Ninguém importante

O telefone toca no meio da tarde. Tiro as mãos da água, enxugo-as na toalha mais próxima e vou correndo para atender. Corro sempre quando ele dá sinal. Pode ser meu filho, ligando de Manaus. 

– Pois não?

– Do outro lado uma voz grave pede:

– A senhora, por favor, aguarde na linha.

Apesar do “por favor”, o tom mais parece uma ordem. De alguém contaminado pela arrogância de outro alguém que imagino sentado em um gabinete, ditando normas a seus subalternos.

– Mas quem será? E por quê?  Fico esperando… Enquanto isso, tamborilando sobre a mesa, vou confirmando na memória os pagamentos feitos ao Imposto de Renda, a mensalidade do meu plano de saúde também está em dia, não compro a prazo, não uso cartão de crédito. Continuo esperando… esperaaando….. esperaaaaaaaaaaaaando …  E ninguém se apresenta. Ora bolas! Desligo. Afinal, embora não tenha um escravo à disposição para me colocar em contato com as pessoas com as quais quero – ou preciso – falar, meu tempo também é precioso e não acho que deva desperdiçá-lo segurando um telefone, como se fosse um animalzinho condicionado em laboratório.

O problema é que estou intrigada. Fico com a estranha chamada na minha cabeça. Chego a comentá-la com pessoas da família e com amigos. E se ela tivesse partido de dentro de um presídio? Não ria. O Concorde foi aposentado, mas a imaginação continua voando em velocidade supersônica, e criminosos obedientes a um comando instalado em cadeias é coisa que acontece em tempos de telefone celular, a não ser que os noticiários mintam em busca de audiência, que disputam arduamente.

Mas não acredito que chegariam a esse ponto, embora possam embarcar, por algum tempo, em mentiras como a que foi pregada por George W Bush e Tony Blair. De olho no petróleo, os dois juraram que Saddam Hussein e suas armas de destruição em massa eram ameaça ao planeta e, em abril de 2003, invadiram o Iraque, que transformaram em uma montanha de escombros. As armas? Não foram encontradas. Não existiam.

Aliás, essa mentira deslavada me dá permissão para duvidar, agora, da acusação que está sendo feita ao Irã. Claro, Amadinedjad não é santo.  Saddam também não era. Mas seus inimigos têm as virtudes de quem merece ser canonizado?  Não.  O que leio sobre eles me diz que, atrás da cortina de conversas sobre a necessidade de paz no mundo, nenhum deles merece a minha confiança.

Ou será que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, se soubesse que a declaração vazaria, teria dito a Obama, dos Estados Unidos, que “Netanyahu é mentiroso e não posso vê-lo mais”, como fez durante a cúpula do G20 em Cannes?  E se Obama tivesse sido avisado de que essa particular troca de ideias chegaria ao site Arrêt sur Images certamente não teria se queixado que “você está cansado dele, eu tenho que lidar com ele todos os dias”. Por essa ele não esperava. Ser traído pela falta de sorte, quando só queria puxar as orelhas de Sarkozy por não ter sido comunicado com antecedência sobre o voto favorável da França à entrada da Palestina na Unesco como Estado. Que meleca! Mas flagra é flagra. Não dá para desmentir, nem no mundo dos poderosos, que se unem em torno de seus interesses. Isso me leva de volta ao telefone. Três dias depois da primeira estranha chamada, ele volta a tocar.

– Aguarde na linha, por favor.

Como não sou camundongo de laboratório, desta vez não espero. Desligo imediatamente, mas fico ainda mais intrigada. Quem e para quê? Mas continuo colocando o fone no gancho na terceira e quarta chamadas. Na quinta, a diferença.

– Aguarde na linha, por favor.

 A mesma ordem, a mesma voz. E nem tenho tempo de sair do ar, porque em seguida ouço uma voz feminina.

– A fulana está?

Claro, não é o nome da pessoa com quem ela pretende falar. Nem lembro qual é. O meu não é, seguramente. Mas estou intrigada demais, cheia de boas intenções e quero ajudar. Quero lhe dizer, muito gentilmente, que precisa revisar seu arquivo telefônico.  Então pergunto:

– Quem deseja falar com ela?

– É a Sicrana.

A voz dela não confirma minha fantasia. Pode até ser de alguém sentado atrás de uma enorme mesa distribuindo ordens a torto e a direito, mas com esse timbre…, com esse acento…, certamente não é alguém verdadeiramente arrogante.  

– Sinto muito, este número não é da pessoa com quem a senhora quer falar…

Então ela me surpreende, porque simplesmente enlouquece do outro lado da linha, como se tivesse sido flagrada em falta. E nem é presidente da França. E nem é presidente dos Estados Unidos. Mas vai de enxurrada. Gritando. Querendo me ditar o comportamento que devo ter quando atendo ao telefone na minha casa.

– Você não podia ter pedido o meu nome. Devia ter dito apenas que a pessoa não atende neste telefone.

De nada adiantam as minhas tentativas de lhe dizer que a insistência com que vinham me chamando, sempre pedindo que aguardasse na linha, estava me incomodando. Ela continua louca, aos gritos. Desisto. Devolvo o fone ao gancho. Afinal, não é alguém importante.  É somente alguém arrogante.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s