Mi Buenos Aires querido.  A cidade merece essa declaração de amor e também os versos de Horácio Ferrer que Astor Piazzolla transformou em tango, o Prelúdio para el año 3001. Quando vi e ouvi Amelita Baltar interpretando a canção no Salão de Atos da Reitoria da Ufrgs, na década de 1970, até os pelos de minha alma se arrepiaram.

Nesta segunda-feira volto a Buenos Aires. Pela terceira vez em seis meses. Preciso aquietar a saudade que meus pés e meus olhos sentem das alamedas, das cascatas, dos fios de água, das flores, do verde e das pontes do Jardim Japonês. Mas também quero voltar ao charmoso Café Tortoni, onde gosto de saborear uma fatia de torta em absoluto silêncio, enquanto senhoras e senhores tagarelam discretamente em volta e, seguramente, compreenderiam se lhes falasse de minha paixão por outro tango do repertório de Piazzolla, a Balada para un Loco.

Quero outros (re)cantos de Buenos Aires. E quero conhecer aqueles que ainda não visitei. Mas Calle Florida está no roteiro, claro. Ferida pelas dificuldades econômicas que a Argentina enfrenta de alguns anos para cá, essa que já foi passarela dos bem-nascidos, que ali compravam roupas e calçados de grife, hoje assume ares de Voluntários da Pátria quando o turista, agarrado pelo braço, é a cada passo convidado a gastar seu dinheiro em alguma loja. Em setembro, a caminho da Galeria Pacífico com minha sobrinha, fomos abordadas por um jovem que nos ofereceu uma série de produtos. O rapaz era realmente muito insistente, mas acabou nos surpreendendo com uma demonstração de bom humor quando, diante de nossa indiferença, me fez esta pergunta: “Sua filha não quer, pelo menos, um namorado”?

Brincadeira à parte, a previsão é de muito calor em Buenos Aires nos próximos dias. Algo acima de 30 graus. Além disso, a recomendação é de que o cuidado com a bolsa deve ser redobrado. Já era uma recomendação que se ouvia em junho, agosto e setembro na recepção dos hoteis, mas parece que as mãos bandidas estão mais ligeiras agora em janeiro, quando o número de turistas também é maior e tudo e todos se misturam na Florida.

Muito diferente do que se vê por aqui? Que nada! A mente sacana se manifesta até na espera por um taxi em Porto Alegre. Neste domingo, depois de fazer minhas compras no supermercado que funciona no Shopping Total, tive mais uma demonstração de como algumas pessoas não sentem o menor pudor em desrespeitar um mínimo de organização: na minha frente, quando entrei na fila, havia uma adolescente e um jovem senhor. Ele, vendo que um taxi descarregava um passageiro na outra entrada do shopping, correu até lá. Quis dar uma de esperto, mas acabou punido, porque o motorista não foi conivente. Resumo da história: perdeu o lugar na fila e, quando fui embora, o apressadinho continuava lá, com ar de espantado e uma sacola em cada mão. Será que aprendeu a lição?

Em Buenos Aires, o ligeirinho também encontra quem não é conivente. Infelizmente, porém, a ajuda sempre chega tarde demais, quando a carteira já está na terceira ou quarta mão, irrecuperável, porque o surrupio é feito em grupo. É um trabalho de equipe. Pena que isso esteja acontecendo nesta linda cidade, tão bem reverenciada nos versos compostos por Ferrer, musicados por Piazzolla e cantados por Amelita. Grande cantora! Mas quando perguntei por ela em setembro, lá mesmo, em Buenos Aires, ninguém soube me dar notícias dela. Em homenagem a ela deixo aqui a letra da música com que me emocionou no Salão de Atos da Ufrgs e em outros momentos da minha vida.

Prelúdio para el año 3001

Renaceré em Buenos Aires em otra tarde de Junio,

com estas ganas tremendas de querer y de vivir.

Renaceré fatalmente, será el año três mil e uno

y habrá um domingo de otoño por la plaza San Martin

Le ladrarán a mi sombra los perritos vagabundos,

con mi modesto equipaje llegaré del Más Allá,

y arrodllado en mi Río de la Plata lindo y sucio,

me amasaré otro incansable corazón de barro y sal.

Y vendrán tres lustrabotas, tres payasos y tres brujos,

mis inmortales compinches gritándome “¡Fuerza, che,

nacé, nacé, dale pibe, metéle hermano, que es duro,

pero muy bueno el oficio de morir y renacer!”

Renaceré, renaceré, renaceré,

y una gran voz extraterrestre me dará

la fuerza antigua y dolorosa de la Fe,

para volver, para creer, para luchar.

Tendré un clavel de otro planeta en el ojal,

porque si nadie ha renacido, ¡yo podré!

Mi Buenos Aires siglo treinta y uno, ya verás:

renaceré, renaceré, ¡renaceré!

Renaceré de las cosas que he querido mucho, mucho,

cuando los dioses digan bajito “Volvió…”

Yo besaré la memoria de tus ojos taciturnos,

para seguirte el poema que a medio hacer me quedó.

Renaceré de las frutas de un mercado con laburo,

y de la mugre serena de un romántico café,

de un sideral subterráneo Plaza de Mayo a Saturno

y de una bronca de obreros por el sur renaceré.

Pero verás que renazco en el año tres mil uno,

y con muchachos y chicas que no han sido y que serán,

bendeciremos la tierra, tierra nuestra, y te lo juro

que a Buenos Aires de nuevo nos pondremos a fundar.

Renaceré, renaceré, renaceré,

y una gran voz extraterrestre me dará

la fuerza antigua y dolorosa de la Fe,

para volver, para crecer, para luchar.

Traeré un clavel de otro planeta en el ojal,

porque si nadie ha renacido ¡yo podré!

Ciudad del siglo treinta y uno, ya verás:

renaceré, renaceré, ¡renaceré!

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