O mundo acaba de perder uma defensora dos direitos humanos. Danielle Mitterrand morreu na madrugada desta terça-feira, aos 87 anos de idade, no Hospital Georges Pompidou, em Paris. Era viúva de François Mitterrand, que presidiu a França de 1981 a 1995, e dela se louvava a postura independente. Tinha vida e ideias próprias. Muito dedicada à defesa dos direitos humanos, conseguiu que a França passasse a ser vista como um país próprio para fóruns ligados ao tema, ainda que não coubessem na moldura da sua política oficial.

Em 1986, Danielle criou a Fundação France Libertés. E nunca se desligou dela. Mesmo depois da morte de Mitterrand, que ocorreu em 1996, ela continuou defendendo a causa dos refugiados e das minorias. Em outubro, fez sua última aparição pública, para comemorar os 25 anos da fundação (foto DPA). Mas, segundo pessoas de seu convívio, estava  “cansada” e “fragilizada” (em setembro precisou de cuidados médicos por causa de problemas respiratórios).

Partiu deixando um recado. Na segunda-feira, os leitores do site da Fundação France Libertès puderam ler o que parece uma despedida, mas também é um alerta: “A vida quis que percorresse um longo caminho no tempo  (…) Tive a felicidade de constatar que as coisas mudam, até ganhamos algumas de nossas batalhas. Mas um número grande demais de seres humanos continua marginalizado e oprimido.”

Grandeza humana, elegância, coragem,  independência e vontade própria até para ultrapassar o limite imposto. Estas são as virtudes de Danielle Mitterrand, filha de professores de Sociologia e nascida em Verdun, no dia 24 de outubro de 1924. “Nunca serei apenas uma primeira-dama”. Foi este o pacto que ela fez e cumpriu, ao pé da letra, com  François. Queria ser lembrada como uma parceira pragmática do presidente.

Em julho de 1992, impressionou com sua coragem:  estava parada diante de um grupo de jornalistas em Dyarbakir, no sudoeste da Anatólia. No dia anterior, seu comboio na área curda do Iraque tinha encontrado uma barreira. Uma bomba havia matado cinco pessoas. A própria Danielle sobreviveu por um triz, por um milagre. Então uma repórter quis saber se o atentado a faria desistir de suas ações humanitárias.  Danielle, 67 anos na época, abriu aquele seu sorriso de menina, um pouco debochado, e perguntou docemente:  “Parece uma menina que desiste”?

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