Faltou a tirolesa

Estava mais do que na hora: botei, finalmente, meus pés em Florianópolis. E isso aconteceu no começo de outubro. Era um sonho que até então só havia sobrevoado, viajando à Europa, a Manaus, a São Luís, do Maranhão, a São Paulo, ao Rio de Janeiro, Paraná, Belo Horizonte, Brasília etc. Desembarquei em “Floripa” madrugando. E dei de cara com toda aquela beleza paisagística muito comentada por amigos, assíduos frequentadores dos balneários da capital catarinense, que tem 88% de seu território na ilha de Santa Catarina – naõ sabia disso – e 12% no continente.

Não vou entrar em detalhes sobre o que meus olhos viram ao longo de sete dias de idas e vindas, porque seria chuva no molhado. Prefiro contar o que vivi. Em Ribeirão da Ilha, uma fazenda de ostras e os casarios de estilo açoriano capturaram minha atenção. O restaurante Ostradamus cutucou minha memória e trouxe à tona, novamente, uma cidadezinha do sul da Alemanha, chamada Oberamagau, de onde Nova Jerusalém importou a encenação da Paixão de Cristo e onde os artistas usaram as fachadas das casas como telas para suas pinturas. Mundo enorme esse em que vivemos, mas suficientemente pequeno para que locais tão distantes conversem entre si nas minhas lembranças.

Mas este texto não terá sentido se não for sincero. Por isso, preciso falar também sobre aspectos que me desapontaram em Floripa. Entre eles, os sabores que vêm da cozinha. Meu paladar só não voltou totalmente frustrado de Santa Catarina, porque o Panini preparado com pão de queijo, gorgonzola e tomate seco no Empório Mineiro, na Lagoa da Conceição, e o almoço no balneário Laranjeiras, vizinho de Camboriú, foram excelentes. Na contramão da fome, que crescia, todo o resto desalentou meu apetite. No restaurante Dois Irmãos, na Barra da Lagoa, o filé acebolado foi trazido à mesa boiando na água. Arre! O frango oferecido como “grelhado” não era grelhado, mas à parmegiana, e o peixe tinha gosto de nada. Destemperado. Frouxo. Mas quem liga para isso quando tem o mar em movimento diante dos olhos? Não liga. Vai engolindo. Vai olhando. Vai amando o que vê.

A estranheza repetiu-se em Pantano do Sul, onde o Arantes também tem o peixe e os frutos do mar como especialidade. Mas ele tem um diferencial que não cabe no prato. No caminho até lá, que é longo – aliás, em Floripa, todos os caminhos são longos por imposição geográfica – a ode à sequência de camarões, que não provei porque me mandam ao hospital por reação alérgica, foi complementada com um comentário sobre o papel que o restaurante desempenhou durante a ditadura militar: nos anos de chumbo do Brasil, frequentadores mobilizados contra o regime militar usaram o local como uma espécie de quartel-general e se comunicavam através de bilhetes. Com essa artimanha conseguiam enganar os olheiros da repressão, sempre vigilantes no propósito de prender algum “subversivo”. Muitos desses recados ainda estão lá, colados no teto e nas paredes do Arantes. Secos e amarelados. Outros foram acrescentados ao longo do tempo, por gente que gostou da ideia e tem liberdade para dizer o que lhe vem à cabeça. O trágico desse exercício de democracia é que ele expulsou a metáfora e, na falta desta, empobreceu a criatividade, reduzindo as mensagens a banalidades.

Um aspecto positivo é que agora o “mané” de Florianópolis gosta de ser mané. Antes vista como ofensiva, porque interpretada como sinal de menosprezo, essa definição ganhou conotação honrosa. Mas nem todos têm direito a ela, como pude constatar. Para ser mané não basta ter nascido em Floripa. Também não é suficiente falar o manezês, do qual o turista tem um exemplo que viaja na traseira de ônibus: “Camba às direita”, significando “dobre à direita”. Para ser “mané”, explicou o motorista de um táxi executivo, é preciso ser “descendente de açorianos”. É condição sine qua non. Ouvindo isso, não resisti à tentação de cutucá-lo, porque me lembrei de que foi o tenista Gustavo Kuerten quem despertou esse orgulho em seus conterrâneos quando se declarou “manezinho da ilha” no tempo em que era manchete no mundo inteiro por causa de suas vitórias na quadra. E ele nada tem de açoriano. Então perguntei: “Guga é mané?” A resposta que ouvi é que “ele pode, porque é rico”.  

E voltei a Camboriú, onde os edifícios ao longo do calçadão  jogam sua sombra sobre a areia a partir das quatro da tarde. Mas em outubro isso não é muito importante, pelo menos para mim. Desta vez me aventurei na Mata Atlântica, onde o trabalho de preservação catalogou todas as espécies da flora e da fauna, mantendo vigilância permanente para que nada seja danificado ou levado dali. Cheguei ao topo do Morro da Aguada – 400 metros de altitude – a bordo de um dos quarenta bondinhos elétricos que passam o dia carregando alunos de escolas e outros curiosos. Claro, ali também é possível comprar chocolates, vinhos, licores e lembranças para encher a mala.

Melhor que isso, ali se compra assento num carrinho que cumpre roteiro de 3 a 5 minutos dentro da mata, sobre trilhos cheios de curvas. É o Yo Hoo. Descendo e subindo,  deixa alguns passageiros bem intranquilos. Foi o caso de um paulista de Ribeirão Preto, que desembarcou de olhos arregalados, mas admitiu que foi absolutamente emocionante encarar o desafio. Ele passou o resto do dia gritando “Yo Hoo”. Adorei a brincadeira. E queria fazer também a tirolesa, mas faltou tempo. Essa aventura vou viver na próxima visita à Mata Atlântica em Camboriú.

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2 comentários em “Faltou a tirolesa

  1. Nossa, voltei a Floripa lendo esse texto Maria! Muito bom mesmo.
    Não andei por tantos lugares provando as comidinhas da cidade, mas nos dois lugares que eu fui, um na lagoa (um tal de bistrô) e outro no bairro do Rio Vermelho, também não aprovei a comida, sem gosto e em outra ocasião “requentadíssima”…. enfim….
    Vou continuar lendo o teu blog, adorei!!! beijinhos e saudades!!!
    Rosela

    1. Olá, Rosela. Usaste a expressão certa: “requentadíssima”. Tive esta impressão várias vezes, principalmente no café da manhã diante da panela de ovos batidos. Hoje o dia está maravilhoso em Porto Alegre. Já fiz uma caminhada e daqui a pouco vou me refrescar minha memória para gabaritar o teste de italiano marcadao para quarta-feira, perchè voglioi parlare la lingua di Dante molto bene”. Beijo.E saudades, também.

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