador. Este diagnostica e trata, emitindo sinais otimizadores para o cérebro. Por exemplo: estudos de neuroimagem demonstram que o cérebro passa a exercer as mesmas atividades com menor gasto de energia e menor estresse. Escalas de avaliação de depressão demonstram melhora significativa, inclusive da depressão bipolar.

Em resumo, o REAC, como já se afirmou acima, trata e previne doenças graves em todas as idades, desde a fase pré-concepcional e durante a gestação, mas também tratando o recém-nascido, a criança, o adolescente, adultos e idosos. Em pessoas normais, aumenta a eficiência mental, tanto que é utilizado pela Força Aérea Italiana. Isso significa que executivos podem usá-lo como um bom investimento para aumentar a produtividade, definida como “fazer a mesma tarefa com menor custo em épocas de crise” e “mais tarefas com o mesmo custo em épocas normais”.

Além de otimizar a qualidade de vida cognitiva, afetiva e psicomotora, o REAC promove o acréscimo de vida por aumentar o chamado “telômero”, molécula que mede a longevidade biológica. No que diz respeito à qualidade cognitivo-afetiva, aumenta o NGF, molécula da resiliência, melhorando o poder de solução dos problemas emocionais e o poder de resistência ao estresse psicossocial, diminuindo, assim, o risco de adoecer, envelhecer e morrer antes do tempo.

Como existe sinergismo entre os códigos de frequência do cérebro e os códigos de linha química para produzir códigos tridimensionais de regeneração neuroplástica, nossa experiência com centenas de casos graves em todas as idades mostra a aceleração dos resultados do REAC com a utilização de nutrientes, principalmente “smart nutrients” que otimizam estes resultados e amplificam a inteligência emocional no contexto de recursos ortossistêmicos. Em se tratando destes recursos, ver o site http://www.ortosistemica.com.br.

Maiores informações poderão ser obtidas através dos telefones (51) 33791039 e (51) 33791084, com o Dr. Juarez Callegaro, que participou de curso sobre o REAC no Instituto Rinaldi Fontani em Florença, Itália.

Quando o inocente vira réu

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Foi a vitória do crime organizado. Eduardo Cunha, indiciado como réu no STF, foi o grande vencedor da votação que aprovou o impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados em Brasília, há pouco. Mas aqueles que veem nele um instrumento para tirá-la da presidência do País devem ficar em alerta: ao contrário do que pensam – usá-lo agora e jogá-lo fora depois – ele vai permanecer lá. No cargo. E quem vai garantir isso são os que hoje lhe deram a vitória. Portanto, com força que ele tem, não duvido que chegue à presidência da Nação.
Deu de tudo no circo armado por Cunha. Estranhíssima, por exemplo, foi a justificativa de um deputado paraense que, favorável ao impeachment, afirmou que seu voto era “para cassar o Brasil pelo Pará”. Então tá. Além disso, deu para medir a força da Igreja Católica nessa votação. Pelo jeito, nula: embora a CNBB tenha se manifestado oficialmente contra o impeachment, essa posição não ecoou entre seus fiéis na Câmara. Enquanto isso, chamou atenção o número de votos em que a justificativa incluía o respeito “evangélico” pela vida e pela dignidade. Todos a favor do impeachment em um processo viciado na origem porque conduzido por Cunha, um réu. Onde está dignidade alegada pelos evangélicos?
Este resultado que agora está sendo comemorado pela oposição é chocante por vários motivos. Um deles é que seus construtores buscaram, mas não provaram, o cometimento de crime por parte de Dilma Rousseff. Sem base para ser julgada, ainda assim ela foi julgada e condenada por um bando de deputados que, como se diz popularmente, tem o rabo preso e se apoia mutuamente. É como se o assassino usasse a tribuna para julgar e condenar sua vítima. O inocente vira réu.
O que será a partir de agora? O juiz Sérgio Moro já deu a senha: quer terminar a Lava Jato até dezembro. Para bom entendedor meia palavra basta: até lá haverá um jeito de varrer todas as sujeiras da oposição para debaixo do tapete. E seguiremos em frente neste País sobre o qual De Gaulle teria dito que não é sério, mas não disse. E se tivesse dito teria errado. O Brasil é, sim, um país sério. Um caso sério. De hipocrisia, em que a bandidagem nas ruas é fichinha se comparada com a bandidagem que flui no Congresso, sob comando de Cunha, que, pelo até agora, também conta com o olhar complacente do STF.

Denúncia de assédio

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Vou contar uma história que, acredito, vai interessar a muita gente deste país: há cerca de dois anos sofro o assédio, via telefone fixo, de gente que se diz representante da Editora 3. Essa perseguição começou quando, depois de um ano, decidi não renovar a minha assinatura da IstoÉ. A partir de determinado momento, a insistência virou ameaça – “é possível debitar os valores na sua conta usando o número do CPF”, ouvi. 
Então entrei em contato com a Editora 3 via telefone e via e-mail. As queixas que encaminhei e as respostas que recebi, com pedidos de desculpas, estão devidamente arquivadas. Fim do meu drama? Não. Ontem, sexta-feira, recebi chamada através de celular da Claro. Dessa vez ela veio do número: 05121981527 (tenho outros registrados, extremamente perseguidores). Do outro lado da linha, Marina – ela disse que estava falando de dentro da empresa Editora 3 – quis saber de meus motivos para recusar a revista. 
Fui paciente. Expliquei tudo outra vez. Em pormenores: desagrada-me o assédio do telemarketing e, como jornalista, considero a linha editorial da revista absolutamente ruim. Marina se mostrou compreensiva e atribuiu o assédio ao trabalho mal feito de terceirizados na venda de assinaturas e, mais uma vez, pediu desculpas. Fim do drama? Não. Hoje, pelo telefone fixo, ouvi: “Sou Adriana Rocha e falo da central de bloqueio”. De qual central de bloqueio? “Do Mastercard”, foi a resposta. E bloqueio do quê?
Então ela me informou que a “editora 3 lançou a renovação de sua assinatura em 12 parcelas de R$ 139,90”. Como assim? Protestei afirmando que considero isso um assalto. Despudorado. Mas, segundo a tal “Adriana”, a tal editora pode fazer isso agora e continuar fazendo porque tem acesso a minha contra através do meu CPF, que ela disse inteiro. Eu, obviamente, não aceitei o argumento, da mesma forma que me recuso a aceitar a renovação não autorizada de uma assinatura. Então veio a proposta: em vez de “12 parcelas a senhora paga três de R$ 139,90”. Recusei novamente. E ouvi mais uma proposta indecente: o pagamento de apenas uma parcela, agora de R$ 199,00. E qual o papel do Mastercard nisso? E qual a responsabilidade do Banco do Brasil nisso?
Para tornar o achaque mais confiável, a tal Adriana Rocha me passou dois números de telefone; através deles poderia conversar com ela em caso de dúvidas: 0800 883 0657 e (011) 32594105. A essa altura eu já estava em ponto de fervura. E cortei a ligação. Pronta para pesquisar: a quem pertencem esses números? Fui em busca da resposta. Então constatei, via internet, que não sou a única assediada no país. Não contente, entrei em contato com a Central de Atendimento do Mastercard, de onde ouvi que a alegada “central de bloqueio” em nome da qual se apresentou a tal Adriana simplesmente não existe; o Mastercard não faz esse tipo de chamada. Prestimosa, a pessoa me colocou em contato com a Central de Atendimento do Banco do Brasil, onde relatei o ocorrido. Mais uma vez.
Sei que estou contando uma desagradável experiência pessoal, mas resolvi passá-la adiante como alerta: as gangues no país não existem apenas no Congresso. Estão espalhadas, de forma organizada, pelo Brasil inteiro. Essa gente desonesta que opera na política, em Brasília, se criou bem aqui, na planície. A vocação para o malfeito se vê nas ruas. Por exemplo: o pedestre que atravessa o corredor de ônibus quando o semáforo está aberto para o coletivo; o morador do prédio que joga material reciclável no conteiner destinado ao lixo orgânico; aquele que perde a máscara da decência por causa de míseros R$ 3 milhões – míseros se comparados com os valores levantados pela Lava-jato e pela Operação Zelotes – quando define, em torno de uma solene mesa de reuniões, quem será o vencedor de uma licitação; e essa gente que tenta intimidar e impor a assinatura de uma revista. Enfim, a lama espalhada pela Samarco é somente parte da tragédia em que viver no Brasil se transformou. Essa terra maravilhosa, rica em diversidade, merece que seu povo seja mais honesto.

Com Verdi, choro. Com Wagner, rezo.

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De forma ou de outra, a música sempre fez parte da minha vida. Quando criança cantava a plenos pulmões e, quando não, auxiliava meu pai, copiando as partituras de arranjos que ele fazia (era organista e regente de coral). Depois aprendi a ler partitura em aula de teclado.
017Amo a Ospa, de tantas virtudes, e lamento muito que seja tratada como cigana: a construção da prometida sede própria está parada, segundo me confirmou hoje de manhã um músico da Sinfônica, depois do concerto no Auditório Araújo Vianna.
Foi belo o concerto, com participação do Quinteto Villa-Lobos e do Coral Sinfônico da Ospa, em excelente desempenho. Regência de Manfredo Schmiedt. Cada maestro tem sua forma de se comunicar com a orquestra. Gosto de como Schmiedt rege. A impressão que me passa é a de comando seguro sem arrogância.
O repertório de hoje foi eclético e encerrou com Brasileirinho, de Waldyr Azavedo. Mas todo ele me agradou, com algumas interpretações falando mais “alto”. Quero dizer, mexeram mais comigo. A de Carinhoso foi uma. O arranjo feito para essa obra de Pixinguinha vai do que parece uma tranquila declaração de amor a uma lamuriosa queixa, passando por momentos em que o amor vira um grito.
Mas nada se igualou ao seguinte: Va Pensiero, de Verdi na ópera Nabuco; e Wach Auf, de Wagner na ópera Mestres Cantores de Nürenberg. Va Pensiero sempre me comove. Hoje, a beleza da interpretação me levou às lágrimas. O coral da Ospa foi muito convincente. Wagner, que muitos consideram barulhento e odeiam por outros motivos, sempre me dá vontade de rezar, embora eu duvide de tudo. Talvez seja porque o compositor cria o caos na alma, porque questiona e inquieta. Mas depois consegue ordená-lo, transformando-o em música. É mestre. E do jeito dele também me emociona.
Então hoje chorei e rezei no Araújo Vianna. E voltei para casa cheia de energia e de gratidão. Obrigada Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

Como é trabalhar com Obama

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O jornal italiano Corriere Della Sera publicou, na edição de sábado, entrevista feita por Massimo Gaggi com Ben Rhodes. Mas quem é Rhodes? Bom, ele trabalha na Casa Branca, onde seu espaço físico se resume a 10 metros quadrados, sem janelas. Portanto, claustrofóbico não é. E o que faz ali nessa sala “microscópica”?

Rhodes define seu trabalho como experiência única

Rhodes define seu trabalho como experiência única

Ben Rhodes, 37 anos de idade, trabalha com e para o presidente Barack Obama desde a campanha eleitoral que o levou ao primeiro mandato. Portanto, está ao lado dele há sete anos. De lá para cá, a relação foi se estreitando de tal maneira que hoje ele diz, sem medo de errar, que “já entrei na cabeça dele”. E não poderia ser diferente. Esse emprego, realmente “full time”, cobra sua renúncia às férias e ao sono, inclusive porque Obama gosta de revisar os discursos – escritos por Ben – depois da meia-noite.

Ao longo dos últimos sete anos, Rhodes trabalhou em projetos muito caros ao presidente dos Estados Unidos e altamente secretos, também como conselheiro. Entre eles, a reaproximação com Cuba. Também já viu a reação dele diante de notícias como a tragédia Lo Porto e a morte de reféns. E diz: “Eu vi, literalmente, Obama envelhecer diante de meus olhos”.

Mas nesta entrevista falta um assunto importante: no dia 11 de setembro, Obama assinou a prorrogação – por mais um ano – do embargo econômico imposto a Cuba no dia 7 de fevereiro de 1962, quando John Fitzgerald Kennedy presidia Estados Unidos. Em declaração sob anonimato, um alto funcionário do governo norte-americano explica que “essa decisão implica, ainda que pareça o contrário, que Obama segue mantendo sua autoridade e “flexibilidade” para relaxar as sanções a Cuba mediante decretos executivos”.

Afora isso, o jornalista italiano aceitou sem questionar a resposta rápida – e evasiva – do conselheiro de Obama sobre a ajuda norte-americana aos que fogem de países convulsionados e em ruínas, como Iraque e Síria. Por que não insistir no tema? Afinal, a política externa intervencionista dos Estados Unidos é altamente responsável pela miserabilidade dos que agora buscam refúgio na Europa, pois abriu espaço para o radicalismo dos integrantes do EI.

PQuais foram os momentos mais dramáticos que já viveu com Barack Obama-delivers-a-statement-on-the-situation-in-IraqObama?

Ben Rhodes – A morte de 17 navy seals (do Comando Naval de Operações Especiais) quando, em 2011, os talibãs abateram um helicóptero durante uma missão no Afeganistão ordenada pelo presidente. E, mais recentemente, o voluntário italiano Giovanni Lo Porto e o refém americano Warren Weinstein foram feridos em ataque de drone ordenado para eliminar terroristas. Eu estava com Obama quando a notícia chegou e “o vi, literalmente, envelhecer diante de meus olhos. Comecei imediatamente a escrever um comunicado, mas ele próprio queria escrevê-lo”. Disse: “Isso aconteceu em decorrência de uma decisão tomada por mim, preciso enfrentar as câmeras, para explicar e assumir a responsabilidade”. Também houve momentos belos: a bandeira hasteada na embaixada dos Estados Unidos reaberta em Cuba; a aliança com a China para evitar o desastre ambiental; o acordo nuclear com o Irã. E eu estava com Obama no Salão Oval da Casa Branca quando, há dois anos, ele falou pelo telefone com o presidente Rouhani (do Irã). O momento foi emocionante: sentimos o peso de tudo que havia acontecido desde 1979, mas também vimos a oportunidade que se abria.

No centro dos acontecimentos

Ben Rhodes explica que precisou modificar seus projetos familiares, porque um trabalho como este provoca uma reviravolta na vida da gente. Um exemplo: “Faz dois anos, no meu primeiro dia de folga, aconteceu o ataque químico sírio. Cancelei tudo. Neste ano passei minhas férias ao lado do presidente, em Martha’s Vineyard: convocado de urgência por causa da crise na Ucrânia e por causa da ofensiva do Isis (radicais islâmicos). Mas é assim todos os dias. As crises na Ásia, na África ou na Europa vão sendo enfrentadas quando explodem, a qualquer hora. E Obama ama revisar seus discursos à noite. Às vezes me pede que volte à Casa Branca depois da meia-noite”.

É duro. E “quem se vai daqui logo melhora de aparência: perde peso e parece cinco anos mais jovem”. O que o segura na Casa Branca? “Fico neste subterrâneo sem janelas porque aqui estou no centro dos acontecimentos e aqui se tem uma oportunidade única de plasmar um período histórico de grande complexidade e de profundas transformações. Não existe outro trabalho como este e já sei que vou sentir falta dele. Além de tudo, ficar significa ver a realização de um projeto, colher os frutos de um trabalho feito”. Mais um exemplo: “Obama anunciou o objetivo de recolocar o Irã no tabuleiro internacional em 2007 e está cumprindo uma promessa de sua primeira campanha eleitoral. Se eu tivesse ido embora há três anos não teria visto o acordo nuclear realizado, a batalha politica para que fosse aceito, o voto do Congresso que bloqueia as tentativas de êxito”.

PHá quem acusa Obama de conduzir uma política externa um pouco “naive”, porque aceitou uma exigência baseada sobre a esperança de que Teerã renuncie às armas atômicas depois de experimentar o benefício do retorno à comunidade internacional. Esperar, dizem, é legítimo; mas não é uma estratégia de segurança nacional.

Com Rouhani, do Irã, a busca de um acordo sobe a energia nuclear

Com Rouhani, do Irã, a busca de um acordo sobe a energia nuclear

Ben Rhodes – Eu acredito que seja “naive” tentar desmontar um acordo negociado ao longo de anos, metodicamente, com grande determinação e cuidado com todos os detalhes, em nome do retorno a uma lógica do passado que nada produziu de bom. Negociamos durante anos sobre tudo, procurando cada salvaguarda possível para assegurar que os iranianos não trapaceassem. Certo, o regime de Teerã continua sendo profundamente diferente, mas este é o mundo em que vivemos. E o acordo pode abrir o caminho a cenários e soluções políticas que há um tempo eram impensáveis. Não se pode partir do pressuposto de que Irã nunca irá mudar: em política externa é preciso considerar as oportunidades, não somente as ameaças.

PO senhor estudou Ciências Políticas, mas fez seu mestrado em Literatura. Sente falta de uma carreira diplomática?

Ben Rhodes – Antes de trabalhar com Obama trabalhei, durante cinco anos, para o senador Lee Hamilton. Com ele me ocupei muito dos negócios internacionais. E também iniciei então a minha carreira de speechwriter.

Da ficção ao poder

PComo chegou à política? Depois da universidade parecia que gostaria de ser escritor. Deixou um romance pela metade – Oasis of love , sobre uma mulher que abandona seu namorado para entrar na congregação de uma mega igreja de Houston. Vai terminá-lo quando deixar a Casa Branca?

Ben Rhodes – Não, vai continuar na gaveta. Não sei o que farei no futuro. O que estou fazendo permanecerá como experiência única. Não me vejo entrando e saindo de cargos administrativos. Quero, seguramente, ser um autor, mas não no campo da ficção. Quanto à dedicação à política, é uma decisão que tomei há exatamente 14 anos, no dia do ataque às torres gêmeas (Wordl Trade Center). Estava em Brooklyn, ajudando um conselheiro comunitário em sua campanha eleitoral. De lá vi o segundo avião da Al Qaeda entrar na torre e, depois, o primeiro arranha-céu se desmanchando e caindo. Então decidi passar dos relatos de fantasia a qualquer coisa que tivesse contato com a realidade política.

PObama olha para a Ásia, ao livre comércio e ao meio ambiente, mas a emergência de todos os dias é o terrorismo. Em uma guerra feita com drones há menos vítimas que com o envio de tropas, mas ele termina emitindo sentenças de morte sem processo. Por que Obama tomou esta responsabilidade em vez de delegá-la aos militares?

Ben Rhodes – Esse é um dos tormentos dele. É uma coisa terrível, mas também sabe que é o menos cruel dos instrumentos à sua disposição. Por isso tem sido muito prudente no uso do aparato bélico americano. No entanto, para também procura codificar para o futuro – sempre que possível – um sistema baseado em dados objetivos, a fim de reduzir ao mínimo o arbítrio da intervenção presidencial. Mas a responsabilidade final deve ser da Casa Branca.

PA América que promete acolher mais dez mil sírios não parece pronta a fazer muito.

Ben Rhodes – No fim dos tempos do Vietnam acolhemos muitos refugiados. E temos nossos problemas na América.

PPode contar alguma coisa sobre as tratativas secretas para Cuba, que conduziu pessoalmente? E até que ponto esta reaproximação é também mérito do papa Francisco, que estará em Havana nos próximos dias – de 19 a 21 de setembro -, antes de sua visita aos Estados Unidos?

A bandeira novamente hasteada na embaixada de Cuba, um momento histórico

A bandeira novamente hasteada na embaixada de Cuba, um momento histórico

Ben Rhodes – Negociamos durante um ano e meio com os cubanos, mas em total segredo. Nossos encontros ocorriam em Ottawa, no Canadá. Foi um tempo necessário para nos conhecermos e para construir um clima de confiança recíproca. Havia muitos nós, difíceis de serem desatados. Quando, finalmente, parecia que havia um bom rascunho, fomos todos ao Vaticano. Foi um momento incrível: nós e os cubanos lado a lado transformando coisas antes ditas de modo informal em compromisso diante da autoridade da Igreja. De repente tudo se tornou real: não havia mais como voltar atrás. Lembro-me da rapidez com que saí do Vaticano com o outro negociador americano. Vagamos por Roma, depois fomos jantar num restaurante típico, sabendo ambos que tínhamos feito a nossa parte: agora estava tudo nas mãos da Igreja. O papel do papa foi fundamental. E não somente em se tratando de Cuba. Ele é um líder espiritual, mas também um personagem cuja voz é importante no desafio que enfrentamos todos os dias, da desigualdade ao meio ambiente. O pontífice tem sido grande fonte de inspiração em várias frentes para o presidente, que está impaciente. Quer recebê-lo em Washington.

PO papa na Casa Branca abre uma temporada intensa. Obama coloca em jogo boa parte de sua herança política.

Ben Rhodes – É verdade. Temos a visita do presidente chinês, Xi Jinping, à Assembleia da ONU, esperamos fechar o tratado de “free trade” com a Ásia e chegar a um grande acordo sobre o clima na Conferência de Paris, em dezembro: uma exigência feita na Conferência de Copenhague em 2009 e que não deu os resultados esperados. Este é outro motivo para ficar na Casa Branca e colher os frutos, como disse antes.

PO que faz com que sua comunicação com o presidente seja tão estreita?

Ben Rhodes – Acredito que se deve ao fato de ter uma sensibilidade bastante semelhante à dele. Depois, à sua vontade de assumir riscos, de desafiar o velho modo de Washington de enfrentar os problemas: virar a página e abrir caminho para uma geração mais jovem. Mas também contribui muito o fato de trabalhar com ele como speechwriter, uma atividade que te leva a um contato estreito com teu chefe. Quando se escreve para alguém é preciso conhecer bem essa pessoa, porque está fazendo algo de muito pessoal, que é exprimir as ideias dela, comunicar suas visões. Esta é uma experiência única.