Faz um calor danado lá fora. Dentro de casa não, porque o ar-condicionado está trabalhando para deixar a temperatura amena e me permite cultivar um vício: o cafezinho, que tomo em série, o tempo todo, como se fosse uma versão feminina e tropical de Helmut Schmidt, ex-chanceler da Alemanha, que é fumante inveterado aos 92 anos de idade e acende o cigarro seguinte no que restou do anterior.

Quem gosta de café pode enumerar alguns bons motivos. Resumindo: funciona como combustível para o corpo e a mente. E isso, a partir do seu cheiro. Quando ele se espalha pelo ambiente é mais do que um convite. É verdadeiramente uma intimação aos aficionados, que justificam sua adesão compartilhando argumentos que recomendam o consumo dessa bebida, que é negra e amarga em sua forma original, mas tem versões sofisticadas que incluem menta, chocolate, rum e outros ingredientes.

Sim, o café faz bem. Dá ânimo novo principalmente aos que sofrem de pressão baixa. Mas, cuidado. Quando consumido em excesso, acontece exatamente o contrário. Depois de desrespeitado o limite, ele deixa a pessoa mais agitada e irritada, diminuindo, inclusive, a sua capacidade de concentração. Quem faz o alerta é a nutricionista Lucie Nusbaum, da  associação Oecotrophologen, de Bonn (Alemanha).

Ao contrário do que ocorre com os alcoólatras, em que cada gota a mais reforça o efeito desejado pelo consumidor, cada taça de café além do limite reduz a produtividade e o foco, afetando também o sono. Um detalhe: apenas 5% dos consumidores podem tomar café à noite sem que isso lhes cause insônia. Mas, como acontece com os viciados em álcool, também nos viciados em café a síndrome da abstinência é uma realidade. Ela se manifesta em forma de fortes dores de cabeça quando a pessoa não consome a dose diária a que seu organismo se acostumou e, por isso, se ressente da falta de cafeína.

Além de efeitos como a perda da capacidade de concentração, aumento da irritabilidade e da insônia, mais um motivo para que alguém queira reduzir o consumo de café – até mesmo abdicar dele – pode ser uma especial sensibilidade do estômago, da qual a azia é um dos sintomas. Mas quem toma essa decisão precisa estar preparado para as consequências. Uma delas, imediata, são as ondas de dor que atingem várias zonas da cabeça e que podem durar alguns dias, lembra Lucie Nusbaum.

No Brasil, o efeito do café é um dos temas do livro Mente Criativa – A aventura do Cérebro Bem Nutrido, do psiquiatra ortomolecular Juarez Callegaro. Ele afirma que a maioria das pessoas deve evitar a ingestão de cafeína a partir das 16h se quiser um sono tranquilo e repousante, porque o efeito dela no organismo dura sete horas. Além disso, desaconselha o consumo dessa bebida ao diabético, “porque lhe falta o inositol para combater a depressão, o pânico, a ansiedade e o pensamento obsessivo, efeitos colaterais que o café pode produzir”.

O poeta perguntaria: E agora, José?  Pois é, se José se “chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução”, também segundo Carlos Drummond de Andrade. O que isso diz para mim, viciada em café, é que, se a medida é o prazer, preciso suportar as consequências. E que, se quero me livrar delas, tenho que encarar outras. Decisão verdadeiramente difícil de ser tomada quando o melhor cheiro do mundo toma conta da casa.

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