Buenos Aires tem uma longa e rica história. Dela faz parte a Defensa. A rua, toda em paralelepípedos, ganhou esse nome quando seus moradores fizeram resistência aos ingleses, afugentando-os com água fervente que jogavam das janelas. San Telmo foi seu primeiro bairro. Hoje é ponto obrigatório nos roteiros turísticos. Foi lá que nasceu o tango, do encontro musical entre espanhois, crioulos e, principalmente, imigrantes italianos.

Os franceses, pelo contrário, serviram de modelo aos argentinos e esse enamoramento continua até hoje. Deles, entre outras influências, Buenos Aires preserva características arquitetônicas como as grades de ferro que simulam sacadas nos prédios. O sonho era recriar a capital da França na América do Sul. E quando a fina flor de Paris aceitou o tango, a elite de Buenos Aires também se rendeu à dança que até então via como expressão da classe baixa, confinando-a nos cabarés e no reduto conhecido como La Boca, às margens do rio Riachuelo, aliás, “o mais poluído do mundo”.

Hoje o tango prolifera na capital argentina, oferecido em forma de espetáculo por preços que variam. No Centro Cultural Borges, instalado na Galeria Pacífico, o ingresso é de 60 pesos. Vi o show, que vai do tradicional ao eletrônico, do passional ao histriônico e inclui Piazzolla, compositor de formação erudita que ousou inovar e, por isso, enfrentou a ira dos conservadores. Fez sucesso em Porto Alegre. Com ele veio a cantora Amelita Baltar. Perguntei por ela nas lojas e ninguém soube me dizer o que é feito dela. Talvez seja por isso que, no Centro Cultural Borges, o cantor do show tem a coragem de se aventurar na Balada para un Loco, cometendo um pecado para quem conhece a interpretação de Amelita.

O fato é que nada restou do preconceito que o tango sofria lá pelos idos de 1870. Da condição de condenado, ele virou manifestação cultural da qual Buenos Aires se orgulha e que tem como chamariz de seu turismo. Mas quem deseja conhecer a fonte desse ritmo deve visitar o museu Caminito no La Boca, onde o colorido das casas, construídas com sobras de madeira tirada dos navios, chama atenção. Na rua, enquanto isso, bailarinos devidamente caracterizados se oferecem às turistas para compor uma cena que possa ser fotografada e levada como recordação.  E nada é de graça.

Uma visita ao Teatro Colón

Outro grande orgulho de Buenos Aires é o Teatro Colón. Ele é mantido pelo governo da cidade e emprega 1.300 funcionários. A guia desconversou quando perguntei o custo mensal da manutenção desse prédio monumental, onde a escadaria que leva à plateia é metáfora para a “elevação da alma”. Mais do que centenário, ele foi inaugurado em 1908, com a ópera Aída, do compositor italiano Giuseppe Verdi. Muitos anos depois, Pavarotti afirmou em entrevista que “o Teatro Colón tem um grande defeito: é perfeito em seu formato”. O que ele quis dizer com isso é que a distribuição do som é tão boa que nada vai escapar do ouvidos de quem está na plateia, nem o menor erro. O teatro não tem microfones e os argentinos contam com prazer que ele figura “entre os cinco melhores do mundo”.

Sua estrutura inclui três subsolos, nos quais funciona uma escola – como um centro de música –, a oficina em que são produzidos os figurinos e um museu das montagens realizadas. Teatro-fábrica é uma definição adequada para o Colón, que tem sua entrada principal na rua Libertad.

Mas nada fica incólume à passagem do tempo. Nem o Colón, que também foi palco das festas de Carnaval da elite de Buenos Aires até 1936, quando os organizadores usavam barras de gelo na plateia baixa para manter a temperatura em níveis suportáveis aos foliões. A umidade resultante desse procedimento contribuiu para deteriorar o teatro. Por isso, em novembro de 2006, suas portas foram fechadas e 1.500 trabalhadores deram andamento às reformas necessárias e orçadas em 100 milhões de dólares.

Parte desse trabalho está concluída, o que permite a retomada das visitas guiadas – 60 pesos por pessoa. Por enquanto, o visitante tem acesso à Galeria dos Bustos, ao Salão Dourado e à plateia, que tem piso móvel giratório, fosso para orquestra de 98 músicos, cenário com 48 metros de altura e lustre central que pesa uma tonelada e meia. Além disso, conta com um recurso “secreto”, que a guia revela: no alto, em volta do lustre central, há espaço para 15 integrantes do coral, encarregados dos efeitos especiais que as obras pedem. No dia 20, a cortina abriu para a estreia da ópera Lohengrin, de Richard Wagner. O ingresso mais acessível custa 150 pesos e, nesse caso, o espectador vai para o “paraíso”, ou “galinheiro”. É a galeria mais alta, onde, segundo a guia, a perfeição do som compensa o que se perde na visão do que acontece no palco.

Em contrapartida, os moradores de Buenos Aires não se orgulham de sua favela, nem querem que ela vire atração turística, como acontece no Rio de Janeiro. Em julho, a guia pediu “não fotografem, porque eles não gostam”. Ela se referia aos moradores do bairro Privado, que seriam “bolivianos e peruanos em sua maioria”. Estela, outra guia, não repete esse discurso. Jocosa, afirma que o nome do bairro se justifica: “Privado de comida; Privado de escola; Privado de saúde; Privado de tudo”. Mas isso deverá mudar, porque o governo da cidade está implantando uma campanha de inclusão social para melhorar a vida dessa gente, oferecendo vacinação e escola.

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