O calor é infernal à beira do Guaíba, ao longo do qual se alinham os estandes que oferecem literatura infanto-juvenil nesta edição da Feira do Livro. Sofro. Prefiro o frio. Sônia Zanchetta, pelo contrário, não se deixa abater pela temperatura. Recebe-me com a gentileza de sempre e me leva até sua “menina dos olhos”: a Biblioteca Moacyr Scliar, onde, além do acervo do escritor, os visitantes encontram uma variedade de interessantes atividades e o espaço da patrona Jane Tutikian, chamado Quarto da Bia.

Verdadeira amiga do livro, Sônia trabalha para estimular a formação de leitores através do que as crianças e os adolescentes encontram nessa área, do qual é a alma. Essa dedicação é coerente com sua história. Na vida dela, a paixão pela leitura e pela literatura se fez antes de seu envolvimento com a Feira. Aliás, começou muito cedo. Antes mesmo de ir à escola e até antes de seu nascimento, em uma família que dava valor aos livros. Da mãe, ouvia que havia guardado duas preciosidades “para quando tivesse filhos”: uma delas, a coleção completa de Monteiro Lobato; outra, os 18 volumes do Thesouro da Juventude.

A leitura dessas obras exigiu que a menina Sônia tivesse muita persistência.  Ela teve. “Apesar da ortografia ultrapassada, li e reli inúmeras vezes todas as histórias daqueles livros. E isso não me dificultou em nada a aprendizagem da Língua Portuguesa; ao contrário, fez com que passasse a amar a leitura e a escrita”. Hoje, em consequência disso, ela se recusa a aceitar que livros sejam triturados ou doados para serem reciclados sempre que há uma reforma ortográfica.

Além da mãe, Sônia e seus irmãos contaram com o estímulo do pai, que havia frequentado a escola por apenas três anos, “mas redescobriu o prazer da leitura junto conosco, quando começou a febre das enciclopédias”. Lembra que ele “passava horas mergulhando naqueles livros e, de vez em quando, interrompia a leitura e nos chamava para contar algo interessante que acabara de descobrir. Ali estava a prova de que uma pessoa que sai da escola plenamente alfabetizada pode seguir aprendendo por conta própria até o fim de seus dias”.

Hoje, Sônia lê de tudo um pouco, mas, como acontece com toda jornalista, “adoro a leitura de jornais”. Vive em Cachoeirinha e não dirige, então aproveita o tempo em que na fila do ônibus e o da viagem para ler e, antes de descer, entrega ao motorista os jornais já lidos. “Esta é uma mania que tenho desde a adolescência: tratar de que os outros também gostem de ler. Quanto aos livros, leio de forma completamente desordenada. Uma leitura remete a outra. Um romance pode me dar vontade de ler determinado filósofo ou sobre algum país. E por aí vai”.

Um lance de sorte no começo

Sônia Zanchetta faz parte da comissão executiva da Feira do Livro de Porto Alegre desde 1997. Segundo diz, sua entrada na Câmara Rio-Grandense do Livro, a organizadora do encontro literário na praça, não foi planejada. “Foi um lance de sorte”, no que teve a ajuda de um escritor. Ela conta como aconteceu:

“Eu havia acabado de voltar do Equador, onde vivera 17 anos, e queria trabalhar na área cultural. Uns dias depois, um amigo me convidou para o lançamento da revista literária Blau. Como ele se atrasou, fiquei circulando por lá, meio perdida, pois havia cerca de 150 pessoas no local e eu não conhecia nenhuma delas. De repente, aproximou-se de mim um sujeito simpático, apresentou-se (era o escritor Dilan Camargo) e perguntou de onde era, pois havia percebido que estava deslocada naquele evento. Respondi que era de Porto Alegre, mas que estava voltando de uma larga temporada no Equador. 

Então, ele me puxou pelo braço e me pôs diante de outra pessoa e disse exatamente isso: “Júlio, tu não estiveste no Equador? Sim? Então, te apresento a Sônia, que está voltando de lá!” E sumiu. O sujeito ao qual me apresentou era o Júlio Zanotta Vieira, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, que passou a me contar sobre as aventuras de um grupo de teatro que havia dirigido anos antes, em uma viagem pela América Latina.

Lá pelas tantas, comentou que estava organizando a próxima Feira do Livro de Porto Alegre e sugeri que convidasse um escritor do Equador. Ele me disse que gostava muito da obra de um dramaturgo de lá chamado Jorge Enrique Adoum e lhe passei, na hora, o número de seu telefone, que sabia de memória, pois me havia tornado sua amiga durante os longos anos em que trabalhei no Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Quito. No dia seguinte, fui à sede da CRL, a pedido do Júlio, para telefonar ao tal escritor, e nunca mais saí de lá.  

Naquele mesmo ano – 1997 -, fiquei encarregada da programação dos escritores para público adulto. Seguindo instruções da comissão organizadora, havia só espetáculos de teatro para as crianças, mas o número de expositores que ofereciam apenas livros infantis e juvenis em suas barracas aumentou de dois para nove. Até então, só as livrarias Paulinas e Aurora participavam nessas condições.

Fiquei muito frustrada com a forma inconsciente com que os professores levavam seus alunos à Feira do Livro. As turmas chegavam, assistiam aos “teatrinhos gratuitos”, como diziam, e saíam correndo, muitas vezes por trás das barracas, para evitar que alguém quisesse comprar um livro. No ano seguinte, já houve algumas melhoras, mas foi só em 1999 que tive condições de começar a trabalhar seriamente com os professores, tratando de sensibilizá-los para que preparassem melhor a visitação escolar. Também passei a ouvir suas sugestões a respeito dos autores que gostariam de encontrar na Feira.

 De lá para cá tudo mudou. Atualmente, os espetáculos de teatro só ocorrem nos fins de semana, quando as crianças vão à Feira com os pais. Nos dias úteis, os alunos vão até lá para encontrar escritores e ilustradores cujas obras leram previamente. Os do ensino fundamental participam dos encontros do Autor no Palco, no Teatro Sancho Pança, ou dos que ocorrem na Arena das Histórias. Paralelamente, o público jovem encontra autores na Casa do Pensamento e as crianças em idade pré-escolar, no QG dos Pitocos. Além disso, as escolas apresentam seus grupos artísticos no Território das Escolas, realizam sessões de autógrafos no Largo da Escrita e as que se destacam pela continuidade e consistência de seu trabalho na área da formação de leitores mostram seus projetos na Vitrina da Leitura.  

Em 2011, o grande tema da Área Infantil e Juvenil é a Biblioteca Escolar. Começamos a Feira com uma reunião do Fórum Gaúcho pela Melhoria das Bibliotecas Escolares. Vários outros encontros e espetáculos giram em torno deste assunto. A minha “menina dos olhos” nesta edição é a Biblioteca Moacyr Scliar, uma biblioteca escolar modelo que ocupa 500m² do Armazém A do Cais do Porto. Ali está o acervo de referência em Literatura Infantil e Juvenil da CRL, que, durante o ano, é utilizado como fonte de consulta por professores, bibliotecários e promotores de eventos literários.”  

 Os ambientes da Biblioteca Moacyr Scliar

Bebeteca, com acervo para crianças de 0 a 3 anos; Ducha das Letras, com acervo para público juvenil; Sala dos Professores, com acervo e programação próprios; Sala de Aula do Futuro, a cargo da Procempa; Espaço com o conjunto da obra do Scliar;

Espaço Sensorial, onde as crianças com visão normal entram vendadas e tratam de identificar, através dos outros sentidos, os objetos e alimentos expostos. Assim, percebem as dificuldades enfrentadas pelos cegos no seu cotidiano e as soluções que encontram para superá-las;

Espaço Braille, equipado pela Procempa e atendido pela Secretaria Especial de Acessibilidade e Inclusão Social da Prefeitura de Porto Alegre, com terminais de computador com o programa Virtual Vision, para deficientes visuais, e impressora braile;

Mostra de livros acessíveis produzidos pela Associação de Cegos do RS; Mostra de livros da Confraria das Letras em Braile, integrada por autores e editores que participam da Feira e cedem direitos de obras para que sejam produzidas em braile e distribuídas entre escolas e entidades que contam com alunos deficientes (a distribuição ocorrerá em evento especial, no dia 10 de novembro, às 15h30min, na Arena das Histórias);

Quarto da Bia, espaço criado para que a patrona Jane Tutikian receba seus leitores adolescentes (Bia é a protagonista do livro Alê, Marcelo, Ju e eu, de Jane);

A Biblioteca acolhe, ainda, as exposições Biblioteca Escolar, do Conselho Federal de Bibliotecomia, e Muitas Imagens para um Desenho, produzida pela Agência da Palavra. Esta é feita de dezenas de trabalhos de ilustradores nacionais e estrangeiros criados para seis clássicos da Literatura Infantil e Juvenil.

Programas complementares

Adote um Escritor – Desenvolvido através de parceria da Câmara Rio-Grandense do Livro com a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre desde 2002, o programa promoverá, em 2011, 132 encontros com a participação de 50 autores. As 96 escolas infantis, especiais, de ensino fundamental, de ensino médio e de ensino básico da rede municipal estão engajadas no programa, que disponibiliza um autor extra para as 36 que contam com turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Os recursos para a aquisição de obras são alocados pela Smed às escolas, ainda no primeiro semestre, tendo em vista que as visitas dos autores residentes no RS começam em agosto. Há, porém, escolas que optam por autores de fora do Estado convidados para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, caso em que os encontros são realizados paralelamente ao evento, em novembro.

Lendo pra Valer – Em 2008, como desdobramento de um projeto-piloto desenvolvido em 2007, na região da 28ª Coordenadoria Regional de Educação, foi criado o Programa Lendo pra Valer. Em 2011, promoverá encontros de autores em 56 escolas nas regiões da 1ª, 12ª, 27ª e 28ª Coordenadorias Regionais de Educação, que têm sede, respectivamente, nos municípios de Porto Alegre, Guaíba, Canoas e Gravataí.

É uma parceria da Câmara Rio-Grandense do Livro com a Secretaria de Estado da Educação, através do Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares – Sebe, que adquire e destina às escolas kits de livros dos autores que as visitarão, para que promovam a leitura prévia entre alunos e educadores.

 Fome de Ler – Criado em 2003, é desenvolvido pela Câmara Rio-Grandense do Livro em parceria com a Universidade Luterana do Brasil, a Rede Ulbra de Escolas, as prefeituras de Canoas e de onze municípios da Região Centro-Sul do Estado. No caso das escolas municipais, os livros para a leitura prévia aos encontros são disponibilizados pelas respectivas prefeituras, enquanto nas dez unidades da Rede Ulbra – localizadas em sete municípios gaúchos – as obras são compradas pelos próprios alunos. Em 2011, foi prevista a realização de 47 encontros.

A Feira vai à Fase – Promove encontros na Biblioteca Dona Margarida, do Instituto de Internação Provisória Carlos Santos, da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE, entre escritores e adolescentes que se encontram cumprindo medidas socioeducativas, após a leitura de obras de sua autoria, disponibilizadas por editoras parceiras.

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