Na Alemanha está aberto o tapete vermelho.É a edição 2012 da Berlinale, que, no final, entregará o Urso de Ouro aos melhores do cinema. Angelina Jolie está em Berlim.Desta vez não em busca de aplausos a seu desempenho como atriz. Em coletiva à imprensa, ela falou hoje de manhã sobre o seu trabalho como diretora – pela primeira vez – do filme In the Land of Blood and Honey (Na Terra do Sangue do Mel, em tradução livre). O filme está na programação especial deste sábado à noite.

In the Land of Blood and Honey nasceu do trabalho que Angelina – revelada ao mundo como paciente de uma instituição psiquiátrica em Garota Interrompida – faz há 11 anos como embaixadora da ONU – pedindo a ajuda do mundo às populações que vivem em zonas de guerra e em campos de refugiados. Em sua estreia como diretora, ela vai a Serajevo, em 1992, para mergulhar no sofrimento dos atingidos pelos conflitos étnicos e bélicos através da história de amor entre um sérvio e uma jovem muçulmana da Bósnia. Os atores são da região e falam em língua sérvio-croata.

A conversa com os jornalistas foi publicada pelo jornal Zeit Online. Angelina também fala sobre como vê Hollywood  e afirma que pretende continuar na temática em que faz sua estreia na direção. Achei interesante e resolvi traduzir para compartilhar. Boa leitura!  

ZEIT ONLINE: Por que a senhora escolheu a guerra nos Balcãs para tema de sua estreia como diretora de cinema?

Angelina Jolie: Quando esta guerra irrompeu, eu tinha 17 anos de idade e viajei muito animada pela Europa, sem saber o que acontecia a apenas duzentos quilômetros de onde estava. Eu era completamente ignorante. Como  adultos somos responsáveis pela nossa consciência do mundo, o que nos obriga a aprender com a História. Eu queria fazer um filme que se ocupa com a condição humana na guerra. Queria mostrar que todos os participantes, não interessa de qual lado combatem, possuem humanidade; queria mostrar o que acontece com essa humanidade quando as pessoas se encontram no meio de uma guerra. Isso se refere também à política intervencionista e como está sendo discutida na zona em crise no Oriente Médio. Quanto mais longa é uma guerra desse tipo, tanto maior é o abismo entre as partes envolvidas, mais profundas são as feridas e mais longo vai ser o processo de cura.

ZEIT ONLINE: Como pesquisou para produzir e dirigir este filme?

Jolie: Ao longo dos últimos dez anos, viajei por zonas de conflito e conversei muito com pessoas que sobreviveram e voltaram a essas regiões em que os próprios vizinhos viraram inimigos. Portanto, eu formei uma imagem muito clara do que acontece com as pessoas em situações desse tipo. Naturalmente, além disso também li muito sobre a guerra na Bósnia. Importantes também foram os atores, que contribuíram com suas próprias experiências. Todos foram atingidos, de forma ou de outra, por essa guerra.  As experiências deles influenciaram fortemente o projeto.

ZEIT ONLINE: Que importância teve para a senhora contar esta guerra através da perspectiva de uma mulher?

Jolie: Não me sentei para escrever o roteiro com a ideia fixa de fazer um filme pela perspectiva feminina. Mas o sistemático estupro de mulheres foi um significativo crime de guerra nestes conflitos – 50 mil segundo a ONU – e isso teria que ser mostrado de forma absolutamente clara.

ZEIT ONLINE: No papel de diretora, como a senhora lidou com a encenação desses atos de violência?

Jolie: Eu queria que os espectadores se sentissem mal diante dessas cenas. Acho que execuções em massa ou estupros não deveriam ser mostrados no cinema de forma gratuita, só devem ser usadas para emocionar o público. Ao mesmo tempo, a violência é muitas vezes mostrada apenas de forma indireta neste filme. A execução, no começo, acontece fora de cena e o espectador toma consciência dela através de outros indícios. Nas cenas de estupro não há corpos nus na tela. Mas em alguns poucos pontos tive que passar desse limite para mostrar o poder destruidor da violência de forma bem autêntica e verdadeira.

ZEIT ONLINE: No começo das filmagens na Bósnia houve problemas quanto à autorização. Como a senhora lidou com o ceticismo em relação a seu projeto?

Jolie: Posso compreender muito bem que as pessoas de lá tenham prevenção contra os estrangeiros que fazem uso de sua história. Finalmente, todo esse drama aconteceu há apenas 15 anos e nenhum filme pode mostrar todos os lados do conflito.

ZEIT ONLINE: Os atores sabiam, quando foram convidados, que trabalhariam em um filme dirigido por Angelina Jolie?

Jolie: Não, eles receberam os roteiros sem assinatura, de forma anônima. Não queria influenciar sua decisão e queria saber o que pensavam sinceramente sobre o script.

ZEIT ONLINE: O que, na sua opinião, um filme como esse pode provocar?

Jolie: Espero que o filme coloque em andamento um diálogo na região, mas também fora dela, em outras partes do mundo. Talvez alguém leia esta entrevista e se interesse por causa dela pela situação na Bósnia e decida viajar até lá.Talvez outros, através deste filme, tenham a ideia de trabalhar com atores e artistas da região.Tenho esperança de que ele abra os olhos do mundo sobre esta região, que independentemente desse filme sempre mereceu nossa atenção.

ZEIT ONLINE: A senhora trabalha, há 11 anos, como embaixadora da  ONU em favor de seres humanos refugiados Como esse trabalho mudou seu relacionamento com Hollywood?

Jolie: Quando a gente visita, pela primeira vez, uma zona de guerra, isso produz uma mudança enorme sobre a nossa vida.A gente se dá conta do quanto é egoísta e se pergunta: como pude, um dia que fosse, não estar satisfeita com minha vida? Vejo Hollywood e toda a indústria de entretenimento como aquilo que é: o lado fácil da vida e também é bom que seja. Nada disso é especialmente sério para mim. Hollywood não é o sentido da minha vida, mas algumas vezes é até bizarro o que constato: para as zonas de guerra viajo sozinha, sem seguranças; quando caminho sobre o tapete vermelho, vou acompanhada de guarda-costas.

ZEIT ONLINE: Vai continuar fiel aos temas políticos em seus novos trabalhos como diretora?

Jolie: Escrevei um roteiro sobre o Afeganistão. Mas ainda está guardado na gaveta. Ainda não o mostrei a ninguém.

ZEIT ONLINE: Como atriz a senhora esteve diante das câmeras sob direção de Clint Eastwood e Michael Winterbottom. O que aprendeu com eles e aplicou quando dirigiu?

Jolie: Tentei, tanto quanto possível, aprender com cada um dos diretores. O trabalho com Cliint Eastwood me impressionou especialmente. Em alguns sets de filmagens a gente tem a impressão de que rodar um filme é a coisa mais difícil e dura do mundo, mas no de Eastwood sempre reina uma atmosfera extremamente respeitosa, em que todos se sentem bem e dão o melhor de si. Eu sabia que o tema do meu filme precisaria de uma bom clima no set. Com Clint Eastwood aprendi que isso não se consegue apenas com bons atores, mas, antes de mais nada, reunindo gente de boa índole, de bom coração.

ZEIT ONLINE: Brad Pitt aparece no filme apenas por um momento – é morto. Como chegaram a essa participação?

Jolie: Na verdade, eu esperava que ninguém notasse. Para isso há uma razão bem pragmática: Brad sabe morrer muito bem. Muitos atores e muitos dublês não conseguem isso. Eu mesma também sou muito ruim em cenas de morte, porque simplesmente despenco.A gente não acredita, mas cair morto em uma cena é um dom especial, e Brad simplesmente o tem. Eu estava precisando de um bom dublê e elese prestou a esse papel admiravelmente.

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