A vida aos bocados

Menino esperto. E precoce. Com oito meses de idade corria pela casa feito um vento. Quando achou um jeito de abrir as portas dos armários, ficou encantado com o som que podia tirar das panelas e começou a transportá-las de um lado a outro, batendo tambor. Volta e meia, ficavam esquecidas sobre a cama dos pais ou em algum canto da sala. Mas isso durou apenas algumas semanas, porque logo ele descobriu que havia outro mundo passando pela calçada. Então chegou o dia em que Matilde, a mãe, o encontrou em cima de uma poltrona, balbuciando suas ideias a alguém que tinha parado para lhe dar atenção. Estavam às gargalhadas, os dois. E, felizmente, havia grades na janela.

Mas nem sempre o menino esperto era assim tão corajoso. Uma noite, quando faltou luz, ele se desesperou nos braços de uma tia. “Abre o escuro”, implorava. E sentia outros medos. De tudo que se mexesse sem que fosse tocado. Por isso, queria distância de qualquer tipo de fio, de lã ou de linha, e entrava em pânico quando via a gelatina balançando no prato.  “Pai, para de atirar vento em mim”, pediu um dia, acomodado no banco traseiro do carro. “Pai, desliga o mar”, pediu de novo, agora diante das ondas que morriam na praia. Mas isso também passou. Primeiro, experimentou o prazer de descer a rua num skate. Depois desceu a montanha coberta de neve em Bariloche. Nada se compara a essa sensação de liberdade, dizia o sorriso dele.

Descobriu que a vida é boa. Melhor quando consumida aos bocados. Com alguns segredos. Aos seis anos acarinhava um no coração e na mente. Estava enamorado. E um dia, de mão dada com a mãe na entrada do colégio, pediu que ela fosse discreta, mas que desse uma olhada numa menina.

– É a minha namorada, confidenciou.

– Ah bom…

– Mas ela não sabe disso, apressou-se a  explicar.

– Sério?

Sim, era sério. Mas uma semana mais tarde, voltou a falar sobre o assunto. Então para contar que o namoro havia terminado, porque um colega de aula também estava apaixonado pela garota.

– Mas não tem problema, vou gostar de outra, acrescentou, acalmando seu próprio coração, que a mãe pensou fosse de atleta na primeira vez em que ouviu suas batidas no consultório médico.

Também tinha perguntas e queria ser ouvido. Um dia, Matilde foi convidada pela professora para explicar aos alunos dela tudo o que precisa acontecer antes de um programa chegar à tela da televisão. O menino esperto até sabia essa lição de cor. Aliás, gostava do ambiente de trabalho da mãe, onde Chang, um amigo de barba branca, já tinha lhe mostrado todos os ambientes – do estúdio de gravação do Pandorga até a sala do suíte. Mesmo assim levantou o dedinho para chamar a atenção da mãe, que viu dois olhos brilhantes de expectativa cravados nela. E ele sorria. Confiante. Mas ela estava respondendo à pergunta de uma coleguinha dele… O menino esperto, que também era obediente, esperou. Quando Matilde finalmente quis ouvir sua pergunta, o sorriso tinha desaparecido e ele estava constrangido.

– Esqueci a letra, balbuciou. Tinha descoberto que, às vezes, a vida não é tão boa. Também aos bocados.

Algumas semanas depois, a mãe quase deixou cair a panela cheia de feijão em ponto de fervura quando ele lhe veio com uma nova pergunta.

– Por que tenho esse saquinho no meio das pernas?

Ela pensou um pouco. Lembrou-se do que já tinha lido em algum livro sobre como os adultos devem reagir à curiosidade das crianças, respondendo somente enquanto perguntarem. Nada mais.

– Ali nascem as sementinhas dos filhos que você vai ter um dia, lá longe, quando for grande, falou.

– Quero quatro, ele respondeu, encerrando a questão. Mas somente naquele momento, porque algumas semanas depois ele voltou do colégio com uma queixa. Estava bastante preocupado.

– Hoje, no recreio, chutaram a minha família, contou.

– Como é que é?

– É mãe, eu estava jogando futebol e a bola bateu bem ali, na minha família.

Mas essa fase também passou. O menino esperto virou adolescente.  E virou gente grande. Continua curioso. Continua confirmando que a vida é moeda de duas faces. Uma e outra chegam aos bocados, enquanto ele desce os rios em botes, escala paredões e corre feito vento. O mundo ficou pequeno para seus sonhos. E a letra não esquece mais.

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