Como a grande maioria dos brasileiros, cresci ouvindo histórias sobre a Floresta Amazônica, sua imensidão, seus moradores e seus mistérios. Em sala de aula, os professores diziam que ela está representada no verde da bandeira. Claro, ao lado de outras do País. Depois comecei a ler sobre sua importância como “pulmão do mundo”, essencial à sobrevivência de seus habitantes – bichos e tribos de índios – e à humanidade. Mesmo assim, nunca me passou pela cabeça sobrevoá-la três vezes no espaço de seis meses – de janeiro a julho deste ano – e navegar por seus caminhos indefinidos, os igapós, que se formam na mata alagada pela água do Rio Negro durante o inverno, de dezembro a junho. Vivi essa aventura no dia 16 de julho. E o medo? Afinal, corro o risco de me afogar numa poça de água em dia de chuva.

Em Manaus, a curiosidade se impôs mais uma vez, jogando os alertas a escanteio. Aliás, foi assim também há 12 anos, quando cometi a boa insensatez de navegar entre as quedas de água e a rocha em Foz do Iguaçu. Além disso, agora havia a promessa de ver, bem de perto, o encontro das águas dos rios Negro e Amazonas, a 18 quilômetros de Manaus. O fenômeno tem motivos que o Globo Repórter exibido em agosto não explicou: uma delas é que a velocidade do Amazonas é de 8 km/hora; e a do Negro não passa de 3 km/hora; outra é a densidade, que é maior no Rio Negro, com águas também mais quentes (25 graus) que as do Amazonas (21 graus).  Por causa dessas características os dois não se misturam, correndo paralelos ao longo de seis quilômetros. O que deixa isso bem visível é mais uma diferença: a cor. A do Amazonas é marrom, por causa da erosão que provoca nas margens; a do Rio Negro é bem escura, devido à decomposição de material orgânico e à rocha sobre a qual corre.

O roteiro completo da viagem, preparado pela empresa de turismo Amazon Explorers, consome seis horas e custa R$ 100,00 por pessoa. Depois de acomodados em uma embarcação, que pode ser de dois ou três andares, os passageiros recebem uma sequência de informações sobre o que vão encontrar no Rio Negro: 20 postos flutuantes de combustível derivado dos, em média, 55 mil barris diários de petróleo extraídos do subsolo de Urucu – norte do Amazonas; uma indústria de gelo – o Gelão; e a poesia de uma vila de casas construídas sobre toras de um tipo de madeira que tem  durabilidade de até 45 anos na água – incluindo igrejas, escola e transporte escolar feito em botes.

A navegação nos igapós é feita em pequenos botes, porque a largura das trilhas não comporta as grandes embarcações. Nesses caminhos, o visitante encontra a Vitória Régia em comunidade. São dezenas de pratos verdes e sobre eles passeiam famílias de pássaros. O guia explica que cada um suporta até 20 quilos, se bem distribuídos. Como não gosta da luz solar, a flor abre somente à noite, em três fases: branca, rosa e roxa.

Um pouco adiante, o que se vê mais parece uma escultura de pedra que chega a 40 metros de altura. É uma samaumeira de 400 anos. Seu valor comercial está na fruta. Parecida com o abacate, ela contém  uma espécie de algodão, que os manauaras usam em travesseiros e almofadas.

A samaumeira não está na mira dos desmatadores. Os filhos da mata agradecem. Eles usam as raízes da árvore – batendo nelas – quando se comunicam com a tribo. Cada recado tem um som. “Por isso dizemos que a samaumeira é o celular dos índios”, brinca o guia, enquanto orienta a volta dos botes ao rio Negro e ao cais flutuante de Manaus.

Anúncios