Meio a contragosto. Foi assim que cheguei ao Aeroporto Salgado Filho no dia 21 de janeiro deste ano.  Mas o que diria a meu filho, que estava à minha espera em Manaus, se desistisse da viagem? Então dei um chega para lá na sensação de desconforto, causado pelo que vinha ouvindo por aí sobre a inclemência do clima no Amazonas – uma dramática combinação de umidade/calor -, e despachei a bagagem. Não me arrependi. Pelo contrário, constatei mais uma vez que a ignorância produz medos inúteis.

Entre Brasília e Manaus, a escuridão da noite impediu qualquer visão da Floresta Amazônica que levava na imaginação. Na manhã seguinte, da sacada do apartamento, entrei finalmente em contato com ela. Quase ao alcance da mão, do outro lado da rua, a mata se mostrou em nuances de verde, em várias alturas e em sonoridades que vão do canto da arara ao que parece uma conversa sussurrada entre as folhas movidas pelo vento. Alguns de seus moradores se apresentaram sem demora com suas carinhas brancas, saltando de galho em galho com impressionante agilidade. No que me parecia ser a primeira refeição do dia, eles competiam com outros da espécie, totalmente pretos. Todos em busca das frutas que pintam as copadas de vermelho. Mas o alarido da turma não durou muito tempo, porque a nesga de sol que iluminava o começo da manhã desapareceu em seguida e a nuvem desabou em forma de água.

De dezembro a junho, a chuva é donna mobile em Manaus. Começa num momento e termina no seguinte, nunca em toda a cidade, mas em alguma parte dela. Às vezes se anuncia ribombando. E nada acontece. Mas alaga as avenidas sempre que avança em camadas, silenciosa, desde a linha do horizonte. Sua assiduidade explica por que a Floresta Amazônica é chamada de Rain Forest, em inglês, e de Regenwald, em alemão.  As duas denominações dizem a mesma coisa sobre essa “farmácia a céu aberto”, que, além de atrair aventureiros de todo tipo, está no foco de pesquisadores patrocinados por importantes laboratórios estrangeiros. Também por isso faz sentido a enorme área que o Comando Militar da Amazônia ocupa.

Manaus não tem mar. Mas tem calçadão e “praia” na Ponta Negra, um reduto que o povão invade em busca de diversão. Quando chove, a festa desses manauaras continua nas tendas que vendem sucos de frutas típicas do Amazonas – graviola, buriti, açaí e cupuaçu entre elas. Os bem-aquinhoados moradores da Ponta torcem a cara para essa “invasão barulhenta”, totalmente na contramão do isolamento que buscaram na escolha da moradia – na área não há padaria, supermercado, shopping, farmácia. Mas isso deverá piorar nos próximos anos, por causa da Copa de 2014. O estádio que vai receber os jogos está em construção e muita gente se pergunta se o uso do dinheiro público se justifica já que o futebol ainda não passa de “pelada” no Amazonas.

Outro aspecto que chama a atenção em Manaus é a quantidade de sotaques nos restaurantes e lojas. Isso tem a ver com a economia do estado, fortemente marcada pela presença de empresas transnacionais e de outras regiões do país no distrito industrial da cidade. São mais de 500. É a Zona Franca de Manaus, onde as filiais das multinacionais fabricam motocicletas, relógios, aparelhos de ar-condicionado, DVDs, CDs e suprimentos destinados à informática, principalmente. A indústria local se restringe ao extrativismo, à produção de sucos e ao artesanato. Isso se reflete no comércio, onde o empreendedorismo gaúcho ocupa um bom espaço. O setor de móveis, por exemplo, está bem representado por marcas conhecidas de Bento Gonçalves e Gramado, como Florense, Todeschini, Favorita e Sierra. Se o freguês necessita de faqueiro e panelas, a Tramontina pode ser a solução. Precisa de cabides? Então o produto vem de Bento.

E a alimentação? Pode sair muito cara quando se quer preparar um prato de massas. Esse era o meu objetivo quando fui à procura de tomates. Precisava de quatro, tamanho médio, para cumprir a receita, e levei um susto ao ver o preço de uma bandeja com dois: R$ 29,90. Depois de muita procura acabei encontrando quatro, por R$ 12,90. Quem me explicou o motivo dessa exorbitância foi um motorista de taxi. Segundo me disse, a produção de tomates é muito escassa no Amazonas e não dá conta da demanda. Por isso, a fruta vendida nos supermercados é importada de outros estados.

O que no Amazonas vai à mesa cotidiana tem o peixe de água doce como base. Nem sempre delicioso. O Tambaqui, famoso como iguaria, me deu engulhos por causa do sabor de lodo, que é seu alimento no leito do rio e entranha a carne. O pirarucu, pelo contrário, é muito saboroso. Os dois fazem parte das especialidades do restaurante Banzeiro. No Roma, um anexo do supermercado de elite de mesmo nome, uma das dicas é o sushi. Outra é o bacalhau. O melhor café se toma no Frans, e a tigela de açaí com xarope de guaraná, tapioca, granola e rodelas de banana é um luxo revigorante servido no WakuSese.

A carne de rês também pode ser definida como luxo. E o Rio Grande do Sul comparece mais uma vez, servindo churrasco. O preço também é salgado: R$ 145,00 no Touro Louco, para duas pessoas. Vale? Um gaúcho sente a diferença, mas precisa levar em conta que o Amazonas não tem tradição na agropecuária, uma atividade econômica que exige grandes extensões de terra e significa desmatamento. Além disso, o gado criado na região é da raça nelore, com baixa produção de carne.

Manaus tem muitas caras em apenas duas estações: o inverno, de dezembro a junho, com a temperatura mais amena em torno de 23 graus; e o verão, a partir de julho, quando o calor acima de 40 graus queima o miolo do vivente. O povo de lá, quer dizer, os aclimatados – paraibanos, japoneses, alagoanos, gaúchos, paulistas, paranaenses, árabes – conta que nessa época do ano o turista sente a sua pressão desabando até o tornozelo.

Não vivi isso. Mas acredito que ainda não vi tudo nesta cidade em que o descaso com as regras do trânsito é de arrepiar. Na avenida de maior movimento da cidade vi um menino, quase bebê, agarrado à cintura do pai motoqueiro. Os dois estavam sem a proteção do capacete. Depois encontrei pai, mãe e filho na mesma situação. “O manauara encara tudo com a maior tranquilidade”, me explicaram. Enquanto isso, Manaus cresce e vai engolindo a floresta.  Há como evitar isso?

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