Scorsese realiza sua obsessão

Uma série de grandes obras. Entre eles, Taxi Driver, Touro Indomável, Os Bons Companheiros e Os Infiltrados. Agora, o diretor Martin Scorsese apresenta Hugo, em que o protagonista é um menino com 10 anos de idade. A diferença em relação aos trabalhos anteriores do cineasta é que este é o seu primeiro em 3D. Foi bem recebido em Veneza, ganhou o prêmio de melhor filme de 2011 da National Board of Rewiew e deve estrear no Brasil em fevereiro.

Em conversa com o jornalista Lorenzo Soria para o jornal italiano La Stampa, o diretor afirma que não vê nada de estranho no fato de trabalhar com esse recurso. Para ele, o 3D, que virou moda nos últimos anos, não é algo realmente novo. Ele próprio, segundo conta, fez um esboço dessa tecnologia nos anos cinquenta do século vinte, quando era um garoto asmático de 10 anos que não podia brincar com os amigos e só tinha um passatempo: ver cinema.

Há quatro anos, recebeu um empurrão que o levou de volta ao passado, onde reencontrou seu próprio ensadio da tecnologia 3D. Alguém lhe deu o livro intitulado A Invenção de Hugo Cabret, ilustrado por Brian Selznick. Scorsese conta que ficou absolutamente fascinado pelas imagens e pela história. Então, impulsionado por sua filha caçula, Francesca, que tem 12 anos, decidiu que havia chegado o seu momento de trabalhar com a tridimensionalidade.

P – Como é o 3D segundo Scorsese?
Martin Scorsese – Minha primeira lembrança me leva de volta aos anos 1950. Ora as imagens não eram bem sincronizadas, ora a exibição se interrompia. Já naquela época eu via o cinema como qualquer coisa mágica e comecei a fazer experiências para ver as imagens com a profundidade com que as vemos na realidade, acrescentando qualquer coisa ainda mais extraordinária aos filmes. Desde então o 3D tem sido minha obsessão.

P – Mudou seu modo de trabalhar?
Scorsese – A indústria cinematográfica tridimensional redefiniu o cinema e tudo tem sido um pouco surpreendente. Obriga-nos a um novo aprendizado sobre como posicionar os atores, sobre usar a linguagem corporal deles, sobre como explorar o novo conceito de intimidade. Além disso, não há regras. Os rostos das crianças produzem efeitos extraordinários, mas devo dizer que até Sasha Baron Cohen funciona bem.

P – Está querendo dizer que já não existem história ou gêneros impróprios para o 3D?
Scorsese – Quando surgiu o filme sonoro em 1927 houve grande resistência. A mesma coisa aconteceu por causa da cor uma dezena de anos depois. Pensava-se que era um recurso bom para o western e para os musicais, mas não para os dramas. Para onde vamos não sei, mas cada nova tecnologia gera resistência. Mudam os recursos e o que  que fica, no final das contas, é o que contamos, a história e seus personagens.

P – Em Hugo, que cresce solitário e se confronta com a magia do cinema, o senhor se reencontra como criança?
Scorsese – Eu não era triste, mas também cresci totalmente solitário, isolado dos demais. Não podia correr ou andar pelos parques com meus amigos, e meus pais me levavam muito às salas de cinema. Quando voltava para casa tratava de fazer meus próprios filmes, na minha cabeça.

P – Através de sua Film Foundation o senhor se dedica, há décadas, à preservação do cinema. E quanto a seus próprios filmes?

 Scorsese – Há 40 anos cuido da preservação dos trabalhos de diretores e de atores que correm o risco de desaparecer para sempre. É uma verdadeira luta contra o tempo. Quanto ao meu trabalho não sei se será preservado. A única certeza que tenho é a de que não há modo de sabê-lo.

P – Não lhe vem, de vez em quando, o desejo de fazer um filme que trate de temas atuais?
Scorsese – Um filme como Ladrões de Bicicletas têm uma pureza de imagens e um realismo extraordinário. Com Mani sulla città (Mãos sujas sobre a cidade), Francesco Rosi tratou de problemas que acreditávemos que desapareceriam, mas que ainda estão todos aí. Admiro os filmes que dizem quem somos, mas não penso fazer um sobre algo que aconteceu há dois anos e que todo mundo sabe como terminou. Há tantos diretores  que já fazem isso, e muito bem. Mas não me vejo entre eles.

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