Paul resgata as canções de sua infância

Quando Paul McCartney era criança, seu pai costumava tocar de jazz no piano de sua casa. Eram velhas canções que o filho nunca esqueceu. Agora ele as passa adiante em seu novo CD, Kisses on the Bottom (Concordia/Universal). É décimo quinto dos álbuns que gravou em estúdio e vai ser lançado no dia 3 de fevereiro, mas já pode ser ouvido na internet.

Uma conversa sobre o jazz nas raízes dos Beatles  

Pedir um espaço na agenda de Sir Paul McCartney é como pedir uma audiência ao papa. As regras são rígidas. O tempo concedido ao repórter é muito curto e ele tem que se ater ao assunto do momento, o álbum que chega ao mercado fonográfico em fevereiro. Se o repórter fugir desse tema, para saber algo mais sobre os Beatles, Yoko Ono, John Lennon ou Heather Mills, será imediatamente convidado a encerrar a entrevista.

Além do controle sobre a conversa, a assessoria de do artista imprensa também pede que o jornalista não leve ao encontro nenhum objeto para ser autografado por Sir Paul, porque isso ele não faz mais aos 69 anos de idade, pelo menos não oficialmente. Para que nada saia dos trilhos, duas pessoas ficam de olho durante a entrevista: uma delas, um homem, tem cabelos grisalhos que chegam aos ombros, seu olhar é feroz e passa a impressão de conhecer Paul desde o jardim de infância em Liverpool; a outra é uma jovem senhora que finge trabalhar num laptop.

Ninguém estranha ou se queixa. “É sempre assim quando a entrevista é com um Beatle”. O repórter do jornal alemão Zeit ouviu isso de um funcionário do hotel em que Paul o recebeu. A conversa foi agradável, mas dentro das regras combinadas. O jornalista tratou Sir Paul como “senhor” e foi tratado por ele da mesma maneira. Também isso ninguém estranha no velho continente, onde o fato de alguém ser artista não o condena a ser íntimo de quem vai ouvi-lo.      

DIE ZEIT: Senhor McCartney, o senhor acaba de gravar um álbum reunindo as canções de jazz que seu pai cantava e tocava em festas familiares. Como transcorriam essas festas na casa dos McCartney?

Paul McCartney – A maior parte das vezes meu pai tocava piano e cantava no quarto. O ponto alto dos concertos em casa acontecia tradicionalmente na virada do ano, quando o tapete era enrolado e todas as mulheres sentavam em volta de meu pai, tomando suco de groselha preta e, depois de uma meia hora, todos cantavam juntos.

ZEITQuantos McCartneys se reuniam nessas festas?

McCartney – No mínimo uns 100. Todos os tios, tias, primos e primas se encontravam na nossa casa. Imagina como soava maravilhoso quando todos cantavam. E isso eles faziam.

ZEIT: O senhor via canções como It’s Only a Paper Moon ou Bye Bye Blackbird como música de seus pais ou como sua própria música pop?

McCartney – Boa pergunta. Era, acima de tudo, a música pop de meus pais. Mas com elas vieram, também, as primeiras canções Rock-’n’-Roll, que então ouvia no rádio, canções de Fats Domino ou Little Richard. Eram diferentes, de alguma forma nova e excitante. Mas o senhor quer saber de uma coisa? A música velha me agradava mais. Já como adolescente eu entendia a forma extraordinariamente brilhante como tinham sido escritas. Formaram a base de uma era musical grandiosa e compreendi isso muito rapidamente.

ZEITO senhor fala exclusivamente da música norte-americana.

McCartney – Naturalmente, a melhor música dos Estados Unidos naquela época. Penso em compositores como George Gershwin, Cole Porter ou Harold Arlen. Também os filmes norte-americanos eram de primeira classe. Em Los Angeles, Chicago e New York foram construídos os padrões culturais para o mundo todo. Estou justamente lendo um livro sobre George Gershwin e nele está escrito que naquela época quase toda família nos Estados Unidos tinha um piano em casa, não interessa se era mais ou menos pobre. Então não pode nos surpreender que uma sociedade desse tipo tenha revelado mestres como Gershwin. O senhor já viu o filme The Artist? É um filme muito inteligente, que resgata a riqueza cultural dessa época.

ZEITMas também era um tempo politicamente tenso. Estamos falando sobre canções criadas nos anos vinte e trinta do século passado.

McCartney – Crise econômica, clima de guerra – politicamente a época não era boa. Mas a cultura florescia, porque a música ajudava as pessoas a suportarem essa opressão. Os McCartneys de Liverpool também passaram por grandes dificuldades, mas na minha família nunca houve queixas. O clima era sempre otimista. Nosso ânimo era: “Hei! Tudo vai ficar bem!” Aprendi desde criança: não interessa quão difícil a situação pareça, duas coisas sempre ajudam – música e bom humor. Isso vale para mim até hoje.

ZEITPor algum tempo, seu pai até teve uma banda própria: Jim Mac’s Jazz Band. Lembra-se disso?

McCartney – Infelizemente nem um pouco. Isso foi antes de nascer, no fim dos anos vinte, quando meu pai ainda era, ele mesmo, um jovem. Depois de meu nascimento, meu pai só tocava piano em casa.Quase sempre sozinho, mas algumas vezes com seu bom amigo Freddy River. Eu amava esses momentos, quando os dois tocavam. Então ficava deitado sobre o tapete ouvindo e inalando as harmonias e as estruturas dessas canções.

ZEIT- É verdade que o piano de sua família foi comprado na loja de música Epstein, que pertencia à família de Brian Epstein, mais tarde empresário dos Beatles?

McCartney – O senhor tem razão.Um fato inacreditável. No final das contas tenho a agradecer a esse piano o estímulo que me deu para compor músicas.

ZEIT – Onde o senhor aprendeu mais sobre música, na escola ou em casa, com seu pai?

McCartney – Na escola aprendi absolutamente nada sobre música. O ensino da música no meu tempo de escola era uma piada ruim.Imagina uma classe de 30 alunos e um professor de música que começava a aula colocando um disco de Beethoven a tocar e deixando a sala para fumar um cigarro sem ser perturbado.Mal a porta se fechava, nós parávamos o toca-discos. O que esses pedagogos tinham na cabeça? Não se pode deixar 30 adolescentes irriquietos sozinhos em uma sala de aula com música clássica. Fazíamos a maior zoeira ao longo de toda uma hora e quando estava na hora de o professor voltar religávamos o toca-discos, tomando o cuidado de colocar a agulha na última faixa para fazer conta que tínhamos ouvido toda a obra muito concentrados. O que poderia aprender desse jeito?

ZEIT-  Onde mais aprendeu sobre música?

McCartney – Fui praticamente um autodidata e aprendi muito enquanto simplesmente ouvia meu pai e discos. Com minha primeira guitarra tentei recriar o que havia armazenado.

ZEIT- Seu primeiro instrumento não foi um trompete que seu pai lhe deu de presente?

McCartney – É verdade, mas só toquei trompete durante um ano.Meu problema com esse instrumento era que não podia cantar enquanto tocava. Portanto, levei o trompete de volta à loja e troquei-o por uma guitarra acúsitca Zenith, que ainda tenho.

ZEIT – John Lennon tinha a mesma familiaridade que o senhor com o jazz?

McCartney – Ele não conhecia tantas canções quanto eu, mas algumas também levava no coração.John sempre teve essa imagem de seu um cara totalmente roqueiro, que não se podia associar com velhas e sentimentais canções de jazz. Mas isso é um erro. Muitas pessoas não imaginam que John Lennon amava muito as canções doces  Por exemplo, Little White Lies ( Da da da da … you told me these little white lies!). Essa era uma das músicas preferidas dele. Ou Close Your Eyes(Close your eyes, put your head on my shoulder and sleep!). O fato de ambos gostarmos muito desse tipo de música nos manteve juntos também na composição de nossas canções. O conhecimento dessas músicas foi  a base para as canções dos Beatles..

ZEIT-  Sentados um ao lado do outro se peguntavam quem conhecia quais músicas?

McCartney – Era exatamente assim que acontecia. Eu dizia: conhece esta? E John respondia: Oh sim, e gosto muito dela.

ZEIT – Para seu novo álbum, o senhor compôs algumas canções no espírito dos standards de jazz. Compor fica mais fácil ou difícil com a idade?

McCartney: Depende. Eu diria que, na verdade, isso mudou pouco para mim. Há casos problemáticos, mas também há um tipo de canção que se escreve praticamente sozinha. Valentine, do novo álbum, é uma delas. Eu a escrevi enquanto estava em férias. Para ser mais exato, estava no no lobby de um hotel. No foyer havia um piano solitário, era o meio da tarde, todos os hóspedes tinham ido embora e os funcionários estavam fazendo a limpeza.Sentei-me ao piano e comecei a tocar, como quem nada quer. Em mais ou menos meia hora estava com o texto e a melodia prontos.

ZEIT-  Perdão, mas Paul McCartney tocando piano sozinho no lobby de um hotel sem que isso provoque um ajuntamento de pessoas não dá para imaginar.

McCartney – Mas foi exatamente assim. Eu estava lá, sozinho, e não fui perturbado. Talvez tenha sido por causa do tempo. Lá fora chovia a cântaros e a maioria dos hóspedes tinha se retirado para seus quartos.Eu teria feito a mesma coisa se não tivesse sido assaltado pela vontade de tocar. Naturalmente, antes de me sentar ao piano olhei em volta para ver se havia muita gente circulando e quando vi que o lobby estava vazio confiei que poderia matar minha saudade. Como plateia tinha apenas uma atendente do bar e dois jovens marroquinos. Quando notei que a canção estava ficando boa, corri para o meu quarto, busquei minha câmera, deitei-a em cima do piano e me filmei tocando. Mais tarde, novamente no meu quarto, vi o filme, transcrevi as notas e estava com Valentine, uma canção que me agradou tanto que a aproveitei para o meu álbum.

ZEITSempre é assim tão fácil?

McCartney – Não, músicas simples e músicas que exigem muito esforço se alternam. No momento, estou trabalhando em uma canção que ainda não domino totalmente. A Maior parte está pronta, mas ainda há detalhes que me preocupam. Sei que vou resolvê-los de alguma forma, mas é verdadeiramente um trabalho.

ZEIT- No tempo em que, como adolescente, ouvia jazz, a música era muito mais valorizada que hoje. Ela perde valor quando soa em qualquer parte, em todos os celulares, em cada café?

McCartney – Enquanto crescia, só havia rádio e discos. Era fácil a gente se concentrar nos favoritos. Hoje tudo é superficial e ao mesmo tempo. Veja a internet: graças ao YouTube, poderiamos levar a vida clicando em e copiando clips. Hoje, realmente, a música está em toda parte, portanto não é mais tão importante. Até mesmo os jogos têm tem sua trilha sonora no computador.

ZEIT – O senhor joga no computador?

McCartney – Não costumo,até porque me falta tempo. Minha vida está sempre cheia de compromissos. Por isso, já me sinto feliz quando encontro tempo para gravar um novo CD.

ZEIT- Poderia se imaginar compondo canções para um jogo de computador?

McCartney – Na verdade, estou trabalhando em uma música para isso. É a que neste momento me dá trabalho. Fui perguntado se poderia imaginar algo assim e achei interessante. Afora isso, este é um mercado fascinante. Um novo jogo virtual se vende hoje em dia melhor que um novo CD e se atinge com ele uma comunidade totalmente maior e diferente. Provavelmente, dessa maneira, muitos jovens vão ouvir minha música num jogo de computador. E talvez seja para eles tão inspiradora quanto o jazz foi para mim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s