Tu ou você?

Tenho pena do português que falamos neste sul do Brasil. Está em frangalhos, de tão maltratado na boca do povo, que diz coisas como “se tu se refere a mim…”.  Ouvi esse assassinato linguístico há algumas noites, quando foi cometido por Suelen Ribeiro, uma das meninas do Studio Pampa. E o que é pior: esse não era o primeiro da autoria dela que, se houvesse um júri para esse tipo de crime, já a teria condenado à prisão. Aliás, ela e todas as suas colegas, que incorrem sistematicamente na mesma discordância verbal.

Faz algumas semanas, a mesma Suelen entrevistou o cirurgião plástico Dr. Rey a bordo de uma limousine e escorregou na conjugação verbal do tu durante toda a viagem, em uma sequência irritante de “tu vai, tu vem, tu fez, tu foi”. Depois, o convidado foi submetido a um interrogatório no estúdio do programa e, dessa vez, a profanação da língua foi obra de toda a equipe liderada pela jornalista Cris Barth. E quem sentiu vergonha fui eu. Engraçado? Não. Lógico. O engano só constrange quem se dá conta dele.  E esse não era o caso das loiras e morenas do Studio Pampa.

“Qual o colégio que tu estudou?” Esse deslize tem a  assinatura de Cris Barth, que tropeçou duas vezes na gramática em outra edição do programa. Além de errar a concordância verbal, a apresentadora transformou o colégio em objeto de estudo quando omitiu a preposição em antes do pronome que. Arre! A pergunta não teria doído nos meus ouvidos se tivesse sido feita dessa maneira: Em que colégio tu estudaste? Ou então: Qual é o nome do colégio em que estudaste? Simples. Limpo. Gramaticalmente correto.  

E bonito? Não acho. Na verdade, não gosto do tu nas conversas. É dúbio. Ao mesmo tempo em que propõe uma estreita proximidade, ele me soa autoritário e tão cortante quanto faca amolada. A imagem que faço dele é muito ruim. Por isso trato de evitá-lo. E acredito que o assassinato perpetrado pela turma do tu vai, tu vem e tu estuda tem mais a ver com esse desconforto do que com o desconhecimento das regras gramaticais. Por isso conjuga o verbo como se estivesse usando o pronome você. Minha sugestão é que o tu seja defenestrado dos programas de televisão que não sejam nativistas e que os apresentadores e repórteres adotem de uma vez por todas o você.

Aliás, no Studio Pampa desta terça-feira, o português corretamente falado foi um dos assuntos – muito rapidamente. A iniciativa foi de Bruna Felisberto. Ela argumentou – e está certa – que os textos dos programas de televisão devem ser simples, diretos e coloquiais, mas acrescentou que isso não justifica o desrespeito às regras da gramática. Claro, não estava ensaiando uma autocrítica. De qualquer maneira, levantou uma questão que a equipe do programa deveria tratar com muito carinho, começando por um cuidado maior na conjugação dos verbos.

De resto, o Studio Pampa tem ritmo e tem humor, mas nenhuma informação realmente importante. Pratica um voyeurismo escancarado e nisso está em perfeita sintonia com seus telespectadores. Dá para notar que seus integrantes se esforçam para não decepcionar esse público, a quem serve os vídeos que fazem sucesso na internet – isso virou febre – e as fofocas envolvendo as celebridades do planeta. O Rio Grande do Sul só aparece circunstancialmente, através de quem faz sucesso fora dele – como Ronaldinho Gaúcho- e no comentário de Tom Siqueira, no final da edição. Então, convenhamos, não dá para dizer que este é um programa totalmente feito aqui.

E voltando à questão do tu: na Itália, considerado um país de gente muito expansiva, seu uso é admitido somente entre pessoas muito amigas, realmente muito próximas. Sua entrada em cena, em qualquer outro tipo de situação, necessita de autorização, contou em sala de aula a professora Simonetta Zara. Na Alemanha não é diferente. Não se vai do “prazer em conhecê-lo” ao tu sem mais nem menos. “Dudzen wir uns” (vamos nos tratar de Du)? Repete-se neste aspecto da convivência humana o que acontece nos semáforos das vias públicas alemãs: os carros param quando a luz fica vermelha, mas o pedestre não avança imediatamente. Espera que o sinal verde lhe indique que pode seguir. 

Esse é um cuidado que deveria ser tomado também nas entrevistas. Tratar o convidado de um programa por tu, como a equipe do Studio Pampa fez com Dr. Rey, é forçar a barra no sentido de simular uma intimidade que, na realidade, não existe. E, mesmo quando existe, não deve ser demonstrada, para que não pareça uma conversa de comadres e compadres, o que é ruim em um programa como o Studio Pampa, mas é pior quando acontece no Roda Viva. E aconteceu. Foi na entrevista com o escritor israelense Amos Oz. Quase todos os integrantes da bancada usaram o tratamento de “senhor” nas perguntas. A exceção foi uma produtora de cinema – quer levar a obra dele à tela grande -, que insistiu no “você”. Feio. Muito feio.

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5 comentários em “Tu ou você?

  1. Muito bem Maria. O você já deveria ter sido implementado há muito tempo na televisão gaúcha. Concordo plenamente com o que você disse: O tu é dúbio. Ao mesmo tempo em que propõe uma estreita proximidade, ele soa autoritário, perigoso como faca afiada. Defenestrado é ótimo, o tu merece esse termo, definitivamente. kkkkkkkk

    1. É, Rosela. O tu soa assim aos meus ouvidos há muito tempo. Aliás, já fiz comentário sobre isso quando trabalhava no Jornal do Comércio. E me parece que há mais gente sentindo esse desconforto, especialmente esses que erram na concordância. É como se tentassem atenuar o efeito dele. Um abraço.

  2. Oi Maria!! Gostei desta matéria, pois, mesmo sendo estrangeira, percebo como
    os brasileiros maltratam uma lingua tão bonita.
    Ainda bem que não sou mais cliente da Net. Toda vez que caía o sinal ligava para
    eles e tinha que afastar o fone do meu ouvido.
    Experimenta: liga para o 10621 e vai aparecer um “engraçadinho” passando o menu.
    Ele fala como se a gente fosse íntima amiga dele ou da empresa. Pior, utiliza
    o TU. Então me chama de TU. Não sabe que não sou uma guriazinha, mas
    uma senhora de mais de 60 anos. A mensagem é IRRITANTE!!
    Deve ser por isso que as vezes alguém me diz : mas você fala bem português!!!
    hahahahaha

  3. Aprendemos na escola o “eu, TU, ele, nós, vós, eles” e não “eu, VOCÊ, ele, nós,vós, eles”, portanto não vejo problema nem um em usar o “TU”, além disso é da tradição gaúcha usar esse pronome, e ao contrario do que a senhora Eunice pensa, o pronome “TU” não designa uma pessoa jovem ou velha.

    1. Você tem razão, Marcos Klein, quando diz que na escola aprendemos que os pronomes são “eu, tu, ele, nós, vós, eles”. Tem razão, mas o “você” também existe. Para alguns é pronome de tratamento; para outros, pronome reto. Além disso, o tu faz parte da tradição gaúcha, mas não é uma exclusividade dos gaúchos. Já andei muito por esse Brasil e constatei que o “tu” é muito usado também no Norte e Nordeste do País. E principalmente na Bahia. Moradores das favelas cariocas dizem “eu falei pra tu”. O desconforto que seu uso me causa tem a ver com o erro que se comete na conjugação verbal, o que ocorre tanto no Rio Grande do Sul quanto nas outras regiões do País. Quando alguém diz “tu foi” ou “tu se viu” deveria dizer “tu foste” e “tu te viste”. Os gaúchos da campanha que conheço – aqueles que praticam a tradição – falam assim. Mas a linguagem que usamos quando nos comunicamos não é algo estanque. Se fosse, estaríamos falando latim, do qual deriva o português e que tem influência também na estrutura do alemão. No andar da carroça, pode chegar o dia em que “tu foi” e “tu se viu” deixe de ser considerado um erro gramatical. Até lá, prefiro o “você” e, sinceramente, não penso que isso me faz menos gaúcha. Mas concordo com você também quando diz que “o pronome TU não designa uma pessoa jovem ou velha”.

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