Na próxima segunda-feira, o planeta Terra vai receber o bebê que  elevará o número de seres humanos vivos a 7 bilhões. A previsão é da ONU – Fundo da População das Nações Unidas –, que está preocupada porque o descontrolado crescimento desse formigueiro também significa aumento no número de bocas que imploram por uma gota de água e por um pedaço de pão. Na Somália, pais africano, há seis milhões de seres humanos – crianças, jovens, adultos e idosos – vivendo a tragédia da pobreza extrema. E essa é apenas uma pequena parte do total de esfomeados do planeta: 1 bilhão, segundo a FAO.

Quando li o anúncio feito pela ONU no site da Deutsche Welle, na terça-feira, minha primeira reação foi de espanto: como podem ser tão precisos os experts da Organização das Nações Unidas, assinalando até mesmo o dia em que o bebê deverá nascer? Mas uma resposta não mudaria a realidade, que é verdadeiramente contraditória e provoca outras perguntas sobre outros aspectos da questão. Por exemplo, sobre a eficiência dos métodos contraceptivos – DIU, pílula tomada em série, pílula do dia seguinte,vasectomia, abortos (clandestinos e não), camisinha, ligadura de trompas. Ah, sim, todos eles funcionam. Contanto que sejam usados. E são. Nos países ricos e emergentes. Pelas mulheres, claro. Os  homens, em sua grande maioria, ainda preferem não assumir esse cuidado, mesmo quando esse cuidado, como o uso do preservativo, significa defesa contra as doenças sexualmente transmissíveis. Este é um alheamento também divorciado da lógica – uma virtude sempre atribuída em maior grau ao cérebro masculino -, quando se leva em conta que cada um deles pode engravidar várias mulheres no espaço de um mês e cada uma delas  só pode ter uma gestação por ano. Alheamento? Nem tanto, porque eles legislam sobre o assunto.

Mas estou falando sobre gente de um mundo onde homens e mulheres podem negociar – pelo menos em teoria – quem fica no controle da natalidade, coisa impossível onde o acesso à educação, à moradia e à saúde não existe. Nesta parte do planeta o uso de recursos contraceptivos nem entra em questão. O que se impõe é o instinto. Em decorrência, corpos esquálidos por causa da desnutrição geram filhos aos borbotões, condenando-os também à fome e à morte na infância, salvo exceções que são obras de milagres. Portanto, na segunda-feira vamos fecchar a conta dos 7 bilhões e, para 2050, a previsão é de 9,1 bilhões.

A interrupção de tragédias como a que se vê na Somália não depende apenas da compaixão. Vai exigir uma  aliança séria entre sentimento e medidas efetivas. No livro  A crise do Capitalismo, que lançou alguns anos depois de ter sido chamado de assassino por uma das mães da Praça de Maio, ao vivo e em conexão direta do Forum Social Mundial (Porto Alegre), com o Forum Econômico em Davos (Suíça), o especulador George Soros aconselhou o Primeiro Mundo a investir no Terceiro e Quarto. E nem foi hipócrita: se não fosse por generosidade, então que fosse para transformá-los em mais um mercado para seus produtos.

Um desafio para ser encarado. Mas com qual estratégia? O cientista alemão Ulrich von Weizsäcker alerta:“Com o típico estilo de vida norte-americano ou europeu isso não vai funcionar“. Jean Ziegler, das Nações Unidas, afirma que é preciso começar pelo estímulo aos pequenos agricultores do Sul do planeta, paralelamente a uma distribuição adequada dos alimentos. Segundo ele, se isto for levado a sério, haverá espaço para até 12 milhões de pessoas no globo terrestre viverem de forma decente.

Mas há outra contradição como agravante: as nações industrializadas controlam seu crescimento populacional e, ao mesmo tempo,  são os que mais exploram, muito perto do limite,  recursos naturais como a água, o solo usado para monoculturas, o petróleo e os metais nobres para a técnica digital. Weizsäcker alerta mais uma vez, agora afirmando que recursos escassos e mudanças climáticas não podem mais ser administrados tendo como objetivo ser maior, ser mais alto e ser mais forte. Além disso, na análise dele, também o prometido desenvolvimento através dos mercados liberais e globalizados não é eficiente no combate à miséria extrema que se verifica em países africanos. Os mercados podem causar prejuízos inacreditáveis, salienta. E não está sozinho nesta posição. Em relatório, o centro de pesquisa International Food Policy Research Institute aponta as principais causas da fome no mundo: a especulação financeira com os alimentos nos mercados futuros, o que explica os altos picos dos preços em 2008 e 2011, o uso da agricultura para biocombustíveis e as mudanças climáticas. Portanto, quem realmente pretende matar a fome que mata na República do Congo, na Somália e em outros cantos do planeta, precisa antes fechar a sua boca escancarada para o lucro a qualquer preço.

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