Cores e dores de Buenos Aires

Quantas vezes já visitei Buenos Aires? Perdi a conta. Estive lá em julho e voltei na semana passada. A diferença é que, desta vez, viajei à noite e vi a cidade do alto com suas avenidas e prédios iluminados. Uma linda imagem. E justifica plenamente o desejo que Piazzolla revelou em um de seus tangos:renascer no ano 3001 para fundar Buenos Aires novamente.

Em terra firme, a capital da Argentina chama atenção pela beleza de sua arquitetura, pela história preservada na arquitetura e na arte, pela fartura dos pratos servidos nos restaurantes, pelos cafés, pelo tango e pelo verde de suas praças. Entre elas, a Japonesa.

Plana, muito plana, a cidade é um convite permanente para quem gosta de caminhar e a qualquer momento pode ser surpreendido pelo alarido de manifestantes que reivindicam direitos, defendem ideias e denunciam abusos. Buenos Aires resume o que o escritor Marcos Aguinis escolheu como título para um de seus livros: Atroz encanto de ser argentino.

De olho. Estamos assim, agora que o valor do dólar frente ao real ameaça romper o limite de R$ 2,00. E temos companhia nessa vigilância: os argentinos. O temor deles é que a valorização da moeda norte-americana provoque um recuo no número de brasileiros que hoje povoam a Florida, onde o glamour das grifes foi expulso pela crise econômica.

Hoje, embora ainda conserve restos de soberba – em algumas lojas da Galeria Pacífico – a avenida mais badalada de Buenos Aires expõe o empobrecimento do país através de vários sinais. Entre eles, os ambulantes que expõem seus produtos sobre panos estendidos no chão; os artistas esperando que a generosidade dos transeuntes encha seus chapéus; a mão estendida para receber a esmola; e o  assédio acintoso que praticamente empurra o turista ao interior das lojas.

O problema é que, uma vez lá dentro, o brasileiro acaba descobrindo que, embora um real valha 2,17 pesos – cotação do final de semana passado -, essa vantagem se dilui nos preços que o comércio pratica. Exemplo: uma bota de cano longo custa cerca de 590 pesos, ou R$ 230,00 neste começo de primavera, já como liquidação. Portanto, paga-se aqui o que se paga no Brasil comentam os possíveis consumidores, já imaginando que não precisarão de uma segunda mala na volta para casa.

O trabalhador argentino que ganha um salário mensal de 1.500,00 pesos não acredita nos índices de inflação que o governo divulga, me conta a atendente de uma loja. Ele certamente não consome na Florida. Vai aonde para comprar? Também não à avenida Alvear, onde o arquiteto francês Carlos Thais, criador do Jardim Botânico, imprimiu a sua marca. A avenida é o endereço das embaixadas do Brasil, da França e do Vaticano. Além disso, de grifes famosas como Ralph Lauren, Armani, Versace e Louis Vuitton. Lá, a clientela é endinheirada e não se preocupa em ver os preços do luxo antes de entrar nas lojas. Aliás, as vitrines não expõem valores. Lá, o povo assalariado “mira e anda”. Por isso, a Alvear também é jocosamente conhecida como “miranda”.

Os argentinos dizem que a Alvear é a quinta rua mais cara do mundo.  Será? A dúvida faz sentido, porque também continuam afirmando que a Avenida 9 de Julho é a mais larga do  planeta – 140 metros e 23 praças ao longo dela -, embora saibam “que foi superada em outro país”, diz a guia de turismo Estela, referindo-se ao Eixo Monumental de Brasília, que tem 12 pistas e 250 metros de largura. Ela brinca.“Gostamos de terminar nossas frases dizendo que somos a primeira, a segunda ou a quinta em alguma coisa”. Com a mesma dedicação, alimentamos a “cultura do manifesto” três vezes por semana, atrapalhando o tráfego na larga avenida. “E quem sabe por quê?”

O grupo de ex-combatentes da Guerra das Malvinas sabe por que abre faixas na frente da Casa Rosada. Na realidade, seus integrantes não chegaram até as Malvinas para enfrentar as tropas britânicas, mas ficaram concentrados durante dois anos à espera da convocação. Agora reivindicam a pensão dada pelo governo aos que pagaram em armas, alegando que sua vida ficou em suspenso enquanto aguardavam o momento de entrar em combate. Também a turma ruidosa que parou o trânsito na 9 de julho no final da tarde do dia 20 carregando bandeiras tinha um motivo. No meio dela havia integrantes da Associação Civil dos Desempregados – a desocupação plena chega a 7,3% na Argentina, segundo levantamentos.

Era a terceira manifestação da semana: no domingo,dia 19,  integrantes da Comision de Ciudadanos em Defensa de los Derechos Humanos Internacional percorreram a Florida de ponta a ponta, convidando a população a assistir o audiovisual Psiquiatria: Uma Industria de la Muerte. Segundo os manifestantes, “250 mil niños en Argentina estan tomando drogas psiquiátricas que pueden conducirlos a la violência y al suicídio. Mas de 1.300 niños en el mundo mueren cada año por estas drogas”. Enquanto isso, psiquiatras de vários países estavam reunidos no Sheraton de Buenos Aires, em congresso mundial.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s