O lero de sempre

Diz o parlamentar do PSDB na tela da televisão, com ar de pároco de igreja interiorana: “O novo ano é o momento de não aceitarmos a continuidade da roubalheira…”. Arre! A “roubalheira” de quem? Daqueles que se aliaram para formar este governo ou do próprio PSDB durante o governo do FHC, segundo denúncia feita por Amaury Ribeiro Jr, em Privataria Tucana, seu livro recém-lançado?

Um depois do outro, perto do Natal e da virada para outros 365 dias, os políticos de diferentes partidos despejam seus bons propósitos, absolutamente circunstanciais, nos ouvidos dos possíveis eleitores. Claro, é bom ficar em evidência, principalmente quando se pode fazer isso em associação com o espírito natalino. E o efeito? Nada muda neste país, porque toda essa conclamação para a prática do bem, sempre programada para o próximo ano, é um ajuntamento de palavras que, de algum tempo para cá, eles nem precisam decorar, porque a moderna tecnologia lhes coloca o teleprompter à disposição.

Só vai atrás dessa conversa fiada, e afiada na cara-de-pau, quem é muito ingênuo ou quem é tão safado quanto. Os outros, aqueles que observam todo esse movimento com olhos críticos, não caem nessa lorota. Fazem por merecer o próprio cérebro, essa estrutura que é maravilhosa. E muito rápida para, ouvindo agora, lembrar-se do que viu e ouviu ontem, anteontem e em anos já muito passados. Alguns passados a ferro, outros embalados em luvas de seda ou em algum figurino de passista de escola de samba. Portanto, ouvindo o tal parlamentar, a luz se acendeu no meu arquivo particular sobre a estante em que estão guardadas safadezas como a praticada por outro parlamentar, este do PMDB, durante campanha eleitoral.

De vereador ele queria ser promovido a deputado estadual nas urnas. Para isso fez um agrado desavergonhado aos motoristas em pontos escolhidos na Capital, onde colocou moçoilas que, munidas de cartazes, avisavam sobre a existência de radares a poucos metros. A caminho do Jornal do Comércio, onde trabalhava na época, dei-me ao trabalho de levar uma conversa com duas que se revezavam na rua Silva Só, bem no final da elevada, e soube que ganhavam R$ 15,00 por dia para fazer o alerta.

Avisar um adulto sobre o local em que um radar pode flagrá-lo em excesso de velocidade é tratar esse adulto como criança, a quem os pais, sim, devem repetir os alertas sobre os perigos e as consequências que sofrerão se desrespeitarem as normas que regem a convivência. Quando o sujeito recebe a carteira que lhe dá o direito de dirigir um carro, essas regras já devem estar internalizadas. Sempre que ele continua precisando do alerta, isso me faz pensar que foi educado ouvindo que pode aprontar à vontade, contanto que não seja flagrado. Portanto, ali onde sabe da existência de um radar, ele tira o pé do acelerador, mais adiante pisa fundo e coloca outras vidas em risco, além da própria. Esse é um tipo humano asqueroso, mas é asqueroso também aquele que o protege com avisos para que sua incontinência ao volante não seja flagrada e devidamente punida. São cúmplices.

O problema é que, depois de eleito, o deputado engavetou o assunto.  E a gaveta também será o destino dos bons propósitos que os parlamentares do PSDB apregoam agora na tela da tevê, usando a “roubalheira” como um conto de fadas. Fazem isso sem o menor constrangimento, porque tratam seus eleitores como crianças. E sobre crianças, a gente sabe que pedem sempre e ouvem sempre a mesma história sobre o embate entre o bem e o mal, sobre ogros, bruxas e fadas. Dá para contar nos dedos aquelas que acusam, como Bárbara fez aos dois anos de idade: ”Tia, você pomete, pomete, mas o Papai Noel não vem”.

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