Perguntar é fundamental para criar

Quando foi ao encontro de Sam Shepard, na primeira metade de 2011, a repórter Barbara Celis estava ansiosa. Afinal, como disse ao publicar o resultado da conversa no jornal El País, da Espanha, ele impõe respeito.  Primeiro, porque Shepard, nascido em Fort Sheridan (Illinois – USA), no dia 5 de novembro de 1943, nunca escondeu que não gosta de falar para jornalistas. Segundo, porque ele também é o dramaturgo vivo mais importante dos Estados Unidos. Prêmio Pulitzer de teatro aos 36 anos de idade, pela peça Buried child, acumula 40 obras de teatro em sua bibliografia, junto com vários livros de contos, memórias e ensaios.

Sam Shepard brilha, há décadas, como diretor de teatro e cinema, como roteirista (Paris, Texas) e provou seu talento também como ator em filmes como Os Eleitos, pelo qual foi candidato ao Oscar, e Cinzas no Paraíso, seu primeiro papel no cinema, que, lamenta agora, o colocou no mapa das estrelas de Hollywood. Há dois anos, aceitou encarnar Butch Cassidy foragido e vivendo escondido na Bolívia, no western Blackthorn. O filme tem direção de Mateo Gil. O roteiro é de Miguel Barros.

Barbara Celis conta que, criado nas amplas planícies do Oeste norte-americano, onde se forjou o mito do cowboy solitário, aos 67 anos “Sam Shepard ainda transmite esse magnetismo que seduz artistas extraordinárias como Patti Smith, ou Jessica Lange, sua parceira há três décadas” – o fim do casamento foi anunciado no dia 19 de dezembro de 2011. A entrevista foi realizada no restaurante de um hotel novaiorquino, onde o diretor/escritor/ator recebeu a repórter com um sorriso e lhe estendeu a mão “com afabilidade”. O pretexto era Blackthorn, mas a conversa fluiu por outros temas. Livremente.

PO senhor é essencialmente escritor, não aceita muitos papeis como ator. Por que aceitou Blackthorn?

Sam Shepard – Porque é um dos melhores roteiros que li em muito tempo. Está muito bem estruturado. Além disso, é um western, gênero fabuloso que sinto muito próximo de mim porque me criei com ele. Além disso, Cassidy é um personagem mítico em que se mesclam a lenda e a realidade. A ideia de que não teria morrido, de que estaria vivo e escondido numa vila boliviana e de que, no final de sua vida, sentira a necessidade de se reconectar com a única pessoa que o unia ao passado, o filho que provavelmente teve com a noiva de Sundance Kid, tudo isso me pareceu muito poético.

PComo foi para o senhor, que já dirigiu tantos atores, aceitar as ordens de um realizador como Mateo Gil?

Shepard – Tive alguns conflitos com Mateo, porque sua visão do roteiro era muito intelectual e concedia muita liberdade aos intérpretes. Em alguém que começa entendo o pânico decorrente da preocupação com o orçamento, pelas restrições e dificuldades de uma rodagem muito dura. Mas ele acabou fazendo um trabalho fantástico, ainda que às vezes houvesse tensões.

PSabemos que dá muita importância à música em sua obra e em Blackthorn, inclusive, interpreta três temas. Gostou de ser músico?

Shepard – Sou um músico (risos). Sei cantar e tocar, ainda que não seja conhecido como músico.  Gosto de tocar com amigos e neste verão vou gravar algumas canções com Patti Smith, que me convidou a participar de um disco que está preparando de velhos clássicos americanos. Invejo muito os músicos pela camaradagem que há entre eles. Compartilham uma linguagem própria e essa sensação é incrível.

PEm seu livro de memórias Crônicas de Motel conta como foi demitido de um local onde trabalhava como camareiro porque estava deslumbrado ouvindo Nina Simone.

Shepard – Sim, foi nos anos sessenta, no Village Gate. Ali também se apresentava Thelonious Monk (considerado gênio do jazz), e Woody Allen fazia monólogos. Foi uma época muito interessante de Nova Iorque, com muito intercâmbio entre artistas. Isso não acontece mais e não acredito que a culpa seja da tecnologia. Fala-se muito que a internet e o telefone celular nos aproximaram, mas é uma bobagem. Hoje as pessoas estão muito mais isoladas, sozinhas. Nos cafés ninguém se fala nem se olha. Estão todos com os olhos presos nas telas da televisão.

P A solidão é um tema recorrente em sua obra. Por quê?

Shepard – Porque é a experiência central da vida moderna. Todos nós lutamos contra a solidão. Há quem consegue enganá-la buscando a segurança de uma família, outros se rodeiam de gente, de estranhos. Eu escrevo, porque escrever é uma companhia constante. Levo meus cadernos a toda parte. Quando escrevo não me sinto só. Aliás, necessito da solidão para escrever. Então ela é um conflito e uma solução ao mesmo tempo.

PSuponho que há muita busca nisso.

Shepard – Sem busca não há criação. Quando alguém sente que encontrou todas as respostas é porque tudo acabou, já não há motivo para criar. Isso acontece em todas as artes. O interessante é que as perguntas continuem martelando nossa cabeça, ou por não termos as respostas ou por surgirem sempre novas indagações.

P– O senhor também escreveu muito sobre o amor entre pais e filhos. Com seu pai, alcoólatra, sua relação foi conflitiva e o senhor mesmo tem tido problemas com a bebida. Esse fantasma o persegue?

Shepard – Claro. Meu pai morreu embriagado, dirigindo um carro, quando tinha a minha idade. Eu ainda pretendo viver por alguns anos mais.

PEm uma de suas obras, Ages of the moon, dois homens adultos conversam sobre arrependimentos. É algo que chega com a idade?

Shepard – Bob Dylan disse certa vez que não se arrepende de nada, mas me custa acreditar nisso. Arrepender-se é fundamental para que não repitamos os erros. O problema é que a idade não nos faz, necessariamente, mais sábio. O potencial está aí, mas ….

PO senhor vive em um rancho, em Kentucky, longe das lentes dos fotógrafos. Foge da fama?

Shepard – Nunca quis ser uma celebridade, um astro do cinema, porque nesta situação você perde a privacidade morre. Sou um escritor, necessito de privacidade. Não sou um astro de Hollywood. Talvez eles possam suportar a constante exposição. Eu não.

PExiste vazio atrás do êxito?

Shepard – Há um vazio atrás de praticamente tudo e esta é uma razão para que muitos artistas famosos caiam na armadilha das drogas. É uma situação trágica. Ter êxito no cinema não significa ter êxito na vida. Está claro que se trabalha para um público. O que fazemos está em relação com os outros.  Não escrevemos ou atuamos em um armário. Mas o desejável é que não nos convertamos na vítima dessa relação. E isso não é fácil.

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