Milenar. Esta é uma palavra recorrente quando se trata da China. Em 1400, enquanto as suas dinastias se digladivam internamente pelo poder, o país asiático dominava os mares com seus navios e caprichava na tentativa de seduzir os governantes ocidentais, enviando-lhes presentes caríssimos. De lá também veio a massa, que hoje se tem como característica da Itália; veio o chucrute, eficaz contra o escorbuto entre os marinheiros e hoje uma das comidas típicas dos alemães;  e veio o sorvete, pelo qual Catarina da Rússia se apaixonou perdidamente.

Séculos mais tarde, a China exportou outra imagem. O que se impôs foi o retrato de Mao Tse Tung. De forma absolutamente cruel, ele uniformizou o povo, mental e fisicamente. Implantou o comunismo, matou milhões, fornecendo matérias a páginas e páginas de jornais do mundo inteiro. Ele morreu, mas o país continua no noticiário. Agora, porque tem 1.436 bilhão de habitantes e ostenta um crescimento econômico invejável. Retomou o hábito de seduzir os ocidentais, desta vez com seus produtos a preço de banana. Mas não é somente isso. A China já supera Estados Unidos no registro de patentes. Além disso, quer dominar a fissão nuclear até 2025.

Então está tudo às mil maravilhas? Não está. O povo chinês ainda não se libertou do estrago causado pela presença de Mao. Por isso, a névoa em que Pequim está mergulhada na foto acima, de Ng Han Guan, também pode ser entendida como metáfora da névoa que encobre o coração dos chineses, esfriado, quase congelado, durante a ditadura comunista. O medo imperava, conta Zhu Xiao-Mei em sua autobiografia, intitulada O Rio e Seus Segredos – a pianista que desafiou Mao (Objetiva, deve estar à venda na Feira do livro). Os efeitos desse tempo insano estão no texto que segue, originalmente publicado pela Berlinerzeitung. Ele conta a tragédia de uma chinesinha de dois anos de idade, atropelada por dois caminhões e atropelada pelo descaso de quem viu e nada fez para socorrê-la. Teria sido diferente, se a vítima tivesse sido um menino? A pergunta faz sentido. Na China o aborto de fetos femininos se tornou rotina aprovada e paga pelo governo, que impôs a lei do filho único para controlar o crescimento populacional.         

A tragédia de Yue-Yue

13 de outubro de 2011. Era uma quinta-feira como qualquer outra, absolutamente normal até as 17h30min, quando uma câmera de vigilância gravou as imagens que agora não saem da cabeça e das conversas dos chineses. O que mostram é uma menina agonizando na rua. Ela tem dois anos de idade. Foi atropelada. Seu nome  é Yue-Yue.

Pobre criança. O motorista do caminhão de carga não parou para socorrê-la. E ela foi atropelada pela segunda vez, também por um caminhão que chegava para descarregar produtos no mercado de aço de Foshan. Nos sete minutos seguintes, 18  pessoas passaram por Yueyue e a viram banhada no próprio sangue. Nenhuma delas fez um gesto de compaixão. Quem se comoveu foi uma mulher de 57 anos de idade, recolhedora de lixo. Ela pediu ajuda. Agora, de canto a canto da China, o povo se pergunta: como nos tornamos o que este vídeo mostra?

A indiferença diante da morte solitária de Yueyue provocou nos chineses um olhar para dentro da própria alma. O assunto está  em discussão entre políticos, jornalistas, professores, psicólogos, internautas, amigos que se reúnem nos cafés e passageiros de ônibus. Mas, pasmem, nem todos estão chocados. Na internet, há manifestações como esta: a própria criança foi culpada; o acidente não teria acontecido se ela não tivesse caminhado de forma indecisa. E um homem chegou ao cúmulo de se apresentar como  sendo o atropelador, confessando depois que apenas desejava um pouco de atenção da mídia.

A maioria, porém, está assustada. Pessoas completamente estranhas umas às outras se abraçam nas ruas para se manifestarem contra a frieza afetiva. Políticos debatem leis para punir quem se nega a prestar socorro às vítimas nas vias públicas do país. Pesquisas estão sendo realizadas aos montes, mas os resultados são contraditórios. Ora 90% dos entrevistados respondem que, diferentemente das pessoas do vídeo, teriam prestado socorro a Yue-Yue; ora  quase 50% afirmam que também teriam ficado indiferentes. Cientistas apontam para o fenômeno da co-responsabilidade. Isto é, se uma pessoa ajuda, outros também se dispõem a ajudar. Na falta de alguém que tome a iniciativa, a tendência é que todos se esquivem. Os cientistas estão certos, pelo menos em relação a um dos entrevistados. Ele declarou:  Por que deveria socorrer a menina se os outros também não lhe deram ajuda?

Uma enquete feita antes mesmo dessa tragédia ouviu pessoas que não ajudam porque têm medo que isso se transforme em um problema também para elas. Muitos tomam como exemplo o que aconteceu com Peng Yu, que, em 2006, sofreu um processo na Justiça e foi condenado a pagar uma indenização de 4.500 euros. Ele tinha parado seu carro e saído dele para socorrer uma mulher atropelada por um veículo que seguia à frente do dele. A própria mulher afirmou à polícia que Peng tinha sido o autor do atropelamento. Embora não tenha conseguido provar a culpa dele, a Justiça o puniu com base no pensamento lógico. Isso explica, segundo muitos, porque ninguém mais quer prestar ajuda às vítimas na China.

Outro aspecto forte na moderna sociedade chinesa é o vouyeirismo. Por exemplo: a multidão que se juntou para observar a ação de um homem que estuprava uma mulher no meio de uma rodovia; os acidentes de trânsito, que também atraíram muitos olheiros, que não ajudaram; e o caso em que, diante de uma mulher que ameaçava atirar-se do alto de um edifício, a multidão berrava que não perdesse tempo, que se jogasse.

Onde deixamos nosso valores no esforço que fizemos para garantir nosso bem-estar?  Essa pergunta é frequente nos jornais e nos sites de colunistas na internet. Segundo eles, a sociedade chinesa mudou demais e com excesso de rapidez. Ninguém confia no outro e muitos desacreditam da justiça  e da polícia. Um internauta diz que na China falta o básico. Falta um sistema transparente, uma clara responsabilidade. Ele acrescenta que, em uma sociedade infeliz não há possibilidade de calor humano. As pessoas se sentem abandonadas. E pergunta: como podemos proteger outros quando nós mesmos nos sentimos desprotegidos?

A religião poderia preencher este vazio?  Victor Yuan, diretor do Instituto de Pesquisa Horizon, afirma que muitos chineses acreditam apenas em duas coisas:  que o destino do ser humano já está traçado quando ele nasce e que ele está sujeito à sorte. Diante do destino, pensam que não tem importância se fazem isso ou aquilo. E porque confiam na sorte, esperam que ela os beneficie com uma virada súbita. Então ficam assim, passivos.

Mas, quando se trata dos chineses, não se pode desconsiderar a dominação que sempre sofreram, das dinastias instaladas no poder e, mais recentemente, da política de Mao Tse Tung. O que aconteceu com Yue-Yue é muito triste. Mas a tragédia dela está obrigando o povo chinês a olhar o que lhe vai na alma. Pode ser um primeiro passo para que abra o coração.

Anúncios