Logo na China? Foi bem essa a minha reação diante de uma nota no jornal: a barriga de grávida virou sinônimo de elegância e está na moda no país asiático, onde pode ser comprada nas melhores lojas de Pequim. E atenção para um detalhe importante na mesma nota: também há homens querendo usá-la.

Se isso estivesse acontecendo em outro país a minha reação seria, provavelmente, diferente. Mas o fato de ocorrer na China me cutuca em busca de explicações que tem menos a ver com modismo do que, pelo menos, com uma questão extremamente séria: o resgate do feminino, que tem sido sistematicamente maltratado como uma das consequências da política de controle da natalidade imposta pelo governo para evitar a explosão demográfica.

Ao longo de décadas, milhares de fetos femininos foram abortados – em intervenções médicas pagas pelo governo – por casais que, obedientes à lei do filho único, preferiam meninos para dar continuidade ao nome e a tudo que isso implica na cultura chinesa.  O resultado virou um problema: hoje a China é um território inclusive numericamente dominado pelo homem. Uma nação caracteristicamente masculina, onde a tal lei do filho único cobra seu preço, porque a falta de mulheres dificulta as parcerias amorosas e, em decorrência disso, a continuidade do nome e o legado genético. É o feitiço virando contra a o feiticeiro. Para 2020, a previsão é dramática. O país terá 24 milhões de solteiros em busca de mulher.

Em outras palavras, o controle da natalidade determinado pelo governo chinês foi eficiente no combate ao crescimento populacional, mas também acarretou um efeito não desejado, impactando sobre questões extremamente importantes do ser humano chinês: sua sexualidade, sua emoção e sua afetividade. A percepção desses impactos está apenas começando e certamente vai se aprofundar no futuro. Como a China vai resolver isso? 

No que se refere especificamente à sexualidade, evidências de hoje e também presentes na história da humanidade mostram que isso pode ser equacionado através da homossexualidade. A compra da barriguinha de grávida que hoje acontece na China seria uma indicação disso? Até poderia. Nesse caso, o país estaria se encaminhando para ser predominantemente gay. Mas nem todo mundo nasce com seu painel cerebral programado para aceitar um parceiro do mesmo sexo como sendo a sua verdade e a sua realização afetiva.

E há mais um aspecto a considerar. O da descendência. Semeadores há em profusão. Haverá úteros suficientes para acolher a semente?  Nesse caso, o governo poderá interferir, mais uma vez. Quem sabe, subsidiando o acesso às barrigas de aluguel em outros países, ou desenvolvendo tecnologia para uma gestação completa em laboratório. Afinal, se a China já presenteou o planeta Terra com algumas invenções tão interessantes quanto o chucrute, a massa, o sorvete e a escova de dente, por que não viria também de lá esse recurso num mundo cada vez mais tecnológico? A mulher seria definitivamente descartada. Esta, sim, seria uma radical revolução cultural e os que, por algum descuido técnico, nascessem heterossexuais seriam estranhos no ninho homo.

A recompensa seria um mundo mais pacífico. É nisso que acredita quem vê lógica em em teorias como as de Steven Pinker, para quem a disputa pelo poder tem como base o desejo inconsciente do homem de garantir a continuidade de sua genética para o futuro. Então ele precisa do poder – que nas comunidades mais primitivas é a força física e nas mais sofisticadas é o dinheiro – para ter a mulher. De preferência, muitas. Mas isso exige que elimine rivais. Então ele vai à guerra, justificando-a com os mais diferentes argumentos. Os poderosos as declaram, mas mandam os jovens aos campos de batalha, onde morrem e matam outros jovens cheios de hormônios e aptos para procriar. Por isso, a guerra é também é palco onde as mulheres são estupradas e os vencedores deixam sua genética, seu rastro inapagável.  O Brasil fez exatamente isso na Guerra do Paraguai quando eliminou praticamente toda a população masculina no país vizinho, que até hoje se ressente dessa crueldade.

Uma guerra poderia ser também a solução para a população chinesa reencontrar o equilíbrio no número de homens e mulheres. Contra quem? Bom, Barack Obama decretou a saída das tropas dos Estados Unidos do Iraque. Para onde irá essa massa soldados? A pendenga entre a China e os monges do Tibet seria aceita pela ONU como justificativa para mais uma invasão norte-americana? Não acredito, mas a ONU não apita nem mesmo uma pelada de futebol.

O grande impedimento é que na história do grande país asiático pululam disputas entre as dinastias, mas, quando se trata de sua relação com outras nações, seus governantes são mais refinados que os estultos republicanos norte-americanos. Preferem ganhar seu espaço nelas através do comércio e dos tributos. Foi assim que se comportaram nos idos de 1400, quando dominaram os mares com seus navios carregados de presentes para os que consideravam selvagens ocidentais. Que, aliás, continuam com um pé na caverna. É o que provam, pelo menos, os escombros agora deixados para trás pelas tropas dos Estados Unidos em solo iraquiano.

Mas a China não é o Iraque. Certo? É misteriosa como a gente do Vietnam, onde o atrevimento dos norte-americanos ganhou respostas inesperadas e indesejadas. Portanto, é bem provável que os chineses acabem guerreando internamente para cumprir aquilo que Pinker e outros estudiosos definem como demanda intrínseca à natureza masculina. O certo é que o controle da natalidade e a forma como os casais lidaram com essa lei criaram uma situação difícil para os homens chineses.

Anúncios