Perguntas. Apenas perguntas

Li em algum jornal de Porto Alegre faz alguns meses. Não me lembro em qual. Em página inteira, o protagonista da reportagem era um motorista de taxi que faz uma entrega mensal de espermas a uma clínica de fertilização in vitro na Capital, onde seu nome nunca será revelado aos que fizerem uso de seu material.  A naturalidade – até certo ufanismo – com que falou sobre sua prodigalidade espermática, deu a entender que na cabeça dele não há espaço para qualquer traço de preocupação com os seres humanos que carregarão sua genética daqui a vinte, trinta, cinquenta anos. O sujeito é um reprodutor. Punto e basta, diria Totó, o personagem que Tony Ramos viveu em Passione, novela da Rede Globo.

Aliás, esse avanço da medicina é um dos assuntos de Fina Estampa, também na emissora carioca, através da personagem de Júlia Lemmertz, Ester, que deseja ser mãe. O problema é que tanto ela quanto o marido não estão naturalmente programados para a reprodução. Este não seria um caso que poderia ser resolvido através da adoção? Seria, não quisesse a personagem sentir-se grávida e vivenciar todos os confortos e desconfortos desse estado. Na clínica de fertilização in vitro da médica Danielle (Renata Sorrah), ela ouve que isso é possível mediante um processo que começa na escolha de óvulos e espermas vindos de outras pessoas. Claro que a primeira reação é de solidariedade com Ester.  Afinal, o recurso existe, ela deseja muito ser mãe e, quando comparada a outras mulheres, reúne bem mais qualidades para se desincumbir da tarefa que é criar e educar um ser humano.  Portanto, esse direito não lhe pode ser negado. Ou será que pode, se colocarmos na balança o fato de que este recurso pode ganhar adeptos inclusive entre pessoas que estão aptas a procriar naturalmente, mas preferem recorrer ao laboratório?

O primeiro questionamento que pesa nessa balança é o da consanguinidade e suas consequências, o que, no futuro, poderá ocorrer com muito mais probabilidade que hoje, por causa do anonimato em que ficam os doadores. Quantos filhos terá o motorista de taxi daqui a vinte anos? Ele próprio não tem controle sobre isso e isso significa que não poderá impedir uma relação entre irmãos, simplesmente porque não terá essa informação. Outro peso – pesadíssimo – é o direito que o sigilo automaticamente nega a esses “filhos” de conhecerem sua origem em todas as dimensões – a social, a cultural e a genética. Por isso a pergunta: estamos sendo éticos quando nos valemos desse recurso avançado da medicina? O que me parece é que, quando priorizamos o sonho de uma mulher dessa forma, estamos atropelando ostensivamente um direito inalienável de todo ser humano: o de pertencimento, saber quem é.                                         

Outra pergunta diante dessa forma de reprodução humana é até que ponto ela vai afetar a diversidade da espécie humana.  Vendo a questão especificamente pelo lado masculino: quantos doadores de esperma há no mundo? Milhares? Que seja.  E, mesmo que o número seja maior, a genética predominante no futuro será a desses homens, uma nova versão para o capitalismo. É um tipo de domínio. Devo ser positiva nas minhas expectativas? Então imagino que a escolha das mulheres se guiará menos pelos músculos e mais pelas virtudes cerebrais e emocionais dos doadores de esperma. Nesse caso, gente como Bush sairá de cena, porque o parentesco resultante dessa supremacia genética – ou desse empobrecimento genético? – vai transformar o planeta Terra em um globo familiarmente harmonioso. Mas não vou muito longe com essa esperança, porque minhas elucubrações esbarram nas recriações de Caim e Abel que pululam pelo mundo, provando o contrário.

Perguntas, perguntas, perguntas. É só o que tenho sobre este assunto e nem posso colocá-las todas neste texto. A figura do pai, por exemplo, qual será a importância dela? Sou muito atrevida quando imagino que a teoria de Freud não fará mais sentido? A verdade é que esse tema, embora me encha a cabeça de interrogações, é da alçada dos antropólogos, dos geneticistas, dos psicanalistas. Também dos médicos, obviamente. E deles gostaria de saber se estão avaliando adequadamente a repercussão que seu trabalho nas clínicas de reprodução terá na saúde física e mental dos humanos de um futuro que se aproxima com uma velocidade cada vez maior, trazido pelas inovações tecnológicas.  Mas, claro, quem rege o mundo é o mercado. E nele, o sonho de uns é o lucro de outros.

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