Sabato, agora sem muro

Melancólico, impaciente, ensimesmado e carente. Ernesto Sabato, pintor e escritor, carregou toda essa complexidade ao longo de sua vida e chegou a se definir como “um anarquista no melhor sentido da palavra; não alguém que joga bombas, mas alguém como Tolstoi”. Buenos Aires o ama e lhe rende homenagem.  Impossível não vê-la por quem transita pela Avenida 9 de Julio, onde sua imagem ocupa boa parte da fachada de um banco. Embora se mantivesse distante dos holofotes que a fama traz consigo, quem convivia com ele afirma que atrás da aparência até meio fria, para não dizer soturna, havia o desejo muito intenso e inesgotável de ser acarinhado.

Nascido em Rojas, Província de Buenos Aires, no dia 24 de junho de 1911, Ernesto Sabato Ferrari morreu quase centenário, em 30 de abril de 2011. Preferia os dias ensolarados, mas aos outros parecia “um hombre de otoño o de invierno”, porque carregava uma tristeza silenciosa e sem cura. Ele a descreveu em Antes do Fim, a autobiografia que lançou no final dos anos oitenta: “De alguna manera, nunca dejé de ser el niño solitario que se sintió abandonado, por lo que he vivido bajo una angustia semejante a la de Pessoa: ‘Seré siempre el que esperó a que le abrieran la puerta, junto a un muro sin puerta”.

Matilde Kusminsky-Richter, mãe de seus filhos Jorge (ministro de Educação no governo de Alfonsín e morto em um acidente de carro) e Mário (cineasta), confirmou esta necessidade em carta ao escritor Carlos Catania. Ela escreveu que “… Sabato es un hombre terriblemente conflictuado, inestable, depresivo, con una lúcida conciencia de su valer, influenciable ante lo negativo y tan ansioso de ternura y de cariño como podría serlo un niño abandonado. Esta necesidad casi patológica de ternura hace que comprenda y sienta de tal manera a los desvalidos y desamparados”. Catania incluiu a declaração de Matilde na introdução do livro em que reúniu suas “conversaciones” com Sabato.

De onde lhe vinha po temor da própria alegria? Em parte, da relação com o pai, Francisco Sabato, descendente de montanheses sicilianos “acostumados às asperezas da vida”. Em outra parte da mãe, Juana Maria Ferrari, que pertencia a uma antiga família de albaneses e “foi obrigada a suportar as carências com dignidade”. Elvira González Fraga, que o conhecia desde 1962, conta que quando sua novela mais comentada – Sobre herois e tumbas – apareceu na língua dos antepassados maternos, Sabato foi com um exemplar até a casa dos pais, o peito estufado de orgulho. Mas não encontrou o reconhecimento que buscava: a mãe nem mesmo abriu o livro; colocou-o de lado, passando a falar sobre problemas familiares. O escritor viu nisso a repetição de uma cena de sua infância: sempre que voltava do colégio com as melhores notas da turma, o pai assinava o boletim sem ver o resultado do esforço feito pelo filho. Um entre onze.

Deixou de publicar novelas a partir de 1974, quando lançou Abaddon, o exterminador, desdenhado pela crítica. Mas em 2004 começou a ditar seus textos.  Parou de pintar em 2008, dois anos antes de morrer. Elvira conta que houve um momento em que Sabato passou a acreditar que não tinha mais condições de competir com os mais jovens.  Foi em 2002, quando visitou José Saramago em Lanzarote e o encontrou cheio de energia. Isso fez com que se sentisse diminuído, refém já da angústia da velhice.

Mas seguiu pedindo tintas e, segundo Elvira, “quando apertava o tubo e a cor saía dele já era motivo de festa.” Continuou gostando da leitura e, sem que o pedisse, ela lhe leu livros dele – Ol túnel, Sobre herois e tumbas – e alguns textos de seus autores favoritos – Juan Rulfo, Flaubert, Kafka, Stendhal, Dostoievski.  “Quando eu lhe lia os seus textos, ele ficava olhando, pensativo, para o nada. Era a atitude de um menino extasiado diante de um pensamento que não dominava, ou talvez fosse o semblante de um ferido de guerra.” Asim que descobriu que poderia representar começou a “fazer um esplêndido Pedro Páramo (de Rulfo), brutal, mas também interpretava Dom Quixote, Sancho .. .e lhe fascinava o final da história, quando Sancho Pança explica a Quixote que tudo aquilo pelo qual lutava não era uma utopia, mas realidade”, lembra Elvira.

Em seus livros autobiográficos, incluído o último – Espanha nos diários de minha velhice (2004)-, o próprio Sabato endossa o que Matilde também escreveu em sua carta a Catania: “Mas também – e devo sublinhar que cada vez menos – ele é arbitrário e violento, até agressivo, ainda que eu creia que estes defeitos são produtos de sua impaciência (…). Para escrever, para liberar-se de suas obsessões e traumas necessita ver-se rodeado de um muro de carinho, de compreensão e de ternura (…); é, desde menino, uma alma meditativa, um artista”. Elvira acrescenta que Sabato amava a música, a perfeição da beleza, o vinho e as comidas picantes, mas nunca renunciou ao sentimento de urgência imperativa. “Tudo devia ser urgente, até um copo de vinho”, diz. E não pedia, mandava: “Alcança-me um copo de vinho. É urgente!”

Melancólico, fechado, carente, retraído, impaciente, arbitrário e agressivo. Escritor, pintor, professor e doutor em Física, que abandonou em 1943, preocupado com a aparente neutralidade moral da ciência e com a desumanização causada pela tecnologia. Sobre isso fez um alerta em seu primeiro livro – Nós e o universo – em que reúne artigos filosóficos. Sabato era um ser humano complexo, de “coração cândido e generoso”, segundo Elvira. Afastou-se de Luis Borges por motivos políticos. Depois reataram a amizade, mas se encontravam apenas esporadicamente e chegaram a compartilhar um livro. Foi amigo de Saramago até a morte dele. Mas gostava da literatura clássicas e do passado.

A vida literária foi seu objetivo, mas não publicou todos os livros que escreveu. Foi premiado dentro e fora da Argentina. Contraditório, foi feliz com pouco, embora amasse as multidões que o aclamavam quando já era um mito artístico e político. Mas valorizava o aplauso principalmente quando ele reconhecia seu trabalho civil frente à Conadep – Comissão Nacional sobre o Desparecimento de Pessoas – que jogou luz sobre os horrores praticados pela ditadura militar no país. Terminou o que os críticos chamam de a parte mais raivosa de sua autobiografia com estas palavras: “Quienes han unido a su actitud combatiente una grave preocupación espiritual; y, en la búsqueda desesperada del sentido, han creado obras cuya desnudez y desgarro, es lo que siempre imaginé como única expresión para la verdad”.

Agora, com sua imagem ampliada na fachada do banco em Buenos Aires, o outonal e retraído Ernesto Sabato está exposto a todo tipo de olhar, em dias de chuva e em dias de sol. O muro diante do qual chorava desde menino foi derrubado.

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