O povo quer saber

Jornal Nacional no ar. O primeiro assunto é o vazamento de óleo na bacia de petróleo de Campos, no Rio de Janeiro, e o apresentador diz que, especialistas ouvidos afirmaram que o Brasil não está preparado para enfrentar acidentes desta grandeza e desta natureza.  Penso que é pior: o Brasil não está preparado para ser o Brasil continental, rico em minérios, rico em água, rico em terras cultiváveis, rico em diferenças culturais, rico em flora e fauna.  Tão rico que provoca inveja e cobiça mundo afora.               

Há vários sinais denunciando esse despreparo. Um deles é a facilidade com que ONGs estrangeiras se instalam na Amazônia, pretextando trabalho missionário e pretextando socorro aos desassistidos, como se não os houvesse também em seus países de origem, entre eles Estados Unidos.  Aliás, vem de lá a Chevron, a empresa diretamente causadora do derramamento de óleo no mar de Campos há mais de 12 dias. Esquiva e arrogante diante da imprensa – escolhe os jornalistas para os quais fala – a direção da petroleira já admitiu a ocorrência de um erro na perfuração, mas tenta atenuar sua responsabilidade no tratamento que dá ao acidente, afirmando que segue todas as exigências brasileiras. Então é isso: a Chevron tem competência para armar sua tenda em busca de petróleo, trabalha tão porcamente que acaba causando um desastre, mas não quer carregar a responsabilidade.  E olha que oportuno: tem a sorte de poder contar com alguns senhores  especializados no assunto, que apontam o Brasil como incompetente.

E é.  Tão incompetente que entrega a uma empresa estrangeira a exploração de seu petróleo, um recurso estratégico. Tão estratégico que, em 1945, apressou a partida de Franklin Roosevelt de Yalta, onde ele estava reunido com Stalin e Churchill para decidir o que caberia aos Estados Unidos, à então URSS, à Inglaterra e à França do que havia restado da Alemanha derrotada pelas forças aliadas na Segunda Guerra Mundial.  E qual era o motivo da azáfama de Roosevelt? Ocupar o espaço da Grã-Bretanha na Arábia Saudita, país riquíssimo no tal “ouro negro”.  Para isso, o então presidente norte-americano foi, às escondidas de Churchill, ao encontro do rei Abd Al-Aziz Al Saud, com quem assinou um tratado – em vigor até hoje –  de vários efeitos. Os mais importantes: a parceria comercial na exploração do petróleo e a instalação de bases norte-americanas no Oriente Médio. Desde então, Tio Sam controla a região como águia. E dá um jeito de colocar suas garras em qualquer um dos países que, localizados nessa área, se arrisque a um projeto ligado ao petróleo que não o inclua. A primeira demonstração disso data de 1951, quando o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh perdeu o cargo depois de nacionalizar o petróleo. Quem urdiu o golpe que o tirou do poder foi a CIA.

Mas o que isso tem a ver com o derramamento de óleo no mar de Campos e com a Chevron? A reposta é simples: gostaria de saber em que condições essa empresa norte-americana se instalou na costa brasileira para trabalhar na extração de petróleo, cometendo o erro de perfuração bem ali onde estão as reservas do pré-sal. Através de licitação, concorrendo. Certamente. De qualquer maneira, diante do que está acontecendo, o governo brasileiro deve uma explicação ao povo, até porque o histórico dessa petroleira é nada recomendável: no Equador, ela foi condenada pela Justiça ao pagamento de  uma multa de 13 bilhões, como responsável pela poluição de uma área da Floresta Amazônica com lixo tóxico. E a Transocean, que a empresa norte-americana contratou para o trabalho de perfuração na Bacia de Campos, já tinha em seu currículo o derramento de óleo no Golfo do México em abril do ano passado, onde trabalhou para a British Petroleum.

Agora, o diretor da unidade da Chevron no Brasil, George Buck, afirma que a multinacional assume a responsabilidade pelo derramamento de óleo, que diz ser residual e consequência de um erro de cálculo. A verdade? Espero que a Polícia Federal consiga trazê-la à tona. E espero que os causadores de mais este crime ambiental sejam punidos com rigor. Em dinheiro, o valor cobrado até o meio dia pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e pelo Ibama chegava a R$ 50 milhões, “que precisa ser recalculado, porque está completamente defasado”, disse o geógrafo e secretário do Meio Ambiente (Rio) Carlos Minc, que sobrevoou a área atingida. Durante a tarde, a ANP acrescentou mais R$ 100 milhões à multa.

Mas o rigor tem que ir mais fundo, proibindo a Transocean de operar em todo território nacional e não apenas na Bacia de Campos. E uma pergunta: onde estavam os brasileiros que, diretamente envolvidos no assunto petróleo, ficaram caladinhos quando a Chevron contratou os serviços dessa empresa, apesar daquele desastre no Golfo do México?

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