A bruxa está solta na Europa. E, ainda que não tenha aderido ao Euro como moeda, a Grã-Bretanha está temendo um Armageddon, segundo o ministro da Economia, Vince Cable. Informado por ele sobre a situação, o primeiro-ministro, David Cameron, também teme que a crise econômica faça estragos no Reino Unido, porque quase 50% de todas as exportações britânicas se destinam à União Europeia.

Dá para entender, portanto, a mudança de comportamento que o possível colapso do Euro está operando nos súditos da rainha Elizabeth, que sempre foram muito críticos em relação à União Europeia, desde a sua criação, e se divertiram muito enquanto os percalços da moeda eram apenas desgraça alheia. Agora – que ironia! -, estão sendo obrigados a torcer pela saúde da moeda, porque acabaram descobrindo que também dependem de sua estabilidade. E tentam salvar a própria pele.

Em entrevista à BBC, David Cameron falou de sua preocupação. O primeiro-ministro disse que seu governo está se preparando para todas e cada uma das eventualidades decorrentes da implosão da Zona do Euro, se isso acontecer. Segundo ele, há um grande ponto de interrogação sobre o futuro da moeda e, pior que isso, sua falência ameaça também a economia britânica.Por isso, conclamou os líderes da União Europeia a negociar agora para salvar o Euro, porque, quanto maior a demora na busca de uma saída, mais perigosa vai ficar a situação.

O quadro é realmente assustador quando se trata do crescimento da economia previsto para os países que compõem a Zona do Euro, começando pela Alemanha: 2,9% em 2011 e 0,8% em 2012; Itália: 0,5% em 2011 e 0,1 em 2012; Portugal: 1,9% em 2011 e menos 3,0% em 2012; Irlanda: 1,1% em 2011 e 1,1% em 2012; e França: 1,6% em 2011 e 0,6% em 2012. Como se vê, os alertas do primeiro-ministro inglês se justificam, mas chegam tarde e ninguém quer saber ouvir o que ele tem a dizer.Nicolas Sarkozy, presidente da França, deixou isso muito claro em outubro, quando disse ao próprio Cameron – mais direto não poderia ter sido – que os conselhos da Grã-Bretanha não são bem-vindos, porque ele e os outros líderes da Zona do Euro estão cansados das constantes críticas dos britânicos. Dura, a observação foi a resposta de Sarkozy à sugestão apresentada pelo primeiro-ministro inglês: ele queria que, como país não-integrante da Zona do Euro, a Grã-Bretanha fosse aceita nos debates sobre a crise da moeda na Cúpula de Bruxelas.

A quebra do Euro será catastrófica, diz Krugman

Se a Itália desistir do Euro, a Espanha vai seguir o exemplo e a França, provavelmente também, afirma o economista norte-americano Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008. Especificamente sobre o que vai acontecer na Itália, Krugman diz que isso depende, antes de mais nada, do Banco Central da União Europeia (EZB). Mas ele acredita que o banco vai fazer de tudo para evitar uma implosão; vai fechar os olhos às regras, inclusive, para que o projeto Euro não desmorone, porque as consequências políticas seriam enormes.

E qual seria o pior cenário para os próximos anos? Krugman diz: a Itália abandona o Euro; clientes sacam seus depósitos; bancos fecham. A Espanha vai junto, de roldão. Provavelmente também a França não aguenta. A consequência disso: o Euro sobrevive, mas como Marco alemão. O próprio economista confessa que mal pode acreditar no que está dizendo, mas acrescenta que, por pesada que pareça, a sua análise tem 40% de chance de se confirmar.

 Doutor Realista prevê sobrevida de cinco anos

Em Portugal e na Espanha, as pessoas estão fazendo uma limpa nos seus porta-joias. O ouro que até agora guardaram cuidadosamente virou passaporte para a segunda quinzena do mês, depois de gasto o salário com as despesas que não dá para postergar. A situação está difícil também na Itália e já ameaça a França. Em entrevista à versão online do jornal Zeit, da Alemanha, o professor de Economia da Universidade de Nova Iorque Nouriel Roubini prevê o fim da Zona do Euro para dentro de cinco anos, no máximo. 

Conhecido também como doutor Doom – “doutor naufrágio” e “doutor apocalipse” –, ele prefere falar sobre o futuro da Europa como “doutor Realista”. Na visão dele, os políticos podem empurrar os problemas com a barriga ainda nos próximos cinco anos, provavelmente. Depois não conseguirão mais se desviar de algumas decisões muito duras. “Vejo a chance de a Grécia e Portugal desembarcarem da União Europeia em até 30%. Em 2012, o endividamento da Grécia chega a 166% do produto social. O país tem um problema de liquidez, está insolvente”, diz.

Por isso, o perdão da dívida. Sim, mas ele não resolve a raiz do problema: a capengante competitividade no sul da Europa. Roubini afirma que “há mais de uma década, os países da periferia da União Europeia perderam a capacidade de competir diante da força da China, da Ásia, da Turquia e da Europa Oriental”. Ele explica o motivo: “Seus produtos exigem muita mão de obra e oferecem pouco valor agregado. A forte valorização do Euro desde 2002 arruinou a competitividade desses produtos. Esse foi o prego que fechou o caixão”.  

Os países do Mediterrâneo podem se tornar economicamente mais fortes que a Alemanha? Dificilmente, acredita o economista. Ele diz que os alemães gastaram 15 anos para se tornarem novamente competitivos, ao mesmo tempo em que os salários subiam menos do que a produtividade. Mas os países em crise pecaram pela inércia que está cobrando a conta. “Se a partir de agora a Grécia, Portugal e Espanha começassem a seguir o exemplo da Alemanha, os resultados viriam tarde demais. A única solução para esses países, agora, é o desembarque da Zona do Euro”.

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