Agnes nem se dá ao trabalho de abrir o portão. Pequena e ágil, ela escala o muro de pedra que separa o pátio da casa do pomar e salta para o outro lado. O vestido de algodão com desenhos em xadrez que herdou da irmã mais velha no verão passado ainda lhe sobra no corpo e acompanha seus movimentos com uma estranha coreografia. Esquivando-se dos galhos das laranjeiras, dos pessegueiros, das pereiras e das ameixeiras, ela vai pensativa ao encontro da mãe, que está à sua espera um pouco adiante, segurando um cesto de cheio de frutas há pouco colhidas.

O que será que uma árvore diz à outra quando as pessoas vão cortando seus galhos e arrancando suas frutas? Seguidamente, Agnes se flagra pensando sobre isso desde aquele outro dia, quando cansada de somar, dividir e multiplicar abandonou os cadernos em cima da mesa e foi ao jardim, onde correu pelos caminhos entre os canteiros floridos, chutando pedrinhas enquanto seus olhos tentavam definir o limite entre o verde e o azul da paisagem na linha esquiva do horizonte. Meio querendo ser pássaro, para beijar o céu, e outro tanto querendo ser a trapezista que acha seu equilíbrio nessa linha, acabou invadindo o pomar do vizinho, o velho Arnoldo, dia e noite atormentado pela asma.

Quando a crise é muito forte, e isso sempre acontece nas madrugadas mais frias do inverno, o ar não encontra saída do seu peito, que assobia como se fosse locomotiva, às vezes dando a impressão de que vai sair dos trilhos, conta Irina, a mulher dele.  Então ela pede socorro.

– Professor, o Arnoldo está muito mal. Diz que vai se matar se o senhor não vier logo para conversar com ele.

– Outra vez, reclama a mãe.

Mas o pai sente pena de Irina e de Arnoldo. Logo em seguida Agnes ouve seus passos pelo corredor da casa e não demora muito vê, pela fresta da janela, quando a figura dele, alta e magra, se dilui no caminho entre as árvores onde ela, no dia em que saiu chutando pedrinhas, colheu os pêssegos que comeu agachada atrás de uma pedra e se lambuzando toda. Só queria sentir o gosto da fruta, que está proibida de colher no pomar dos pais. 

– Faz mal quando está quente e não pode ser misturada com leite, adverte a mãe, com o dedo em riste.

Logo que ela começou com essa história, o pai tentou fazê-la entender que não há motivo para esse medo, mas ele desistiu de falar quando viu que não adiantaria. A partir daí, repete o mesmo trejeito quando o assunto surge numa conversa: repuxa o canto esquerdo da boca como quem desdenha e, com a mão direita, faz um gesto que Agnes entende como deixa para lá, isso tudo é bobagem.

E Agnes… Pela cabeça dela não passou, em nenhum momento, a ideia de contar à mãe que tinha desobedecido à ordem, nem mesmo quando a aventura se transformou em desconforto que, alojado acima do estômago, roubou–lhe o ar. Era como se, com o sabor da fruta, tivesse conhecido um pouco do desespero que o velho Arnoldo leva ao pomar nos finais das tardes, enrolado na manta de lã e parecendo um fantasma cansado.

Será que a mãe entenderia se comentasse com ela o que lhe vai pela cabeça?  Agnes não acredita, porque já viu que os adultos entendem tudo ao contrário. Foi assim quando confessou seu segredo ao padre Alberto.

– Como penitência, reza dois Glória ao Pai, uma Salve Rainha e um Credo, ele mandou, enquanto afastava a cortininha do confessionário com a mão esquerda para dar uma olhada na fila de fiéis cujos pecados ainda lhe seriam despejados nos ouvidos antes de começar a missa. Lembra também que insistiu, tentando explicar que não se sentia culpada, mas o padre não lhe deu mais atenção. Estava impaciente.

-Foi só um pecadinho venial, como se fosse um tropeço, e ninguém vai para o inferno por causa disso, comentou. Então fechou os olhos e desenhou uma cruz meio torta no ar.

– Ego te absolvo in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti, disse.

Agnes voltou para seu lugar no terceiro banco da ala esquerda da igreja e juntou as mãos para rezar. Tentou cumprir a penitência, mas a imagem de Alfonso, um amigo do pai, se intrometeu nos seus pensamentos.

Alfonso nem é tão velho. Só tem esse jeito de Matusalém. A mãe não confia nele, que tem a mania de procurar pelo pai de Agnes perto da meia-noite. Naquela hora, as três batidas dele na porta da casa ressoam na vila Paraíso, onde a maioria das casas já está de luzes apagadas, porque seus moradores dormem cedo para acordar cedo. No inverno, o vulto dele na porta sempre lhe provoca um arrepio de medo. Envolto em um capote preto que vai até os sapatos, Alfonso é um vampiro que se perdeu das páginas de algum livro e não acha o caminho de volta, pensa Agnes.

– Tá pesado, mãe, reclama agora, pegando o cesto cheio.

– Eu sei que está pesado. Mas você aguenta até a Casa Canônica. Vai, rapidinho, e volta em seguida, responde a mãe.

Agnes obedece e se afasta com seu passo curto pela trilha do pomar, mas por pouco não larga as frutas no chão quando enxerga o bode Frederico bem ali, imóvel, encarando-a. Depois ele baixa a cabeça e, com ela meio inclinada, dispara em sua direção. A sensação de perigo atravessa Agnes como lâmina aquecida na brasa. E toda a sua carne pressente a dor da chifrada. Mas ele para outra vez, a poucos metros, e ela sente que as batidas de seu coração se aceleram e multiplicam, nas têmporas, no pescoço, nos pulsos, na virilha. O corpo todo é um tambor.

Quando Frederico retoma a posição de ataque, Agnes corre. E não leva mais do que alguns minutos para chegar ao muro que dá acesso ao pátio da escola onde aprende a ler. Passa por cima dele como um raio, acreditando que o bode vai ficar para trás. Mas ele não desiste. Impondo-lhe seu cheiro selvagem, o animal a segue ladeira abaixo e chegam juntos à estrada de terra que margeia o Forromeco, onde a água rumoreja como prece serena sobre as pedras de seu leito.

Sempre que o sol atravessa a barreira líquida, Agnes imagina que os cascalhos são diamantes. Um dia vai recebê-los, à sombra de uma amoreira. Mas a mãe pediu que fosse rápida. Por isso, ela se move sobre o chão batido como se tivesse asas nos pés. Conhece a distância que ainda precisa vencer para chegar à casa do padre e ouve, vindas de longe, as gargalhadas de seus irmãos. Eles se divertem com a perseguição que está sofrendo de Frederico e nenhum deles abandonaria a sombra da Hovenia Dulcis preferida do pai para lhe dar um socorro.

Quando sente os chifres do bode estocando suas costas, ela se volta e tenta enfrentá-lo usando o cesto como escudo, mas o animal é mais forte e quase consegue derrubá-la. Então volta a correr e percebe que ao riso dos irmãos se juntaram as risadas de uma dezena de pessoas que esperam, um pouco adiante, pelo atendimento no consultório do único médico do vilarejo, bem ao pé do Morro do Diabo. 

– Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…

Agnes reza e aproveita para pedir também que o padre esteja de bom humor. Mas quando ele abre a porta, parecendo enorme em sua batina preta, é somente para agarrar o cesto com as frutas. Vê que a olha com desprezo. Do alto.

-Já disse a teu pai que precisa prender esse bode, diz. Está vermelho de raiva. Depois ele bate a porta, completamente indiferente às lágrimas dela e deixando-a entregue à sanha do animal, que a joga contra a cisterna.

-Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…

O anjo ajuda. Mas através das mãos de uma mulher. É Clara, a irmã caçula do padre.  Austera, ela traz as roupas abotoadas até o pescoço e nunca alguém viu se os braços dela são roliços ou magros.  Seu sorriso também ninguém sabe como é. Mas a falta dele não quer dizer que falte um coração no peito de Clara, que alarga o passo e pega Frederico pelos chifres.

– Corre, pede.

Então Agnes volta para casa, pedindo que um raio desabe sobre a Hovenia Dulcis e acabe com a sombra em que os irmãos se divertiram rindo dela. Mas à noite, quando as corujas piam nos telhados e Paraíso desaparece mais uma vez na escuridão, ela pede a Deus que esqueça o pedido.

– Agnus Dei, qui tollis pecata mundi…, diz o padre na missa.   Miserere nobis, responde o povo reunido na igreja.

– Isso significa Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo …tende piedade de nós, traduziu o pai.

Mas nada será como antes. Agora, com os olhos pesados de sono, Agnes promete dizer à mãe, logo de manhã, bem cedo, que dali para frente não quer mais ser chamada de Agnes. Sabe que nunca mais será Agnes. Com os olhos no fio de luz que entra pela fresta da veneziana, ela decide que seu nome será Lúcia. E se ajeita sobre o tapete com que vai sobrevoar a casa e o mundo até o amanhecer. Debaixo da cama, o Sheik de Agadir entrega diamantes à sua princesa.  Ele tem grandes olhos negros e sobrancelhas espessas.

Anúncios