Jose Carreras canta e sonha

Diga-me com quem andas e te direi quem és. Sigmund Freud acreditou que esse diagnóstico pode ser feito através dos sonhos, e o poeta Mario Quintana concordou com ele, mas fez isso poeticamente, afirmando que “sonhar é acordar para dentro”. Quer dizer, o sonho é uma viagem de autoconhecimento, um processo de autodescoberta, uma topada do sonhador com as verdades que varre para debaixo do tapete porque não pode ou não quer encará-las à luz do dia.

Gosto disso. De sonhar. Com olhos abertos e olhos fechados. Gosto do assunto e, por isso, releio o livro A Interpretação dos Sonhos – edição comemorativa dos 100 anos – de Freud. Estou no capítulo em que ele identifica objetos e situações que, quando aparecem nos sonhos, funcionam como metáforas do que vai por nossa cabeça. Interessante.

Mas a leitura do livro me levou também a José Carreras, sobre quem encontrei matéria no jornal Zeit, da Alemanha. Aos 65 anos de idade, o tenor espanhol fala sobre o que sonha enquanto está dormindo, as personagens que encontra nos sonhos – gostaria de rever a mãe com mais frequência – e conta que não consegue lembrar-se de todos quando acorda. Mas ele também continua sonhando de olhos bem abertos.  

Apesar dos problemas, uma pessoa feliz

– Raramente acordo lembrando meus sonhos. Talvez por dormir pouco, menos do que deveria. Tenho inveja das pessoas que conseguem adormecer assim que sua cabeça toca o travesseiro Seria maravilhoso se isso também acontecesse comigo. Talvez meu espírito seja excessivamente inquieto, mobilizado demais. Deito na cama e os pensamentos correm velozes pela minha cabeça. Fico me lembrando dos problemas do dia, fico preocupado com o futuro. Nunca durmo mais do que cinco ou seis horas. Por sorte, a necessidade de dormir diminui com a idade e muito raramente me sinto cansado.

Bem mesmo, consigo lembrar apenas dos sonhos que tive no tempo em que estive hospitalizado, lutando contra a leucemia. Seguidamente me via novamente saudável, parado no palco e cantando como personagem de uma ópera. Às vezes também eram pesadelos assustadores, nos quais o médico me dizia que havia tido uma terrível recidiva. Tive muita sorte, porque recuperei de fato a minha saúde, podendo entrar em cena novamente. Apesar de todas as dificuldades, a vida me tratou muito bem. Sou uma pessoa feliz.

No que diz respeito ao trabalho, minha carreira até superou meus sonhos. Quando jovem, cantei no palco das casas de ópera mais importantes do planeta, ao lado de cantores já famosos. Durante toda a minha vida desejei que minha mãe tivesse tido a chance de vivenciar tudo isso comigo. Ela sempre apoiou muito as minhas ambições musicais. Infelizmente, morreu de câncer quando eu tinha 17 anos de idade e essa foi uma das piores experiências da minha vida. Para mim é extremamente frustrante que minha mãe nunca tenha visto uma das minhas apresentações. Ainda hoje, o último pensamento antes de entrar no palco é para ela. Às vezes, mas infelizmente isso é muito raro, eu a reencontro nos meus sonhos. Então posso conversar com ela, contar-lhe sobre minha vida, pedir que me aconselhe e que me console. Isso é maravilhoso!

Profissionalmente sonho em voltar a participar de uma montagem operística antes de encerrar a minha carreira. No momento, estamos preparando uma ópera que se ocupa de um tema que para mim, como catalão, fala muito de perto ao coração: a Guerra Civil Espanhola, que significou o fim da autonomia catalã. Sonho com isso. De, em breve, estar no palco com essa ópera.

Quando jovem, joguei futebol apaixonadamente e acalentei o sonho de ser um craque do Barcelona. Infelizmente eu não era um bom jogador, ficava abaixo da média, mas até hoje o Barça tem um espaço assegurado e grande no meu coração. É muito mais do que uma associação esportiva, é, antes, uma religião. O Barcelona representa nossas raízes, nossa identidade nacional. Por isso, sonho há anos com uma seleção nacional catalã. A Catalunha merece um time próprio, como o País de Gales ou a Escócia. Lamentavelmente, a Fifa ainda não reconhece o nosso desejo, mas estou certo de que um dia isso vai acontecer. Então gostaria de estar no gramado para cantar o hino nacional da Catalunha antes do primeiro jogo. Sim, este seria um sonho!

 

Jose Carreras nasceu no dia 5 de dezembro de 1946. Em 14 de julho de 1988, criou a Fundação Internacional de Luta contra a Leucemia. No final de 2011 lançou sua autobiografia intitulada De todo coração: sobre o dom da vida e a força da música.

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2 comentários em “Jose Carreras canta e sonha

  1. Boa pergunta: por que não volta ao Brasil? Talvez a gente, que amamos a voz dele, deva tomar a iniciativa no sentido de pedir que o tragam. A Ospa está trazendo maestros. Não poderia convidá-lo? O Teatro do Sesi ou a Opus? Quem sabe fazemos uma campanha.

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