Deveria ser mais assídua, mas vou pouco ao Brique da Redenção. Em parte, isso acontece porque nem sempre me sinto confortável no meio da multidão. Mas o domingo estava iluminado. Pela janela, enviou-me um convite explicito para desentocar. Então tomei o rumo do Parque da Redenção e lá me encantei de novo com o trabalho de dois artistas.  

Um deles é Mauro Bruzza, o Homem Banda. Também conhecido como Maurolauropaulo, ele explora seus talentos com muita competência, viajando da música ao teatro. Tudo ao mesmo tempo, o tempo todo. É um empreendedor, com uma autonomia invejável. Toca a gaita, os pratos, o chocalho e o que mais carrega consigo. Da cabeça aos pés a serviço de sua arte, tudo faz música.

A poucos passos dali, encontro a pintora Tina Felice, dedicada ao universo feminino. Nas telas dela predominam tons que transitam entre o amarelo e o marrom. São mulheres misteriosas, de rostos compridos e angulosos. Atraem. Mandam mensagens. Para alguns parecem melancólicas. Para outros, desconfiadas, serenas ou presunçosas. Conversam com os espectadores. Há algo nelas que remete a Modigliani, ao mesmo tempo em que resgatam volumes e linhas da escultura, arte em que Tina teve Francisco Stockinger e Vasco Prado como professores. Ela não entra em detalhes sobre a sua técnica. Conta apenas que pinta com rolo e que faz uso da água para chegar ao efeito que chama atenção no Brique da Redenção. Mais não diz.  

Longe do burburinho que cerca a arte na avenida José Bonifácio, o domingo iluminado ganhou uma nota que acelerou as batidas do meu coração. Nada a ver com harmonia e beleza. Aconteceu na Protásio Alves. Vi quando um jovem quebrou a garrafa que tinha recolhido do chão e escondeu debaixo do blusão de lã o que tinha sobrado na sua mão. Minha primeira ideia foi correr para o meio da avenida, mas desisti pensando que ele entenderia minha fuga como autorização para atacar. Fingi calma. Ele passou por mim conversando com os seus demônios. E eu tratei de agradecer ao meu anjo da guarda.

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