Não é difícil. As mulheres fazem isso o tempo todo. Com raras exceções, damos conta de várias tarefas ao mesmo tempo. Aliás, cada vez mais desde que aos cuidados com os filhos e com tudo que diz respeito à administração de uma casa somamos o que nos compete também no espaço que conquistamos no mercado de trabalho.

Agora, por exemplo, estou começando a escrever este texto – depois de ler o que o escritor britânico David Nicholls diz sobre as diferenças entre amizade e amor -, mas não perco de vista o que acontece na cozinha, onde a panela de pressão assobia amaciando o feijão que mais tarde vou armazenar no congelador; atenta também à máquina que lava a toalha e os guardanapos usados no almoço com duas amigas e ao noticiário na GloboNews, com Leilane Neubarth, de quem abomino o excesso de chiado com que polui sua fala. É tão intenso que às vezes tropeça nele.

Mas não é o tropeço dela na palavra que, neste momento, ameaça jogar meu bom humor para além dos limites da janela, onde o sabiá canta preparando o ninho para sua descendência na pitangueira. Meu súbito desalento responde à notícia que Leilane acaba de dar: na capital mineira, uma procuradora federal, 35 anos de idade, foi morta a facadas pelo ex-marido, contra quem já havia solicitado medida protetiva.

É a vida, diria meu amigo Ricardo, sempre pronto para terminar uma conversa que ainda nem começou quando se trata desse tipo de assunto. Mas ele está viajando e eu me ponho a fazer conjecturas que partem de fatos: os dois se encontraram um dia, se apaixonaram um pelo outro, se casaram – provavelmente jurando amor e apoio mútuo na dor e na alegria até que a morte os separasse – e tiveram filhos. Que fim levou o amor?

Perguntinha inútil. Quero dizer, inútil porque parte de mim, que desacredito totalmente deste sentimento tão alardeado para justificar e legitimar as loucuras que as pessoas andam cometendo pelos quatro cantos do planeta. Loucuras como o juramento no altar das igrejas, quando, olhos nos olhos e mãos nas mãos, ocorre um desmaio da consciência. É quando os casais esquecem que nada é estanque e definitivo, que no caminho do violeiro há encruzilhadas, há desvios… E que, embora a emoção tenha o poder de alterar o ritmo do coração, é o cérebro que muda a canção quando ganha funções e desliga outras. Então trai promessas, encontra motivos para perdoar traições, permanece indiferente e planeja vinganças quando não pode ter e dominar quem vê como objeto. 

Este é o calcanhar-de-aquiles que leva a crimes como o que na noite desta quarta-feira abalou os moradores de um bairro rico de Belo Horizonte, provando que esse tipo de ocorrência não é uma exclusividade dos analfabetos e dos materialmente pobres. É caso para psicólogo, psiquiatra e psicanalista? Penso que, na verdade, é caso para ser analisado no foco da antropologia, porque remete, assim como o estupro, ao cérebro do chimpanzé. Seguramente não ao do sabiá que canta no meu jardim enquanto prepara o ninho para seus filhotes.

O feijão já está pronto para ser armazenado. A toalha e os guardanapos secam na gangorra do vento e eu fiquei tergiversando. Claro, não totalmente, porque continuo dentro do tema que me levou a começar este comentário, ao qual fui induzida pela entrevista que o jornal alemão Die Zeit publicou nesta terça-feira com o escritor David Nicholls, autor do livro One Day (Editora Intrínseca), que virou filme dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig, com Anne Hathaway e Jim Sturgess como protagonistas. Nessa conversa, que é muito interessante, ele fala sobre as diferenças entre a amizade – inclusive nas redes sociais – e o amor, no qual também acredita. Tão interessante que resolvi traduzi-la e compartilhá-la com quem visita este espaço. Bom proveito!

A ficção não toca a verdadeira vida

ZEITmagazin: Senhor  Nicholls, o senhor ficou famoso através do seu best-seller  Um Dia, que gira em torno dessa pergunta: qual é a diferença entre amor e amizade? Suas personagens principais, Emma e Dexter, mantém um relacionamento de vinte anos, encontrando-se uma vez por ano e sempre no mesmo dia, parecem não capazes de responder à pergunta. Como vê isso?

David Nicholls – Para mim, o amor e a amizade andam de mãos dadas. A amizade significa compreensão mútua, apoio, ter o mesmo tipo de humor, gostar de passar o tempo na companhia da outra pessoa. Isso não tem, obrigatoriamente, a ver com harmonia – minhas personagens Emma e Dexter também pertencem à comédia romântica tradicional e nem sempre estão de acordo sobre os assuntos. Como Beatrice e Benedikt, da dramaturgia shakespeariana, armam muito barulho por nada. O conflito é parte do entendimento que há entre eles, sua força de atração, a base de sua amizade e do seu amor. Há essa fantasia de que dois enamorados são duas metades que se encaixam harmoniosamente e que é preciso encontrar essa metade perfeita.

ZEITmagazinEssa é a ideia de Platão sobre o amor…

Nicholls: …que tomo como bobagem, sem sentido. E, naturalmente, as categorias da ficção não tocam a verdadeira vida.

ZEITmagazinApesar disso o senhor aprendeu algo sobre a amizade e o amor quando se ocupou de Emma e Dexter?

Nicholls – Ficou clara para mim, principalmente, a idiotice dos relacionamentos que tive aos vinte anos de idade. Minhas namoradas e eu não tínhamos qualquer interesse em comum. Com minha parceira atual, a mãe de meus filhos, a convivência caminha de forma completamente diferente. Hannah e eu não brigamos como Emma e Dexter; não temos opiniões diferentes sobre política, amamos os mesmos filmes e a mesma música.

ZEITmagazin O senhor poderia conviver com uma mulher que tivesse gostos diferentes dos seus, que, por exemplo, não se interessasse por literatura?

Nicholls – Ou que fosse da direita política? Acho isso difícil. Essas coisas desempenham um papel muito grande na minha vida. Não conheço alguém que não se interesse por elas. Mas também não saberia sobre o que poderia conversar com uma pessoa desse tipo. Hannah vem da classe média, eu venho da classe operária. Quando tínhamos vinte anos teríamos percebido isso de forma mais intensa, provavelmente, mas agora temos nossa própria vida. Podemos atravessar essa ponte.

ZEITmagazin  O senhor foi extremamente bem-sucedido com seu livro. Milhares de exemplares foram vendidos em 40 línguas e a história chegou ao cinema. Mas nem toda pessoa pode ser um grande artista, empresário, escritor. É difícil para o senhor imaginar esta situação: conviver com alguém que não é bom naquilo que faz, alguém que não nos enche de orgulho?

Nicholls – Já fui ator, um ator inacreditavelmente ruim. E não condenaria quem não quisesse ficar comigo naquele tempo. Esse trabalho, para o qual, definitivamente, não tinha qualquer talento, me trouxe muita infelicidade, insegurança e descrédito em mim mesmo.

ZEITmagazin – …e matéria-prima para seu livro Ewig Zweiter (Eternamente o segundo), no qual o senhor escreve sobre um ator coadjuvante e precisa esperar que  o ator principal seja atropelado por um ônibus ou seja vítima de alguma outra catástrofe, para que possa ter, finalmente, o seu grande momento de entrar em cena como protagonista. Uma situação com muito espaço para a comédia.

Nicholls – Infelizmente só no meu livro, não na vida real. Eu estava com uma pena enorme de mim mesmo, o que nada tem de atraente, e assim fiquei em todos esses anos durante os quais trabalhei como ator, quase sempre solteiro. Era incapaz de desenvolver uma paixão por algo ou alguém. Na época, muitos amigos me mostraram de maneiras diferentes que deveria encerrar minha carreira de ator.

ZEITmagazin – Conseguiu reconhecer essa atitude como uma demonstração de amizade?

Nicholls – Hoje posso reconhecer isso tranquilamente. Naquele tempo – pois é… Mas os meus amigos foram diplomáticos e honestos ao mesmo tempo. A gente precisa dessa espécie de lealdade quando se recebe esse tipo de pancada. Meus amigos realmente me salvaram e espero que tenha pago minha dívida com eles.

ZEITmagazin – A família era menos importante para o senhor?

Nicholls – Eu não tinha qualquer contato com a minha família.Meus pais achavam esse vacilo de interesse muito estranho, a vida deles tinha sido completamente definida pela família, não tinham amizades. Nesse ponto pertenço realmente a uma outra geração, sentia-me muito próximo de meus amigos, em meu tempo de estudante a amizade era a minha religião. Acredito  que isso tinha a ver com o ambiente da própria universidade – um lugar em que pessoas com as mesmas ideias se agrupam. A universidade mudou a minha vida.

ZEITmagazinAcredita que seus filhos terão outra maneira de tratar suas amizades?

Nicholls – Estou certo de que sim. Até acredito que o culto da amizade vai continuar, mas através da rede social também surgiu algo de novo, uma amizade superficial e técnica. Acho que precisamos de um novo nome para esse tipo de amizade.

ZEITmagazin O senhor está no Facebook?

Nicholls – Atualmente só uso o Facebook para conseguir patrocínios e divulgar meus livros junto aos leitores. Além disso, no verão passado me retirei totalmente da rede social. Para mim, isso foi uma libertação. Gente, que eu nunca tinha encontrado, me mandavam notícias; eu estava ocupado com isso, olhar fotos de pessoas em férias, pessoas que nem mesmo conhecia. Quando isso passou, achei extremamente renovador concentrar-me novamente nas pessoas que conheço pessoalmente.

ZEITmagazin – O senhor gostaria que Facebook e Twitter saíssem da moda?

Nicholls – Não sou ingênuo, mas acho que podemos esperar por isso. É como acontece com cartas e e-mails, ainda espero a resposta a uma carta. Uma carta demanda tão mais interesse, tempo e dedicação por parte de quem a escreve e envia, tanto mais pensamento voltado ao destinatário. Também acho que soaria falso dar pêsames através de um e-mail – mas spou suficientemente realista para saber que um e-mail de condolências certamente não parecerá estranho dentro de dez anos.

ZEITmagazin – Mas as redes sociais também possibilitam que se reencontre velhos amigos.

Nicholls – Certo. Hoje em dia é muito fácil retomar uma amizade – e quase sempre é um grande erro. Antigamente, a gente precisava fazer um grande esforço para que isso acontecesse e isso a gente só fazia por pessoas que realmente o merecem.Reencontrei alguns velhos amigos de uns dez anos atrás no Facebook e foi uma decepção colossal constatar que aquilo que havia nos unidosnão existia mais.em pelo menos um dos casos.Todos foram decepcionantes. Todos esses contatos com colegas de escola só nos lembram de que o tempo passou e que caminhamos com ele, cada um na sua própria direção.

ZEITmagazin – O senhor não lamenta ter perdido alguns amigos de vista?

Nicholls – Claro que lamento. Sou nostálgico em relação a algumas pessoas que não estão mais no meu círculo de convivência social, mas em reelação a outras também está tudo em ordem. De qualquer maneira, quando a gente funda uma família, como fiz, algumas amizades fatalmente sofrem. Um exemplo disso são as pessoas com quem dividi moradia. Dessas pessoas sinto muita falta – nos encontramos raramente. E existe um amigo em relação ao qual me arrependo muito de que não tenhamos nos visto mais. Ele morreu quando estava escrevendo One Day.

ZEITmagazin – Que amigo era esse, cujo destino lhe dá sentimentos de culpa ainda hoje?

Nicholls – Sempre pensei nele com admiração, era realmente o cara mais inteligente entre os que conhecia. Tenho a consciência pesada, porque não conseguia ver que ele estava vivendo em dificuldades, passando mal…

ZEITmagazin – Alguma coisa mudou no seu círculo de amigos depois da morte dele? O senhor fez mudanças na sua rede de amigos, fez novas escolhas, quem era importante e quem não era?

Nicholls – Para falar a verdade, não. Isso, porque não via esse amigo há muito tempo. Mas o acontecimento diminuiu a distância entre alguns amigos do meu grupo.

ZEITmagazin – Ao longo da vida, amigos se afastam e se aproximam. E com o amor, o que acontece? Pode ser bonito quando enamorados se transformam em amigos, mas a perda da paixão pode ser muito dolorosa.

Nicholls – Vejo isso de outra maneira. Acredito que não se pode estar em um relacionamento amoroso quando não há espaço nele para complicações. Assim como deve haver amor em uma relação de amizade, mas aqui não me refiro ao amor sexual. Nos meus últimos relacionamentos, em todo caso, a imagem entre a amizade e o amor perdeu nitidez. Hannah é minha parceira e a minha melhor amiga ao mesmo tempo. A amizade ocupa uma grande parte no nosso amor. E estou verdadeiramente contente que o conturbado início da relação tenha acabado, tudo aquilo do que trato em meu primeiro livro: paixão e gente. que se reencontram num amor.

ZEITmagazin – O senhor está sinceramente feliz com o fato de não precisar mais suportar o estresse psicológico do apaixonamento?

Nicholls – A gente se transforma em idiota, porque tenta ser sua melhor versão. Faz 15 anos que me vi obrigado a agir dessa forma pela última vez. Isso aconteceu quando  conheci Hannah – agora estou tão feliz, porque não preciso mais ir a um encontro. Flertar – que assustador!

ZEITmagazin –  Para sua parceira é certamente muito tranquilizador o fato de o senhor não gostar de flertar.

Nicholls – Acredito que nenhum de nós foi realmente bom nisso.Naturalmente, é bonito quando vejo um amigo solteiro e observo como ele distribui sorrisos com que tenta seduzir. Confesso que o fato de não viver mais esse tipo de situação me entristece, mas não muito.

ZEITmagazin –  Qual é, na opinião do senhor, o maior mito sobre amor e amizade?

Nicholls – Que homens e mulheres não podem ser amigos. Os meus amigos mais próximos eram mulheres. Muitas delas se encontram novamente na minha personagem  Emma.

ZEITmagazin – Tem uma explicação para o fato de ser um amigo das mulheres?

Nicholls – Talvez seja esta: a imagem que faço de uma verdadeira infelicidade é estar em um pub na companhia de cinco homens vendo um jogo de futebol. Acho a conversa com homens frequentemente desagradável. E juro: a maioria das amizades com mulheres que já tive nada tinham a ver com atração mantida sob controle, não verbalizada. Essa coisa de Harry-e-Sally… não acredito nisso, nesmo achando que o filme é alegre e bom. O abismo entre os gêneros – masculino e feminino – não existe para mim. Essa é uma ideia superada, dos anos trinta do século passado.                                                         

ZEITmagazinO que é mais importante em sua opinião: a duração de uma amizade ou a sua intensidade?

Nicholls – Entre uma e outra, em primeiro lugar a duração.Antigamente, ficávamos fascinados por uma pessoa quando íamos a um party e notávamos: ela gosta dos mesmos livros, dos mesmos filmes. Conhecer um novo amigo era, naquela época, como se tivéssemos um encontro amoroso; era romântico, até mesmo em amizades platônicas. Conversávamos até a madrugada, querendo contar ao outro tudo sobre nós.Uma amizade desse tipo seria hoje, na minha idade, um transtorno. Não daria certo.

ZEITmagazin – Existe amor à primeira vista nas amizades?

Nicholls – Com toda a certeza. Eu tenho um melhor amigo desde os meus 19 anos de idade. Nos conhecemos a caminho de Stratford, onde queríamos à apresentação de uma peça de Shakespeare. Rimos muito durante a viagem. Ainda sei que dia da semana era. É como um dia de primeiro encontro em um relacionamento.

ZEITmagazin – Se ainda hoje ele é seu melhor amigo, então conseguiu dar o salto para um novo degrau da amizade. Qual a importância dos amigos que o senhot tem hoje?

Nicholls – Entre amigos de muito tempo há tantas coisas que não precisam ser ditas – nas melhores amizades longas há uma espécie de linguagem secreta. Uma longa amizade supera tanta coisa – fracassos profissionais, altos, baixos – é isso que a torna indestrutível. Essa é a beleza: tenho a consciência de que os amigos que hoje estão ao meu lado me acompanharão até a morte.

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