Aqui se fala e aqui se paga. Será? O deputado Jair Bolsonaro acredita que isso vale apenas para quem vive na planície, longe do poder e sem imunidade parlamentar.  Ele a tem. E com ela como garantia já providenciou muitos momentos jubilosos a seus preconceituosos eleitores, praguejando contra os homossexuais, sem dar-se conta da grande pobreza intelectual que expõe em cada uma de suas diarreias verbais quando discursa na Câmara. Desta vez mirou até na presidente Dilma Rousseff.  Corajoso, ele?

Não sei. Estou duvidando disso. Fosse realmente um homem com agá, desses que matam no peito as consequências de suas ações, Bolsonaro não teria tentado recolher a merda que despejou nesta quinta-feira por causa do Kit Gay.  Não teria dito, diante da repercussão e da possibilidade de ser punido por falta de decoro parlamentar, que não era bem aquilo que pretendia dizer quando, fazendo uso de um jogo de palavras na tribuna, aconselhou a presidente Dilma a assumir sua homossexualidade que, segundo ele, se manifesta na campanha preparada pelo Ministério da Educação para combater o preconceito contra os homossexuais nas escolas – o kit anti-homofobia.

O que me espanta neste homem é o quanto é simplório. Pelo raciocínio dele, só pode defender um sem-teto quem vive na rua. Só pode sair em defesa de uma mulher violentada outra mulher violentada. Só pode defender um gay quem é gay. Fosse assim, um maestro que não soubesse tocar todos os instrumentos não poderia reger uma orquestra. Portanto, o deputado está fazendo papel de ridículo. Alguém deveria aconselhá-lo a se informar sobre o assunto. Se o fizer descobrirá que nada é tão simples quanto imagina a partir de seus tão precários conhecimentos sobre a sexualidade humana. Gente muito mais culta e preparada que ele, gente que dedicou anos ao estudo do tema é cautelosa quando emite um parecer.  A homossexualidade é definida pela genética? É hereditária? É um comportamento aprendido no ambiente em que a pessoa é criada? É resultado da fase edipiana não resolvida ou mal resolvida, como acreditava Freud? É uma escolha ou é um passa-perna da natureza?

Bolsonaro acredita que é uma escolha. E, segundo sei, ele é cristão. Disso sei bastante, porque aprendi nas aulas de catecismo da Igreja Católica, lá longe, na minha infância, que nada acontece sem a permissão de Deus. O cego deve se resignar com a vontade divina. O surdo, também. E por aí vai. Mas, se aceito isso como verdade, preciso aceitar que também a homossexualidade estava nos planos dele quando criou a espécie humana. Se não aceito, de duas uma: ou penso que toda essa história que me foi passada nas aulas de religião é literatura absolutamente ficcional, ou estou querendo comprar uma briga com Deus.  Aliás, Nietszche disse que essa história tem que ser lida ao contrário: foi o homem quem criou Deus quando se deu conta de que não tinha as respostas para as perguntas que fazia sobre o mistério da vida. É uma forma de ver a questão.

No que acredito? Seguramente não é nesse Deus em que gente como Bolsonaro acredita. Ele me parece demasiadamente cruel. Prefiro depositar minha fé em um princípio que permite ao ser humano ser feliz do jeito que sabe e pode ser; que não exige do ser humano esconder-se de si próprio para não ficar em descompasso com as verdades de quem se intitulou porta-voz da vontade divina. Prefiro acreditar em um Deus que não me quer submissa. Se me deu um cérebro é porque espera que faça uso dele para pensar. Aliás, quanto mais penso, mais acho que Bolsonaro não sabe da missa um terço.  É um tolo. Desconfio que vocifera contra os homossexuais porque tem medo do espelho.

Anúncios