Tem que ser bonito. Mas, por favor, também precisa ser confortável. Falo do calçado que coloco nos pés. Não tantos quanto a Imelda Marcos, mas tenho muitos. Mais, bem mais, do que necessito. Sim, alguns fazem parte da turma porque seu desenho me agradou. Mas o que na maior parte das vezes me levou a comprá-los foi a tentativa de encontrar um que “vestisse” a base sobre a qual me movimento pela cidade e pelo mundo que conheço.  

Quando criança, adorava imitar as amigas de minha mãe que caminhavam em salto alto, embora isso fosse relativamente raro no interior do Estado, onde nasci e cheguei aos 12 anos de idade. Lembro de que, por volta dos sete, assaltei a coleção de uma prima – ela tinha uma paciência de Jó comigo – e passei uma tarde de domingo 10 centímetros mais alta, me achando o máximo. No final do dia devolvi o sapato, claro. Até, porque estava de olho em outro modelito, para o domingo seguinte, quando me apresentaria em mais uma performance de estilista para quem quisesse ver.

Já adolescente, comecei a ver as inconveniências do chamado salto agulha. Tive uma primeira visão disso em Porto Alegre, quando me deparei com a insegurança de uma mulher diante do que havia restado dos trilhos dos bondes. Onde deveria colocar os pés? Ai, ai. ai. Quase corri em socorro. Mas veria cena pior. Alguns anos depois, quase chorei de compaixão ao ver o constrangimento de uma senhora que fazia um esforço danado para libertar o salto abocanhado pelo piso da calçada. Não conseguiu. Deixou o sapato e saiu mancando.

Mas este é um desconforto circunstancial. O conforto que reclamo na compra de um calçado é algo que se define muito antes do uso. Do design (vai ter tirinhas, vai ter costuras, vai ter ponta quadrada ou fina?) à matéria-prima (couro de cobra, de porco, pelica?). A importância disso impactou especialmente sobre meus pés e sobre meu humor no verão europeu de 2008, quando percorri boa parte da Alemanha, segui de trem até a Holanda e dali para a França, países onde se caminha muito sobre o paralelepípedo. Faz parte da história preservada. Vi Anthony Hopkins, ao vivo e a cores, no teatro de Leipzig à noite, mas também vi “estrelas” em pleno dia. De dor.

Em Köln, antes de partir rumo a Amsterdam, cheguei a respirar aliviada, acreditando que havia, finalmente, encontrado um calçado que não me produzisse esse desconforto que sinto como se estivesse passando por máquina de moer carne e pensamentos. Na loja, experimentando, tudo bem. Na rua, caminhando, a volta ao inferno. E pasmem: era produto brasileiro. Só consegui resolver meu problema quase no fim da viagem, em Paris, onde encontrei um sapatênis feito de couro de porco pelo qual paguei 49 euros.  Sabedora da dificuldade de encontrar outro igualmente confortável quis poupá-lo. Então, de volta ao Brasil, não pensei duas vezes quando encontrei um que parece uma luva nos meus pés. O problema é que ele está se acabando, embora o trate com imenso carinho. Lavo, coloco para secar no vento – como está agora – e lhe renovo a pintura.

A maquiagem é completa. Mas não impede que ele fique descosturado. Por isso, hoje de manhã saí em busca de uma alternativa. Entrei e saí de lojas. Nada feito. Fui tratada com muita atenção, mas em nenhuma encontrei o que procuro, porque “agora estamos vendendo para o verão”. Ora bolas! Então não usamos sapatênis nos meses de calor? Claro que usamos, e me espanta a falta do produto no mercado. Mas já que não tenho como  comprá-lo, resolvi solucionar meu problema de outra forma: vou conversar com um sapateiro para saber se ele pode dar nova vida ao velho e leal amigo dos meus pés. Bonito ele é. Mas também é confortável. Portanto, completo.

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