Ovelhas a caminho

Nunca tinha visto tantas ao mesmo tempo. Tocadas pelos homens a cavalo, as ovelhas seguiam em frente, sem um balido, levantando poeira.  Pela sujeira de sua lã dava para notar que vinham de uma longa caminhada. Algumas pareciam cansadas. Iam aos tropeços e certamente não aguentariam por muito mais tempo. Ficariam pelo caminho, somando prejuízo para o dono e alimento para os urubus, que aguardavam por sua vez, pousados nos galhos das árvores e nos fios de luz. Outras, mais jovens, seguiam em passo mais rápido, quase correndo, empurrando as companheiras da frente com seus focinhos. Eram novatas nesse tipo de jornada.

– Mesmo que não fossem, disse o pai, isso de nada lhes adiantaria para saber que estão sendo levadas ao matadouro.

– Por que não?

– Ovelha não tem memória, filha.

Era um dia de primavera. Ventoso e ensolarado, como todos os dias da primavera. O pai tinha atravessado a noite tentando resolver uma diferença de centavos no balanço de uma cooperativa e agora estava no jardim, em busca de paz em meio ao voejo das borboletas e abelhas. Assim que o tinha visto ali, Lúcia havia abandonado o vai-e-vem do balanço que pendia do galho de uma hovenia dulcis para se acomodar ao lado dele. Gostava de ouvir as coisas interessantes que ele dizia, principalmente quando fumava cachimbo e espalhava fumaça cheirosa em volta. Então tinha esse ar pensativo, que a deixava inquieta e com vontade de fazer muitas perguntas.

– Gosto delas, pai. Elas não saem da estrada e parecem tão comportadas. Eu deveria ser assim?

– Não, você está enganada. Elas não são comportadas. As ovelhas são submissas e isso quer dizer que não têm vontade própria. Olha bem para elas. Você vai notar que, a não ser pelo cansaço das mais velhas, são todas iguais. Uma repete a outra. Só sabem andar em turma.

– Mas pai, outro dia o senhor me disse que as pessoas ficam mais fortes quando se unem…

– Sim, falei isso. E é verdade. Mas ficar unido não é a mesma coisa que andar em bando, com medo de dizer sim ou dizer não antes de saber o que os outros pensam. Você e seus irmãos são unidos, cada um pensa de seu jeito, algumas vezes até brigam na hora de decidir qual vai ser a brincadeira, mas nenhum de vocês tem medo de defender sua preferência. Ora vence um, ora vence o outro, nem por isso deixam de brincar. Não é mesmo? 

– É… Então, quando temos medo ficamos parecidos com as ovelhas?

– Sim, ficamos. E isso é ruim. Quando sentimos medo somos infelizes porque, lá no fundo, sabemos que não somos donos de nossa vida, que desperdiçamos nosso tempo fazendo a vontade dos outros. E essa vontade nem sempre é justa. Eu não quero que você seja assim quando for adolescente e, depois, quando for adulta e estiver longe de casa. Cada um de nós, Lúcia, vive somente uma vez. Por isso, precisamos usar o direito de escolher nosso caminho e um ponto de chegada. Se não fazemos isso, caminhamos à toa.

– O senhor nunca caminhou assim, sem saber para onde ia? Nunca foi obrigado a fazer coisas que não queria?

– Ora, minha filha… Mas vou contar: nem sempre tive a chance de escolher e isso me ensinou como é importante ter vontade própria, mesmo quando estamos rodeados de gente. Só quero que me prometa uma coisa: que nunca vai se esquecer da conversa que estamos tendo agora, sentados neste banco, sentindo o cheiro das flores e vendo a beleza das cores no jardim que a mãe cuida tão bem…

– Prometo. Mas, se uma das ovelhas saísse da estrada, o senhor acha que o tocador iria permitir?

– Claro que não. Ele iria atrás dela e tentaria trazê-la de volta de qualquer maneira, porque essa é a tarefa dele. E ela dependeria da sorte para sobreviver.

– Por exemplo, se ele desistisse de procurar ou se ela achasse um lugar onde ninguém pudesse encontrá-la. Tem certeza de que com a gente não é assim?

– Tenho. Com as pessoas as coisas são diferentes, porque elas podem escolher a comida, a roupa, a religião, o colégio, a profissão e os amigos. Podem escolher o que é melhor para elas.

– Mas, pai, o velho Arnoldo se matou porque não conseguia respirar. Ele não queria ter essa asma que chiava no peito dele, feito locomotiva, quando caminhava. E meu amigo Lauro, ele também não queria aquele coração que doía porque não parava de crescer dentro dele.

Lúcia esperou por uma resposta, mas o pai ficou em silêncio. Era cedo demais para lhe falar sobre as armadilhas que encontraria nos seus caminhos.

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