Peter Sellars respeita o verbo. A palavra é poderosa, afirma. E poderia dizer o contrário alguém que trabalha com ela o tempo todo, como diretor de teatro? Em novembro, ele esteve na Alemanha e foi entrevistado pelo jornal Zeit.

O foco da conversa era a sua versão para Otelo, o Mouro de Veneza, de William Shakespeare. A peça cumpriu temporada em Berlim, em novembro. Para levá-la aos palcos, Sellars se aliou à escritora Toni Morrison, Prêmio Nobel de Literatura, que cuidou do texto e fez uma releitura de Desdêdoma, a esposa de Otelo. A personagem ganhou voz.

Nascido em Pittsburgh, no dia 27 de setembro de 1957, Peter Sellars também é professor de World Arts and Cultures e seu foco é Arte como Ação Social e Arte como ação moral, na Ucla. Como diretor, gosta de inovar e, segundo os críticos, faz isso muito bem, atualizando clássicos – óperas e peças de teatro. A primeira vez em que chamou a atenção da imprensa foi quando encenou Antonio e Cleópatra, ambientando a peça em uma piscina da Adams House de Harvard. Depois apresentou uma produção tecno-industrial de Rei Lear, colocando um Lincoln Continental no palco.

Os anos passam e Sellars segue assim, amando os clássicos, mas fazendo a releitura deles. Ele tem uma visão muito particular da obra de Shakespeare e, principalmente de Otelo, em quem vê semelhanças com o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Sobre isso ele também fala nesta entrevista.

P: Parece que o Otelo de Shakespeares se tornou uma obsessão para o senhor. Encenou a peça para o Festival de Viena, com Hoffman como Iago, e agora a caminho com Desdêmona atualizada. O que o fascina nessas personagens?

Peter Sellars: A história começou há dez anos, quando estava almoçando com Toni Morrison em Princenton e conversamos sobre Shakespeare. Naquela época eu pensava: Otelo é realmente uma peça muito ruim, superficial.

P: O assassinato provocado pelo ciúme realmente parece sem sentido, e Desdêmona é uma figura muito frágil, sem personalidade…

Sellars: Eu via fragilidades ainda maiores: como podem as mentiras de Iago, completamente transparentes, produzir um efeito tão fatal? Além disso, Shakespeare nunca tinha visto um africano quando escreveu a peça. Quem é de fato este Otelo, para quem ele não criou, pelo menos, um monólogo decente? Sim, uma peça terrivemente ruim, assim me parecia. Então Toni Morrison, num longo almoço, me mostrou como eu estava errado em relação a Otelo.

P:  Como foi que Morrison o convenceu?

Sellars: Ela me deixou claro que a linguagem de Iago é a linguagem de Dick Cheney e companhia…

P: ele era vice-presidente de George W. Bush, o estrategista de guerra

Sellars: A palavra é poderosa: essas pessoas te convencem a matar o que tu amas. Elas te explicam que tudo aquilo que consideras importante não conta. Estamos rodeados desse tipo de vozes, que nos dizem que nossas prioridades são erradas. Portanto, Toni Morrison e eu nos comprometemos a uma experiência: eu encenaria Otelo, e Toni escreveria a sua versão para Desdemona.

P: O senhor diz que Otelo de Shakespeare é uma peça política que reflete o que acontece hoje. Mas Iago/Cheney não está mais na Casa Branca.

Sellars: Quando escalamos o elenco para o nosso Otelo, Barack Obama ainda não tinha sido eleito. Ele entrou na Casa Branca, como presidente, durante os ensaios. Quando vi a apresentação levei um choque: estávamos contando a história de um homem negro que chegou a um posto a que nunca antes um negro havia chegado antes. E naquele momento, em que ele alcançou o ponto mais alto, se tornaram perceptíveis as forças que tentam impedir o sucesso desse homem. E isso inclui seus amigos.

P:  Uma teoria de conspiração bastante americana.

Sellars: De maneira nenhuma. Nos Estados Unidos não demoraram a aparecer os primeiros cartazes Obama-Hitler. Não se trata apenas de uma conspiração.O que estamos vivendo na América é muito mais selvagem, muito mais estranho. Temos um presidente negro e, repentinamente, acontece esse movimento contrário a ele. Pessoas falam o que antes só pensavam. É racismo aberto e declarado. Também na Europa há tendências fascistas, na Holanda e na Itália. A mentira floresce! A gente conhece a verdade, mas acredita na mentira – exatamente assim funciona a história em Shakespeare. Um embuste escancarado, um complô contra Otelo, mas ninguém diz algo. Shakespeare nos traz essa atmosfera do terrível silêncio que leva à violência. Mentiras e violência! A mentira que levou à Guerra do Iraque! A aparente fragilidade da peça de Shakespeare nos mostra a nossa realidade. Nada além de mentiras: o camponês grego deve receber menos dinheiro para que os bancos de Nova Iorque possam prolongar suas férias.

P: O que Toni Morrison tem para acrescentar com sua versão para Desdêmona?

Sellars: No tempo de Shakespeare, as mulheres eram mudas, como Desdêmona, como Cordelia, a filha do rei Lear. Toni enche o espaço desse mutismo envenenado e permite que as mulheres, as primeiras vítimas desse silêncio, falem.

P: Obama decepcionou seus eleitores. Também ele silencia e às vezes age como se estivesse paralisado.

Sellars: É como Toni Morrison diz: negros cultos vivem com um tremendo autodomínio, porque sabem que estão sempre correndo o risco de ouvir esta acusação: veja, este é um negro em posição de poder e ele perde o controle, pois não é tão culto e intelectual, é apenas selvagem.Todos esses horríveis clichês, que os próprios negros projetam sobre si mesmos. Barack Obama foi criado assim, ouvindo que, em sociedade, deve comportar-se sempre de forma educada, nobre e silenciosa, não mostrando qualquer traço de ânimo alterado, sempre tendo o domínio completo de suas emoções. Isso enlouquece os adeptos dele. Eles lhe pedem que, pelo amor de Deus se defenda.

P: Este é um dilema dos liberais. Eles não têm resposta para ataques agressivos dos políticos da oposição, do Tea Party.

Sellars: Iago se movimenta absolutamente livre, porque não conhece as regras. Quem se apega a regras tem azar. Assim estão as coisas nos Estados Unidos, como em um jogo de futebol, em que um dos times observa as determinações recebidas enquanto o outro faz o que bem entende, desrespeita as regras, joga de acordo com a sua vontade e vence a partida. A democracia não existe mais. Quando faço uma comparação com a Grécia Antiga, chego à conclusão de que estamos sob domínio das oligarquias. As decisões são tomadas por pessoas que não foram democraticamente eleitas. E olha a ironia, justamente no mundo árabe, que sempre consideramos perdidamente reacionários e conservadores, agora se manifesta um espírito democrático.

P: Vamos esperar como isso continua…

Sellars: O texto de Toni Morrison tem algo de profético. Ela dá voz aos mortos e eles falam sobre o futuro. Têm tempo para refletir. Em Shakespeare, Desdêmona é uma adolescente. Ele a casa com Otelo na quarta-feira e, na noite de quinta, mata a sua criatura muda e perfeita. Toni Morrison a transforma em ser humano, em pessoa, com defeitos e erros. Ela não é mais um estátua. Na versão de Toni, ela diz a Otelo: a tua dúvida e as minhas certezas sufocaram o nosso amor .. Maravilha! Sonho com que os nossos filhos não leiam apenas Otelo de Shakespeare no colégio, mas que leiam também a Desdêmona de Toni Morrison. Shakespeare não era um racista, mas pode ser facilmente reduzido a isso.

P: Isso também aconteceu com seu Mercador de Veneza, que seguidamente foi acusado de fazer propaganda antissemita.

Sellars: Em Shakespeare não há pessoas boas e pessoas más. Ele é muito mais complicado, muito mais sutil. No entanto, por mais que o admire, para nós, hoje, falta alguma coisa nele. No caso de Otelo, é a África. Mas, finalmente, temos a África no palco, com o texto de Toni Morrison e a música de Rokia Traoré.

P: … da cantora de Mali. Com suas canções, Rokia Traoré nos leva de volta ao silêncio, depois de todas as palavras, e desta vez é um silêncio suave, não envenenado.

Sellars: Mesmo no original, Desdêmona já dá a entender que teve uma babá negra, Barbary. No tempo de Shakespeare, esse nome era sinônimo para África. Era a época em que o colonialismo começava a florescer. Não foi à toa que deu o nome de Globe Theatre a seu palco. Ele escreveu no início da globalização, pergunta sobre tesouros da terra, sobre temperos, sobre os caminhos mercantis e continentes desconhecidos. Portanto, Desdemona foi criada por uma africana, com lendas e canções africanas. Por isso ela não se apaixona por um nobre veneziano, mas por Otelo, pois ele também sabe falar maravilhosamente bem sobre sua pátria africana distante.

P: Toni Morrison desenvolveu sua peça a partir desse único verso?

Sellars: Já está tudo ali, mas precisa ser reconhecido, precisa ser ouvido. Depois que se lê a versão de Toni Morrison, o texto de Shakespeare é diferente. Eu amo sua Veneza. Mundos e culturas se encontram – África, China – nessa cidade, onde navios chegam e partem. O senhor pergunta sobre a minha obsessão. Posso responder que ela está focada nessas duas peças: O Mercador de Veneza e Otelo. Shakespeare amava essa ilha mágica, o ambiente de lenda, e Toni Morrison amplia isso em sua Desdêmona.

P: Essas ilhas da fantasia são, no final de contas, mundos teatrais, metáforas do palco.

Sellars: Sim, exatamente isso. São oásis, um lugar do bom silêncio, onde se pode respirar profunda e livremente. Assim projetamos o palco para Desdêmona como um espaço para sentimentos e reflexões. Um espaço para ouvir. Para isso investimos quase todo o orçamento destinado à montagem em microfones de alta tecnologia.

P: Este é uma mudança radical em relação ao barulhento Globe Theatre de Shakespeare.

Sellars: No momento há duas grandes tendências. Uma delas leva as pessoas às ruas no mundo todo. E elas dizem não a todas as mentiras. O outro discurso é sutil, frágil e concentrado. Precisamos dos dois, o grande microfone para o protesto e o pequeno microfone no qual nos ouvimos em nossas histórias individuais. Precisamos dessa intimidade. Essa é a ideia que faço do teatro, do teatro político no século XXI.

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