Uma conversa surpreendente

“Não há nenhum prazer em tirar a vida de uma pessoa. Quem gosta disso é um psicopata“, diz um homem do qual não se espera esse tipo de declaração. O nome dele é Meir Dagan (foto DPA). Até o começo de 2011, ele chefiava o serviço secreto de Israel, o Mossad. Em 2002, quando o nomeou para esse cargo, o então primeiro-ministro Ariel Sharon afirmou que a “especialidade de Dagan é separar a cabeça de um árabe do corpo“.

Neste final de semana, o jornal Welt online publicou a primeira entrevista coletiva de Meir Dagan, 66 anos de idade, depois de sua aposentadoria. Durante a conversa em Tel Aviv, transmitida pela televisão e com imagens de fatos abordados, ele falou sobre vários assuntos. Entre eles, a morte de um líder da organização palestina Fatah na Síria em fevereiro de 2008, que teria coordenado. Mas, claro, nem todas as perguntas foram respondidas, porque Dagan não pode falar sobre tudo aquilo que todos gostariam de saber.

A contradição

A jornalista Ilana Dajan quer saber: “O que se pode pensar sobre alguém que, embora não goste matar, fez isso tantas vezes em sua vida?”. Dagan não responde logo. Respira profundamente, balança a cabeça de um lado a outro, sabendo que o “alguém” a quem a repórter se refere é ele. Então diz: “Espero que ele possa conviver com isso”.

O que dá para perceber, segundo o jornal, é que o ex-chefe do Mossad não está acostumado a lidar com a mídia. Às vezes passa a impressão de alguém que se sente meio perdido. É possível que se comporte dessa maneira porque precisa manter-se vigilante para não cometer indiscrições que podem ser perigosas. A maior parte das perguntas ele não tem permissão para responder.

Aliás, todas as perguntas relativas às atividades atribuídas ao Mossad devem remeter aos meios de comunicação do exterior, para não bater de frente com a censura militar. Às vezes, por causa disso, a entrevista se assemelha a uma conversa de doidos. Quando a jornalista quer saber se Dagan, depois do assassinato de Mamud al-Mabhuh, integrante do Hamas, no dia 20 de janeiro  de 2010, foi obrigado a pedir demissão  do cargo, ela tem que falar de uma  “teórica ação secreta”, que teria sido coordenada por um “suposto chefe do serviço secreto” e “em um suposto país”.

No coração de Damasco

12 de fevereiro de 2008. Imagens gravadas no coração de Damasco, a capital da Síria, mostram quando Imad Mughnia dá partida no seu jipe, que explode. O comandante militar da organização terrorista xiita Hezbolah morreu na hora e a suspeita recaiu imediatamente sobre o Mossad.

Diante dessas imagens, primeiro Dagan desconversa: “Nada sei a respeito desse acidente”. Depois, esboçando um sorriso, admite que conhecia Imad.  Em 1978, segundo conta, ele o encontrou casualmente na cidade natal dele, Tir Daba, no sul do Líbano, onde seu tio era o homem mais velho.

Na época, recebeu do ancião o pedido de deixar Imad em paz, porque ele nada teria a ver com a organização palestina Fatah. Agora Meir Dagan afirma que se tivesse sabido então o rumo que a vida do jovem tomou, essa conversa teria terminado de forma completamente diferente. O tom com que fala é meio brincalhão e meio ameaçador.

A morte em Dubai

15h25min, 20 de janeiro de 2010. Mahmud al-Mabhouch registra sua entrada no hotel Bustan Rotana, em Dubai Ele não sabe, mas sua vida está por um fio. Sobram-lhe, no máximo, cinco horas. O vídeo divulgado pela polícia dos Emirados Árabes mostra que ele está no foco de seus assassinos. Dois suspeitos estão parados ao lado dele quando o funcionário da recepção lhe entrega a chave do quarto 230. Dois outros, vestidos como se fossem tenistas e com raquetes nas mãos, tomam o elevador com ele. A incumbência deles é descobrir o número do quarto onde Mahmud vai ficar. Logo depois eles se acomodam no mesmo andar, no apartamento em frente ao dele.

16h23min – Mahmud al-Mabhouch sai do seu quarto e do hotel. Como se fosse uma casualidade, atrás dele seguem pessoas com aparência de turistas.

18h25min – O cenário está preparado. Agora, quatro homens entram no hotel e ficam à espera de al-Mabhouch no quarto dele.

20h24min – Há movimento no quarto 230, mas ninguém sabe exatamente o que está acontecendo.

20h46min – Quatro homens deixam o quarto 230 e entram no elevador. Al-Mabhouch está morto.  A polícia supõe que ele foi silenciado com eletrochoques e, depois, sufocado com um travesseiro. Além disso, acredita que 17 pessoas trabalharam para matar o líder do Hamas e que pode identificar 11 deles através dos seus passaportes, mas acaba descobrindo que são falsos e foram roubados de israelenses de dupla nacionalidade. Este é um método que o Mossad usou muito no passado.

Deus governa tudo

Dagan tem uma explicação para muitos acontecimentos: os assassinatos de cientistas nucleares no Irã, os acidentes aéreos, os sofisticadíssimos vírus que tomam computadores do sistema iraniano de assalto e as explosões em usinas atômicas. Deus é responsável por tudo isso? “Exatamente, Deus governa e controla tudo. Também me parece que ele sabe como se coordena esse tipo de coisa”, afirma o ex-chefe do Mossad.

Ele sabe que quando aceita a curiosidade sobre histórias desse tipo, sobre as quais não pode e não quer falar, entra num jogo de gato e rato. Mas tem um objetivo: fazer um alerta sobre os riscos de uma guerra no Oriente Médio. Por isso resolveu dar essa entrevista totalmente incomum e, por isso, não mergulhou verdadeiramente na vida privada desde que se aposentou.

Não confia no primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e não confia no ministro da Defesa, Ehud Barak. Deixa isso muito claro. Está convencido de que o Irã não conseguirá desenvolver uma bomba atômica antes de 2015 e acredita que um ataque ao país, agora, seria impulsivo e imprudente. Então uma jornalista aponta uma incoerência e quer saber por que foi considerado correto o ataque a reator nuclear na Síria – segundo divulgaram os meios de comunicação de outros países. E por que teria sido errado atacar o programa atômico do Irã (explosão ocorrida em 12 de novembro colocou o Mossad sob suspeita)?

Meir Dagan responde que não existe relação entre as duas situações. Para desligar o projeto atômico sírio – “segundo a imprensa externa”, diz agora também o ex-chefe do Mossad – teriam bastado dois ou três ataques bem pontuais. Além disso, segundo ele, era possível concluir que os sírios não teriam interesse em uma escalada para a guerra e, por isso, recuaram.

Quando o ministro da Defesa afirma que Israel está disposto a mais nove meses de negociações, Dagan fica muito preocupado. E diz por quê: “Na minha visão, a opção militar é a última alternativa”. Ele acredita que, se o Irã realmente der andamento à instalação de uma tecnologia nuclear, ainda haverá muito tempo para que Israel tome uma “dramática e extrema decisão”. E se estiver errado e a razão estiver com Barak e Netanjahu? “Nesse caso, o mundo estará diante de um holocausto, diante da até aqui desconhecida ameaça de uma nação enlouquecida e com armas nucleares”.

Nessa altura da entrevista, o ex-chefe do Mossad surpreende mais uma vez o grupo de jornalistas, acrescentando o que nenhum deles esperava ouvir dele: “O Irã funciona como um país racional. Observa e analisa as reações do mundo à forma como se apresenta. Por isso, não há em Teerã nenhuma corrida histérica em direção à bomba nuclear. O presidente Mahmud Ahmadinejad não é também um louco. É, pelo contrário, um homem muito esperto”.

De qualquer, segundo Meir Dagan, Israel preciso manter os olhos muito abertos e avaliar muito as consequências de uma guerra na região. Na visão dele, um conflito com o Irã mobilizará contra Israel também as forças armadas da Síria, os mísseis virão do Sul enviados pelo Hamas e o Hezbolal atacará pelo Norte. “Essa é uma possibilidade”, que Dagan teme, mas Netanyahu e Barak não avaliam corretamente, acredita o ex-chefe do Mossad.

Segurando as lágrimas

Se Meir Dagan tem razão? Essa pergunta ficou sem resposta. Mas a postura dele durante a entrevista deixa evidente que está realmente preocupado. Essa preocupação vem de um trauma, vivido na guerra do Yom-Kippur, em 1973. Ele se lembra de que em Israel havia, pouco antes do início do conflito, a certeza de que o país seria inatingível; não haveria guerra, nada poderia acontecer de ruim.

Engano. O próprio Dagan foi para o front e viu quando um de seus companheiros, sentado a seu lado num panzer, foi morto. Quando se lembra da cena, faz um esforço para não chorar. Depois de uma longa pausa diz: “Não dá para esquecer”. Então alguém pergunta: se pudesse gostaria de tirar da sua memória todas as lembranças da guerra – as boas e as más?  A resposta vem rápida e firme: “Gostaria muito”. O ex-chefe do Mossad afirma que odeia a guerra.

 

Matéria originalmente publicada no jornal Welt Online

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