Estava lá, vagando compenetrada entre frutas e verduras, mas um casal idoso chamou minha atenção quando ele, que vinha empurrando o carrinho, parou e anunciou como se tivesse voltado ao pomar de sua infância: “Olha as laranjas do céu, Amélia. Vamos levar algumas”!! Mas aquela não era a Amélia doce e subserviente da poesia de Mario Lago e não era a mãe do menino que ainda respira dentro daquele homem marcado na pele e nos ossos pela passagem do tempo. Era a mulher dele. E a resposta que ela encontrou diante do entusiasmo do marido foi um não sonoro, quase gritado. O motivo pisoteou a vontade dele: “Eu não gosto de laranjas do céu”!!!!

Que maldade, comentei. Sou discreta, por isso somente os meus botões ouviram. E todos eles, um a um, concordaram com a mãe que também sou. Mas, logo em seguida, levantaram uma lebre nessa conversa silenciosa, sugerindo que “esse homem, provavelmente, aprontou algumas travessuras bem pesadas ao longo do caminho que já percorreram juntos”. O que mais, segundo os meus botões, esfriaria o coração de uma mulher a ponto de negar ao companheiro o sabor de uma laranja do céu? Duvidei. Será? Mas eles não se renderam aos meus argumentos. Pelo contrário. “Olha como ele encolheu os ombros, como se tivesse merecido o desaforo”, disseram. E aproveitaram o momento para me advertir que deveria ser mais observadora.

Tinham razão. Diante dos meus olhos lotados de estupefação, o companheiro dessa mulher autoritária perdeu alguns centímetros em altura. Mudo, sem um ai, sem dizer uma palavra de protesto, ele a seguiu pelos corredores, sempre empurrando o carrinho cheio de produtos como se estivesse resignado a um inferno particular. O céu? Ele o deixou na gôndola do supermercado. Onde e quando acontece o milagre que o mantém vivo? Imagino que em outra gôndola. Naquela que navega pelos canais de Veneza e que há muito tempo lhe aparece nos sonhos com que se compensa do desencanto instalado numa rotina em que o excesso de intimidade e as portas sempre abertas permitem que seu desejo de comer uma laranja do céu vire motivo de irritação para a mulher que um dia jurou amá-lo e respeitá-lo até a morte. O problema é que o tempo do amor é outro. Como dizia Vinícius de Moraes, é infinito apenas enquanto dura, e as promessas, qualquer uma delas, só cabem nesse infinito.

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