Muita gente não se dá conta, mas o Vaticano – embora pequeno em extensão territorial – é o Estado mais poderoso do planeta, porque nenhum outro tem tantos súditos, de coração e mente, no globo terrestre.  E, embora a mensagem para os fiéis seja de paz e amor, intramuros a disputa pelo poder nada tem a ver com a oração e engendra projetos diabólicos. Aliás, nem dá para dizer que isso é novidade. Quem está minimamente informado sobre essa Igreja Católica Apostólica Romana sabe que ela é sagaz e esperta: ordenou a morte do revolucionário Jesus na cruz e depois se construiu oferecendo-o ao mundo como filho de Deus.

Na edição deste sábado, o Jornal Nacional fez uma rápida referência à existência de mais uma crise no Vaticano. Na Itália, o jornal Il Fatto Quotidiano foi mais fundo, divulgando um documento que seria a prova de um complô em pleno andamento para assassinar o papa Bento XVI.  Os arquitetos da trama seriam cardeais insatisfeitos com a excessiva dedicação do pontífice às questões doutrinárias, segundo o arcebispo de Palermo, Paolo Romeo, teria contado a um grupo de empresários italianos durante viagem à China. Um dos motivos do descontentamento seria o fato de Bento XVI não cuidar dos assuntos políticos, preferindo deixá-los a cargo do secretário de Estado, Tarcísio Bertone.

Por causa disso, garante o arcebispo, muitos cardeais querem um novo papa na Santa Sé.  E, pelo jeito, não estão para brincadeira: se essa história for verdadeira, o sucessor deverá entrar em cena dentro de um ano – tempo de vida que pretendem dar a Bento XVI – e seu nome também já foi aprovado. É o arcebispo Angelo Scola.

O problema é que a conversa de Paolo Romeo com os empresários virou protocolo redigido em perfeito alemão, segundo o Il Fatto. E esse documento foi levado a Roma pelo cardeal colombiano Dario Castrillón Hoyos, mas, antes de chegar ao Vaticano, alguém providenciou uma cópia e tratou de  encaminhá-la à redação do Il Fatto Quotidiano.

O Vaticano já se pronunciou sobre o assunto através de seu porta-voz, Federico Lombardi. Ele definiu a notícia como “absurda e louca demais para merecer crédito”. Mas não descartou a existência do documento. Além disso, uma coisa é certa, afirmam os jornais da Europa: alguém, no Vaticano, está querendo que o clima de brigas pelo poder dentro da Cúria chegue ao conhecimento público.

Faz sentido, porque o Protocolo do complô de morte que tem Bento XVI como alvo não é o único documento contrabandeado para fora dos domínios do Vaticano nos últimos meses. E todos eles têm relação com uma crítica explícita ao trabalho de Tarcísio Bertone. Os primeiros sinais de insatisfação surgiram em 2010, quando, em despachos de diplomatas norte-americanos publicados, foram encontrados comentários sobre a política interna do Vaticano em que Bertone é descrito como o “homem do sim” e como “aquele que filtra as informações do papa”. Já naquela ocasião muitos cardeais pediram claramente a renúncia do secretário.

A passagem do tempo não melhorou a situação. Pelo contrário. Os cardeais estão articulados. Tanto que, no verão passado, um semanário italiano publicou ameaça anônima contra o secretário de Estado. E mais recentemente, no final de janeiro, foram divulgadas cartas do ex-secretário Carlo Maria Viganò. Nessas cartas, ele se queixou enfaticamente sobre a atuação de Bertone, que teria tentado impedir sua campanha por mais transparência no Vaticano.

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