À espera dos leitores

Foto de Raquel Santana, que trabalhou na Feira do Livro em 2008

Quando minha cachola se apaixona por uma ideia, ai, ai, ai. É verdadeiramente um “deus me acuda”, porque me faz sonâmbula ao longo do dia e vigilante quando deveria mergulhar no sono. A única coisa boa que posso fazer por mim quando isso me acontece é dar trela ao inoportuno que se esgueira pelos caminhos do meu cérebro. Para ter sossego tenho que lhe dar uma forma. Só assim vai me deixar em paz. Na madrugada de quinta para sexta da semana passada fui refém da Feira do Livro na Praça da Alfândega, que está em sua quinquagésima sétima edição.

De 1996 a 2008, como editora da área de Cultura do Jornal do Comércio, vivi intensamente esse encontro de livros e leitores que nasceu e se desenvolveu à sombra dos jacarandás, mas acabou ganhando uma cobertura transparente para protegê-lo da chuva, uma visita assídua e muito invasiva em algumas edições. Então posso falar bem acomodada na experiência. A Feira do Livro é enervante, estressante, caótica, presunçosa, barulhenta, grande demais, espalhada demais, irritante. Mas tudo isso a torna maravilhosa, porque tudo isso é resultado do que oferece: as ideias que em algum momento tiraram o sono de cientistas, historiadores, educadores, artistas, poetas, romancistas, inventores e pesquisadores nos quatro cantos do planeta. Agora elas estão aí, aos montes, da praça ao cais, à espera dos leitores.

E eles vão comparecer para comprar? Eu, com certeza. E vou com foco. Quero uma biografia de Helmut Schmidt, ex-chanceler da Alemanha, que admiro desde jovem pela forma como se conduz na política. Em 2008 estive em Leipzig, onde ele recebeu um prêmio. Naquele momento, o acúmulo de lixo em Nápoles produzia manchetes nos jornais do mundo. Schmidt, um defensor também do meio ambiente, não fez qualquer crítica ao governo italiano diante da situação, mas lembrou aos alemães: “Somos o pais com maior número de fronteiras dentro da Europa, por isso, temos que cuidar muito bem do nosso lixo para não contaminar os países vizinhos. Não temos esse direito”. Para um bom entendedor, meia palavra basta: era uma referência ao lixo doméstico, hospitalar etc, mas também ao lixo político. Na semana passada, em programa na Deutsche Welle, aos 92 anos de idade, em cadeira de rodas e fumando como chaminé (mau exemplo), ele deu outra demonstração de sua argúcia. Respondendo a uma provocação, disse que “um político nunca deve mentir quando fala, mas não tem a obrigação de contar tudo”.  No estande do Instituto Goethe, onde estive na sexta-feira, a biografia de Helmut Schmidt não está à venda, mas foram muito gentis e me ofereceram a leitura dela no próprio Goethe. Antes disso vou fazer uma busca na ala internacional da Feira.

Quero também o dicionário recomendado por Simonetta Zara, a minha professora de italiano na ACIRS, perchè vorrei fare un viaggio a Italia e ho il bisogno di parlare molto bene la lingua di Dante.

Foto/Harry Bord

E quero o livro The Better Angles of Our Nature: Why Violence Has Declined, em que o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker afirma que o século vinte, apesar da sucessão de guerras e das crueldades cometidas por Hitler, Stalin, Mao e outros canalhas, está longe de ser o mais sangrento da presença do homem no planeta Terra. Polêmico? Sim. Mas Pinker, também professor em Harvard, é um autor que pesquisa muito e, com base nos dados que reúne, não lhe falta coragem para argumentar na contramão do consenso. Dele estou lendo Como a Mente Funciona (Companhia das Letras), uma obra também muito interessante em mais de 600 páginas. Recomendo.

Estressante para quem corre atrás de notícias e para quem espera por elas na redação do jornal, onde tem que cumprir um horário de baixamento de páginas, a Feira do Livro ganhou proteção contra os alagamentos de que era vítima. Mas as mudanças não ficaram nisso. As sessões de autógrafos foram tiradas do coração da praça, o bar que atraía montanhas de pessoas – nem todas interessadas em livros – teve que ceder seu espaço a estandes, o setor adulto deixou de ser o foco e o infanto-juvenil passou a ganhar um estímulo maior a cada edição, sob comando de Sônia Zanchetta. É uma estratégia boa para formar leitores, mas também de venda, porque filho querendo um livro é pedido irrecusável. 

Não sei se é a palavra certa, mas agora ela me passa uma impressão mais sisuda. Menos espetaculosa. Muito diferente de quando o presidente da Câmara Riograndense do Livro (CRL) era Júlio Zanotta, jornalista e um dos fundadores do grupo de teatro Oi Nóis Aqui Traveiz. Em uma das edições da gestão dele, o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal causou sensação ao desafiar vários enxadristas, todos ao mesmo tempo, no meio da praça. Esse tipo de excentricidade foi perdendo espaço quando entrou em cena a necessidade de conter despesas, com Waldir Silveira, Paulo Flávio Ledur e João Carneiro na presidência da CRL. Mesmo assim, tive a minha chance de, no coração da Praça da Alfândega, cantar Si Adelita se fuera con otro la seguiria por tierra y por mar, si por mar en un buque de guerra, si por tierra en un tren militar”. O México era o país convidado. Famosa a partir da interpretação de Nat King Cole, a música faz parte do folclore da Revolução Mexicana de 1910 e, segundo dizem, Adelita participou dela.

Gosto imensamente da Feira do Livro. Dos inesperados que ela propõe. Lembro o dia em que, parada na porta do estande e olhando o movimento, fui interrompida por uma mulher angustiada: “Por favor, me leva até um escritor; a professora do meu filho pediu”. E lá vinha o jornalista/chef/escritor José Antonio Pinheiro Machado. Agarrei-o pelo braço e estava resolvido o problema da mãe. Por isso, embora enervante e estressante, a Feira do Livro nunca me cansou a alma. Nem poderia, porque minhas equipes eram sempre muito boas e bem-humoradas: Wanda Nogueira, onipresente no estande, dando apoio na infraestrutura; Maristela Bairros, Keli LynnBoop, Walmaro Paz, Nilton Schuler e Charles Tricot produzindo os textos; Tudo gente  antenadíssima no que acontecia nessa “maior feira a céu aberto da América Latina”. Opa! Isso já virou clichê.

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2 comentários em “À espera dos leitores

  1. WAGNER!
    EU JÁ HAVIA LIDO SUAS IMPRESSÕES LITERÁRIAS. SÓ FALTAVA ME PRONUNCIAR. ENTÃO, BELO TRABALHO. QUERO LER MAIS. QUAL A PRÓXIMA NOVIDADE?
    FELIZ ANO NOVO!
    FORTE ABRAÇO
    NILTON SCHÜLER

    1. Olá Nilton

      Obrigada por ser meu leitor. Os primeiros dois contos que publiquei eu vinha guardando há algum tempo. Achei que era hora de permitir que respirassem. O próximo vai ser na sequência e no clima desses dois. Além disso, estou traduzindo e adaptando para o português algumas entrevistas e textos que considero bem interessantes. Além do conteúdo das matérias, gosto da tradução porque, segundo os neurocientistas, pensar e escrever em outros idiomas é um exercício que amplia e reconfigura o cérebro. Um 2012 muito feliz para você!!! Abraço.

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