Manhã de domingo

O dia amanheceu serenamente aos pés do Morro do Diabo, no vale Paraíso. Lúcia saltou da cama quando ouviu a primeira badalada dos sinos da igreja chamando os fiéis para a missa de domingo. Pelo corredor da casa a mãe já havia deixado o rastro de seu perfume preferido – Quatro Rosas –, o gato Euclides se espreguiçava no parapeito da janela, os canteiros de rosas brilhavam na luz do sol e o café estava na mesa. Um quadro perfeito para nele demorar os olhos. Mas o pai pediu que se apressasse. Ela obedeceu.

 

– O mundo vai acabar em 1970, e os homens pagarão pelo mal que espalharam sobre a Terra. O primeiro sinal de que o fim está próximo será uma noite de 72 horas. Somente aqueles que estiverem dentro de suas casas, com suas famílias, serão salvos. Todos os outros serão levados pelos demônios, que invadirão a Terra em meio às labaredas de fogo, arrastando correntes.

Sentada na primeira fila de bancos da igrejinha gótica construída pelos primeiros moradores católicos do povoado, que até então tinha sido um reduto da maçonaria, Lúcia ouve as palavras de advertência do padre Aloísio. Assustada, ela calcula quantos anos terá quando tudo isso acontecer. Só 14? Não é justo. Afinal, a vida na vila em que os sotaques e os costumes dos descendentes de alemães, franceses e italianos convivem tão amigavelmente é muito boa. Onde mais poderia colher da árvore a fruta que tivesse vontade de saborear? Onde mais teria liberdade para percorrer as ruas pedalando sua bicicleta? Em que outro lugar do mundo poderia testar seu próprio equilíbrio em pernas de pau?  

Lúcia quer viver mais. Muito mais. O padre deve estar enganado, pensa. Outra possibilidade é que só queira intimidar os fiéis de seu rebanho, principalmente aqueles que vendem gato por lebre, segundo costuma dizer. Inquieta, faz um muxoxo para chamar a atenção da amiguinha ao lado, que não se move. Insiste. Quer uma cumplicidade contra os prognósticos proclamados desde o púlpito. Por isso, balança o corpo e cutuca a menina. Nenhuma reação.  Está dormindo. Então decide que vai perguntar à mãe, quando voltarem para casa, se algum dia ouviu alguém falando sobre essa história de o mundo terminar em 1970, com os demônios correndo em volta da casa.

Agora vê que o padre, com seus cabelos domados pela brilhantina, apanha um pedaço de giz e começa a desenhar na lousa. Rapidamente, pai, mãe e filhos vão surgindo no quadro. São os eleitos dele.

– Nesta comunidade, que chamamos Paraíso, são poucos os virtuosos. No meio de tanta gente, somente uma família já tem lugar garantido no céu. Todos os outros serão condenados às chamas do inferno, porque….

Lúcia olha para os próprios pés, metidos em sandálias, e logo em seguida seu olhar atravessa o corredor da igreja. No lado de lá, a bem-aventurada menina Altenwein tem seus pés protegidos por sapatos de couro com fita cor-de-rosa. Um dia, se o mundo não terminar em 1970, também terá os seus. Muitos. De todos os tipos. Alguns terão salto bem alto, combinando com roupas fluidas e finas, iguais às que tem visto na revista Cruzeiro, que sua irmã recebe em casa. Entre Marilyn Monroe, com seu vestido que dança tocado pelo vento, e Grace Kelly, quase etérea passeando pelos jardins do príncipe Rainier, em Mônaco, quem deve escolher? Talvez dependa do momento. Ou do lugar. Mais adiante, quando a chegar a hora, terá que decidir sobre isso.

No púlpito, o padre escolhe outro alvo, enquanto Lúcia conta as páginas que ainda faltam para que o sermão termine. Mais cinco. Que cansaço! Agora, dedo em riste, ele é enfático.

– Todos os comunistas da Terra estão condenados ao lugar mais profundo do inferno, esbraveja.

– Mas que gente tão ruim será essa, os comunistas? Não é igual àquele homem que aparece bem grande na página de um jornal que o pai guarda na biblioteca? Aquele com uma pomba sentada na cabeça. Está certo, os olhos dele têm um brilho estranho… Mas, pensando bem, os olhos de Eduardo são assim… Noturnos. Noites sem luar. Poços. As pombas que ele cria também sentariam no ombro de Picasso. Com toda a certeza.

– É um grande pintor espanhol e comunista, explicou o pai.

– Os comunistas são todos maus, garante agora o padre. Nenhum deles vai para o céu, acrescenta.

– Picasso vai ser levado pelo demônio? Lúcia se inquieta.

Alguns dias antes ela tinha ouvido, foi sem querer, uma conversa entre o pai e a mãe. Ele dizia que se tivesse estado na Europa no final da Segunda Guerra, certamente também teria virado comunista, mesmo a contragosto, quando os vencedores dividiram o que havia sobrado da Alemanha e aos russos coube uma parte de Berlim. Agora, depois de ouvir a condenação anunciada pelo padre, Lúcia passa o resto da missa tentando imaginar um jeito de livrar o pai do inferno. Quando ouve o Ite Missa Est dispara em direção à porta da igreja. Braços, pernas e cotovelos não conseguem segurá-la.

– Pai, isso que o padre falou sobre os comunistas, diz, agarrando a manga do casaco dele.

Ele não lhe dá atenção. Com a mão esquerda deslizando pelo suspensório, está concentrado na conversa com os amigos sobre o futuro, que prevê difícil para o Brasil depois da renúncia de Jânio Quadros e do golpe que tirou Jango da presidência do País há poucos dias.

De Jango também dizem que é comunista e quem manda no Brasil, agora, é o marechal Castelo Branco. Lúcia viu a foto dele no Correio do Povo e achou a cabeça dele bem chata. Quantas ideias cabem dentro dela? Elas têm espaço para respirar? Puxa o pai pela manga. Ele pede que espere. Será que o pai ouviu o sermão? Ou será que já se esqueceu das palavras do padre? Vai ver, nem achou importantes. Mas… e se o padre tiver razão? Então, quando morrer, o pai irá para o inferno e ela não o verá mais. Nunca mais. É tempo demais.

Aquele pintor com a pomba na cabeça parece tão feliz. E, pensando bem, a eternidade deve ser monótona no céu, onde os anjos fazem sempre as mesmas brincadeiras enquanto levitam em torno de Deus. Além disso, já lhe disseram que o paraíso em que mora é muito diferente daquele que fica além das estrelas. Ali não há parapeito para Euclides se espreguiçar ao sol, não há ruas que poderia percorrer de bicicleta e que andar em pernas de pau também seria impossível, porque elas furariam as nuvens…

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