Enquanto dormimos

 

Durante muito tempo os cientistas não deram bola aos sonhos. Agora reconhecem seu valor: nos sonhos colocamos os fundamentos da nossa consciência, afirmam.

Ao longo de uma noite atravessamos ciclos de 90 minutos de sono leve, de sono profundo, geralmente livre de sonhos, e de sono REM. Este se caracteriza por forte movimento dos olhos (rapid eye movement), de onde vem seu nome. Nesta fase, que é rica em sonhos, ficam especialmente ativos todos os centros cerebrais que definem nossas emoções e representações.

Quanto maior a duração do sono, tanto mais longas ficam as fases de REM. E menos se dorme profundamente. Pessoas mais idosas têm, em geral, o sono mais leve, acordam mais vezes e ficam acordados por mais tempo e, enquanto feto no útero, o ser humano passa mais tempo em sono REM do que nas outras etapas de sua vida.

História

A Renascença da pesquisa dos sonhos começou com uma intensa vertigem. No dia 1 de fevereiro de 2001, o psiquiatra Allan Hobson, o mais influente pesquisador do sono das últimas décadas, estava sentado à mesa do café da manhã com sua mulher, Lia. De repente tudo girou em volta dele. Hobson, na época com 68 anos de idade, apoiou sua cabeça na mesa para manter o equilíbrio. Lia, neurologista, reconheceu os sintomas de um AVC – derrame cerebral – e levou o marido ao hospital. Uma artéria havia se rompido no cérebro do homem.

O derrame cerebral também perturbou o sono de Hobson. Nos primeiros dez dias, ele simplesmente não dormia. Seus sonhos demoraram mais tempo ainda para voltar. Em vez disso, tinha terríveis alucinações quando acordado – como se o seu cérebro quisesse muito sonhar. O primeiro sonho, 38 dias depois do AVC, veio justamente naquela fase em que reaprendeu a caminhar. Não era um acaso, disso Hobson está convencido – somente sonhando seu cérebro conseguiu recuperar suas faculdades básicas. A partir disso, ele também acredita: “Sem sonhos não existe autoconsciência”.

Justamente Allan Hobson! Antes disso, o psiquiatra tentava negar qualquer significado dos sonhos e os tinha, até, tratado como lixo das capacidades cerebrais. Hobson era, no mínimo, corresponsável pelo fato de vários cientistas evitarem o tema. Hoje, afirma que sem sonhos o ser humano passa a ter importantes dificuldades quando em estado de vigília (acordado).

E a gente sabe: quando um sábio muda seus pontos de vista, muitos outros o seguem. Assim, nos anos seguintes, a mudança de postura de Hobson fez com que os sonhos entrassem no foco das pesquisas – depois de terem sido marginalizados durante décadas. Cientistas que pesquisam o cérebro descobrem seus fundamentos psicológicos. Psicólogos examinam seu formato e seu conteúdo; psiquiatras tentam ver sua influência em nossa vida espiritual. A situação da pesquisa das diferentes disciplinas desenha um retrato em que o sonhar não é menos do que a autoconsciência.

Sonhar é um fenômeno cotidiano e ao mesmo tempo raro. Desde tempos antigos, os seres humanos se preocupam com o tema, sobre o que, noite após noite, lhes passa pela cabeça. As culturas primitivas entendiam os sonhos como recados e alertas divinos. Na Idade Média, eram vistos como anúncios de acontecimentos futuros. E viraram objeto de análise sistemática surpreendentemente tarde, no limiar do século XX. Freud foi o primeiro a substituir a velha interpretação dos sonhos, entendendo-os como mensagens de conteúdo erótico.

Ele teve sua vivência-chave no verão de 1895, quando tratava de uma paciente chamada Irma e a terapia empacou. Não conseguia ajudá-la. O socorro lhe veio do sonho que teve em uma noite. Era um sonho especial e não o deixou mais em paz: viu um amigo, também médico, aplicando uma injeção em Irma. Ele concluiu que atrás da cena noturna havia um desejo sexual, ainda que escondido, e que a injeção representava o ato sexual.

Até então, Freud não havia se dado conta da atração que sentia atração por Irma, mas no sonho o desejo reprimido conseguiu se revelar. Fez isso de forma de forma simbólica, para enganar a censura interna – a instância do cérebro que mantém os instintos sob controle. A fantasia noturna o levou à ideia mais importante de sua vida: interpretar os sonhos como desejos inconscientes.

A injeção dada em Irma é a primeira história que ele analisou em sua obra mais importante sobre a interpretação dos sonhos. Os sonhos e sua análise foram para ele o “caminho real até o inconsciente”. Paralelamente, Freud havia examinado a estrutura de caranguejos em Viena e cérebros de crianças em Paris, com um ambicioso programa de pesquisa em mente: “descobrir processos e torná-los incontestáveis”. Mas para construir uma ponte entre a Psicologia e a Fisiologia lhe faltava o instrumentário. Sem recursos, teve que reduzir seu estudo à interpretação e divulgar sua teoria para o mundo como uma evidência. E ela acabou dominando a Psicologia durante décadas.

Esse domínio existia ainda nos anos 1960, quando Allan Hobson começou seus estudos na Faculdade de Medicina de Harvard. Sua tese final tinha Freud e Dostoievski como tema. Mas logo teve dúvidas quanto às mensagens metafóricas do inconsciente. Essas dúvidas foram alimentadas através de um experimento drástico: na década de 1970, Hobson e seu colega Bob McCarley plantaram eletrodos em cérebros de gatos e destruíram caminhos neuronais na matriz cerebral – os animais perderam o especialmente rico sono REM..

Hobson e McCarley

A partir daí, Hobson e McCarley concluíram que das visões noturnas brotam os caminhos cerebrais que os mamíferos herdaram de seus antepassados anfíbios – e que certamente não são o lugar da consciência.Uma aparência enganosa de consciência só é possível quando essa região, na qual estão localizadas as funções mais importantes do cérebro, tentam reconhecer algo dos sinais que vêm lá do fundo. Na verdade, ali nada existe além de movimento neuronal – uma expressão que se tornou mantra dos detratores dos sonhos.

Por isso, para muitos cientistas os sonhos valiam nada. Ocupar-se com eles equivalia a colocar sua carreira em risco. Falar sobre o assunto menosprezando-os era de bom tom. O Prêmio Nobel de Medicina Francis Crick chegou a imaginar uma teoria de lixo orgânico para os sonhos: dizia que, durante o sono, o cérebro sonha para livrar seu arquivo do excesso de informações.

Somente em estudos mais espetaculares com animais essa teoria foi abalada. Na metade dos anos 1990, Matthew Wilson, pesquisador do sono no Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, encontrou um impressionante sinal de que a verdade sobre nossos sonhos é mais complexa.Wilson pesquisou com diminutos eletrodos a atividade de neurônios isolados no cérebro de ratos. Para isso, deixou as cobaias procurando chocolates em um labirinto e desenhou um padrão neuronal a partir dos sinais que essas corridas em busca do doce deixavam para trás.

Uma noite, esqueceu de desligar um aparelho de medição. Então o animal, que tinha adormecido, lhe forneceu algo surpreendente aos olhos: o cérebro adormecido repetiu os acontecimentos do dia. As sinapses se repetiram de forma tão precisa, que Wilson até pode perseguir e descobrir em qual parte do labirinto a cobaia acreditava se encontrar. Quanto mais tempo ficava olhando mais claro lhe ficava que ele e seu colega estavam vendo uma rata sonhando, lembra Wilson hoje. Ele acrescenta que, ver que a mente dos  animais percorria novamente o labirinto, literalmente, foi de longe o mais impressionante de tudo o que já viveu.

Entrementes, outros pesquisadores estavam observando também seres humanos, mas trabalhando com métodos mais cuidadosos, levando em conta que, durante a noite, recriamos aquilo que vivenciamos ao longo do dia. De todo modo, como qualquer pessoa sabe por experiência própria, a maioria dos sonhos usa fragmentos de lembranças e os combina com informações novas, criando imagens para o noturno cine/cabeça.Quando ficou claro que nossos sonhos nao são –  divagações sem sentido-, a pergunta realmente central se impôs: para o que servem? Os experimentos levaram os pesquisadores a uma direção clara: o cinema cerebral noturno nos torna saudáveis para enfrentar a vida consciente do dia a dia.

Sonhar torna a pessoa mais inteligente                                 

Que o sonho afia a nossas percepções e nos torna mais inteligentes, isso foi mostrado em 2010, através de um estudo realizado por dois pesquisadores de Harvard – Robert Stickgold e Erin Wamsley. Os dois permitiram que 99 voluntários se ocupassem com um jogo no computador durante 45 minutos, durante os quais deveriam procurar seus rivais em um labirinto. Depois, a metade deles tirou uma soneca, enquanto a outra metade assistia vídeos.Na sequência, houve uma segunda rodada de jogo no computador, com um surpreendente resultado: os quatro voluntários que haviam sonhado com o jogo do computador fizeram um violento salto de qualidade. Estavam, de repente, dez vezes melhores do que os outros, que não haviam dormido.

A conclusão que os pesquisadores tiraram dessa experiência é que o cérebro que sonha treina o que vivenciou durante o dia. Além disso, também chega a boas e completas novas ideias. Uma série inteira de experimentos mostrou que sonhar não apenas se ocupa de lembranças, mas também pode trazer à tona novos cohecimentos.Enquanto o cérebro relembra no sonho o que aconteceu durante o dia, também procura novos nexos e faz associações.

Sonhar quer dizer sentir

Uma comparação das imagens ocorridas no sonho com as ocorridas em estado de vigília  mostrou que o cérebro, quando sonha, não se ocupa com a mesma intensidade de todas elas, mas especialmente com as fortemente marcadas pela emoção. O sono com sonho fortalece, acima de tudo, a lembrança das imagens com as quais os voluntários em teste associaram vivências pessoais. Isso é plausível, porque na região do REM são especialmente ativos os centros cerebrais que definem nossos sentimentos e simulações. O cérebro que sonha é um cérebro emocional.Funciona um pouco como se estivesse alcoolizado – desinibido, temperamental e irracional.Sonhos são cheios de sentimentos como medo, agressão, desejo e alegria.

Matthwew Walker, pesquisador californiano do sono, examinou de forma metódica as reações sentimentais de voluntários. Já se sabia que as pessoas normalmente, durante o dia, reagem sensivelmente a rostos que exprimem raiva ou medo. Poderíamos dizer que, à medida que o tempo em que estamos acordados aumenta, vamos ficando cada vez mais sensíveis. O cientista conseguiu, finalmente, comprovar que uma boa porção de sonhos na fase REM corrigiu essa tendência em seus voluntários, tornando-os ao mesmo tempo mais acolhedores a rostos amigáveis.

De forma evidente, o cérebro resolve acontecimentos do dia com as emoções envolvidas e lhes dá um novo significado.Mas se os sonhos são tão excitantes, por que eles são tantas vezes dominados por sentimentos negativos? Exatamente por isso, acredita Matthew Walker. Vivências ocupadas pela negatividade, quando em outra situação de química cerebral, tiram a força emocional das lembranças.Walker fala aqui de redressing (nova roupagem): nos sonhos, as lembranças são despidas de emoções para que possam ser novamente vestidas. Uma série de estudos aponta para esta direção.

Sonhar nos coloca em equilíbrio

Especialmente impressionante é um estudo que pesquisadores concluíram recentemente em Munique, no Max-Planck-Institut für Psychiatrie. O foco era o medo. Victor Spoormaker e seus colegas deixaram que um grupo voluntários em teste voltasse a dormir normalmente; ao segundo grupo foi negada a fase do sono REM. Depois disso,  mostraram a todos eles uma série de formas geométricas. E sempre que aparecia uma determinada forma, por exemplo um círculo, aplicaram-lhes eletrochoques. Não eram realmente dolorosos, mas o círculo se associou nas mentes dos voluntários ao medo do choque a tal ponto que, bastava a visão dele para que começassem a suar.

Essa reação enfraqueceu com a passagem do tempo,depois que os eletrochoques pararam, mas nos voluntários que apresentavam déficit de  sonhos esse processo aconteceu mais lentamente.Em resumo: as cobaias humanas que tiveram a fase REM preservada, portanto os que puderam sonhar, mostraram um comportamento mais inteligente na elaboração de seu temor. Os que não haviam sonhado ficaram mais tempo inutilmente amedrontados.

Em nossa vida mental – espiritual – essa função dos sonhos ainda não está devidamente esclarecida. Mas estudos como os realizados em Munique mostram que eles equilibram nossas emoções. A situação fica delicada quando o cérebro tenta, sem conseguir, livrar-se de um medo e megulha cada vez mais nele.

Hoje, especialistas afirmam que a pesquisa empírica dos sonhos mostra que o pioneiro Sigmund Freud não superestimou o papel que eles desempenham. Ao contrário, ele o subestimou. Também Allan Hobson fez isso. Agora, acredita que o ser humano literalmente se recria nos seus sonhos: quando sonhamos, colocamos os fundamentos  para a consciência em estado de vigília – nos movimentamos em um mundo virtual que nós mesmos construímos -, inclusive sentimentos, conhecimento e percepção da realidade. Protobewusstsein (Protoconsciência) é o nome que ele dá a essa condição, base para todas as funções mais elevadas: pensamento abstrato, autorreflexão, experiência – e capacidade de julgar. A Protoconsciência de Hobson não está associada ao consciente – diferentemente do que acontece com o inconsciente de Freud.Totalmente ao contrário. É o estado mais importante, a base. Para Hobson, os sonhos são o caminho real para o consciente.

Muitos outros pesquisadores vêem a questão de forma parecida. Alguns também apoiam a teoria de que, nos sonhos, como se estivéssemos num simulador mundial, exercitamos nossos mais importantes instintos de sobrevivência.Outros acreditam que no sonho colocamos nossas capacidades cognitivas a serviço dos estímulos do mundo acordado. Todas essas teorias têm um pensamento central. A de que os sonhos preparam nosso consciente para o estado de vigília.

E há muito os cientistas peseguem uma visão: o que começou com uma interpretação dos sonhos poderá, algum dia, levar à observação dos sonhos. Munidos de scanners cerebrais, os pesquisadores poderão saber, por exemplo, se um voluntário de suas pesquisas está pensando no rosto de uma pessoa ou numa casa. Em casos especiais, isso já funciona.Eles aceditam que as chances de fazer uma leitura mais exata do que e com quem a pessoa está sonhando também são boas, através dos modelos de atividade cerebral já estudados  Aliás, grupos de trabalho japoneses e americanos anunciaram, recentemente, a gravações de sonhos. Se a tecnologia para isso for realmente desenvolvida, então provavelmente será possível, não apenas transformar o noturno cérebro/cinema em videofilme, mas mostrar a atividades dos neurônios de forma tão precisa que seu conteúdo possa ser identificado.

Muiros pesquisadores acreditam até que um dia poderemos manipular o conteúdo dos sonhos. A experiências feitas com os animais estão exatamente neste ponto, explica Matthew Wilson. Segundo ele, até que isso seja possível com o ser humano, ainda vai levar um tempo. Mas garante que vai acontecer.

Os sonhos já foram a coisa mais privada e misteriosa que um ser humano poderia vivenciar. Desde então perderam não somente a reputaçãode de conter mensagens simbólicas e divinas. Também se tornam cada vez mais acessíveis. Perdem com isso a sua magia? Não incondicionalmente. Allan Hobson, que depois do AVC está muito feliz e sonha regularmente, diz que não precisa procurar um sentido profundo nos seus sonhos. Ele garante que ama seus sonhos como são. E isso lhe basta.

Matéria traduzida do jornal alemão ZEIT.

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