A Feira do Livro de 2011 ainda não estava oficialmente aberta, mas na Praça da Alfândega o público já se acotovelava nas alamedas em que se alinham os estandes. Quase em frente ao espaço reservado às sessões de autógrafos, um grupo de músicos afinava seus instrumentos, enquanto um personagem sempre presente nesse encontro literário se oferecia para ser fotografado e a TVE, ao vivo e a cores, entrevistava o escritor Carlos Urbim, que nesta edição vai autografar Dever de Casa. Terminada a conversa com o repórter da Educativa, ele recebeu os abraços de duas colegas do tempo em que foi editor de Cultura na Folha da Manhã e, logo depois, também os abraços e sorrisos da senadora Manuela Dávila.

Mas já era hora de tomar o rumo do armazém no cais do porto para testemunhar a abertura. A Camerata de Ivoti executou o Hino Nacional, que o povo acompanhou contido, quase timidamente. Abrindo a sequência de saudações – todos concordaram que a Feira do Livro de Porto Alegre “é a maior a céu aberto na América Latina” -, o presidente da Câmara Riograndense do Livro, João Carneiro, lembrou que está se despedindo do cargo, elogiou a equipe que coloca a Feira de pé anos após ano e anunciou que a Ordem do Jacarandá desta edição foi conferida à Fundação Biblioteca Nacional. Galeno Amorim, presidente da Fundação, recebeu a estatueta.

Paixão Cortes, patrono em 2010, comparou a Feira à mulher amada pelo gaúcho da campanha, entoou Prenda Minha como despedida, mas garantiu que vai continuar intensamente ligado a ela, “porque cachorro comedor de ovelha, só matando”. E estava na hora de a patrona de 2011, Jane Tutikian, entrar em cena. Com ela, Erico Veríssimo. Dele, lembrou a crença no “poder da palavra”, mesmo numa sociedade movida pelo desejo de “produzir e consumir”. Afirmou sua fé em que “o livro nunca vai morrer” e disse que pede a Deus inspiração e capacidade para que possa honrar o cargo e honrar também os patronos que a Feira do Livro teve antes dela. Nesse ponto, a emoção embargou a voz da escritora de livros dedicados ao público infanto-juvenil e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Chorou e foi aplaudida.  

Dilma Rousseff ficou em Brasília, retida por um resfriado. Para representá-la veio a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, de quem o público presente à abertura oficial da Feira do Livro ouviu que na primeira edição desse encontro literário, há 56 anos, os escritores, editores e livreiros envolvidos foram movidos por uma característica bem gaúcha, a capacidade de tomar iniciativas, porque não contavam com apoio financeiro. Levar os livros à Praça da Alfândega era, então, o que hoje se tem como ação independente.

Pois é, Dilma não veio. A chuva, também não. Mas o protesto compareceu. E foi a nota dissonante introduzida por estudantes que pedem a saída de Fernando Haddad do Ministério da Educação por causa do vazamento de 14 questões da prova do Enem. As questões foram distribuídas no Colégio Santo Christus, de Fortaleza, e ainda existe a possibilidade de toda a prova ser anulada. O barulho começou quando o governador Tarso Genro estava falando e ficou mais forte enquanto a Camerata de Ivoti tocava o Hino Riograndense, fechando a cerimônia. Em alguns momentos, a gritaria ameaçou a sintonia entre a orquestra e o público, que, como sempre, cantou a plenos pulmões, louvando as “façanhas” gaúchas como exemplo para o resto do planeta. O índice de leitura seria mais uma?

No acotovelamento que se formou na saída do armazém do cais do porto agarrei pelo braço o professor Paulo Flávio Ledur, ex-presidente da Câmara Riograndense do Livro. Queria que me confirmasse um dado sobre o qual andei pesquisando: o índice de leitura no Estado. João Carneiro, em sua saudação, havia afirmado que os gaúchos estão em posição de vantagem em relação ao resto do País, mas não apresentou dados concretos. Na minha busca encontrei o resultado de pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira de Letras (CBL) e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe): a média em torno de 4.7 livros/ano por leitor e um crescimento de 150% no Brasil todo ao longo da última década.

Ledur balançou a cabeça quando ouviu minha pergunta. Na opinião dele, quando se trata do aumento de 150% é preciso levar em conta a distribuição de obras didáticas por parte do governo (projeto que Ana de Hollanda destacou em sua fala). Além disso, o professor e autor de livros que cuidam específicamente da gramática acredita que o índice de leitura não deve chegar a quatro por ano por leitor no Rio Grande do Sul. Portanto, o xerife Julio La Porta precisa continuar tocando a sineta.

Cuidar quem cuida: arteterapia, espiritualidade e reabilitação na na Sala Leste Santander Cultural. Neste domingo, às 14h.

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