Primeiro a ideia, depois o capital

Professor de empreendedorismo na Universidade Livre de Berlim, Günter Faltin afirma que a falta de dinheiro não é empecilho para abrir uma empresa

 

Para ser empreendedor não é necessário ter dinheiro. Günter Faltin, professor de empreendedorismo na Freien Univesität Berlin (Universidade Livre de Berlim), já criou várias empresas bem-sucedidas e acredita realmente nisso. Em seu livro A cabeça supera o capital, tradução literal para Kopf schlägt Kapital, ele defende a tese de que um bem-elaborado projeto é mais eficiente do que o capital e que qualquer pessoa pode criar uma empresa de sucesso. Em conversa com Faltin para o jornal Zeit online, um jovem empreendedor de 31 anos de idade falou sobre suas dificuldades, admitiu a importância do know-how – por isso tratou de estudar empreendedorismo quando resolveu criar seu negócio -, mas salientou que o grande temor dos novos empresários é exatamente a necessidade de formar capital.

Na Alemanha, como no Brasil, a conversa sobre a falta de inovação nas empresas é tema recorrente. E, também como aqui, grande parte das novatas no mercado fecha as portas rapidamente. Mas por que isso acontece num país de Primeiro Mundo? Muitas empresas recém-criadas vão à falência porque as pessoas têm ideias bonitas, mas não têm uma estratégia suficientemente amadurecida e embasada, responde Faltin. Afora isso, muitas se sobrecarregam querendo assumir tudo, dar conta de tudo. Errado! O professor aconselha: “Um empresário não deve se deixar prender pela burocracia e pela contabilidade. Para isso existem profissionais capacitados. Ele deve se concentrar no seu projeto de empresa e na forma de transformá-lo em realidade”.

Mas nessa realidade está embutido o custo do “profissional capacitado”, que a maioria dos novos empresários não tem como pagar. Por um triste detalhe: falta dinheiro.  Isso não altera a certeza de Faltin. Para o professor de empreendedorismo, “se o profissionalismo lhe é caro demais, não tente com falta de profissionalismo”. E ele reafirma que não ter capital não é motivo para não abrir uma empresa. “Minha experiência diz que se você tem um projeto verdadeiramente bom, não haverá quem não queira lhe emprestar dinheiro”.

Formado em Administração de Empresas, a preocupação do jovem empresário que pediu conselhos ao consultor é a Mothership, que ele criou com amigos para importar bicicletas de turismo da Ásia.  “Queremos vendê-la na Europa de forma inovadora; o preço é muito acessível se comparado ao que se pratica no mercado e, além disso, o freguês pode escolher como quer a montagem final de sua bicicleta”, explica. Mas os fornecedores estão impacientes, à espera de encomendas. “Estamos inseguros sobre se já devemos investir tanto dinheiro nisso. Ainda não ficou bem claro se a nossa ideia tem potencial de sucesso e sobre qual vai ser o tamanho da procura”, acrescenta.  E Faltin lhe recomenda que seja cauteloso nas encomendas. “Ainda é cedo”, diz. Segundo ele,  os fornecedores vão propor preços muito altos, porque a demanda é baixa. O recém-formado administrador de empresas concorda. “É como se a menor encomenda ainda fosse grande demais para nós nesta fase”. Mas o professor pede que o grupo não pense de forma tão convencional e sugere um caminho: importar a bicicleta em números pequenos e vendê-la pedindo pagamento antecipado, para que se possa realizar o “proof concept”, a prova de que a ideia funciona. “E importante é que incluam nesta fase também as primeiras encomendas dos fregueses”.

Embora o empreendedor acredite que essa é uma boa ideia, apresenta mais um problema: a escassez de tempo que ele e seus sócios têm para se dedicarem intensivamente ao projeto, já que todos ganham a vida cumprindo jornada diária em seus respectivos empregos. “No meio de tudo isso, temos que nos financiar para que possamos investir”. O professor lembra que “ainda não se trata da abertura da empresa, mas do trabalho conceitual” e, segundo ele, “enquanto a situação for essa, não é ruim que se mantenham num emprego regular, que lhes assegura a tranquilidade de que precisam para que possam desenvolver novas soluções”. No entanto, um alerta: “Cuidado para não desperdiçar seu tempo!”

Para o jovem, Faltin fala dessa maneira porque está em situação privilegiada, como professor, e porque todas as suas empresas são bem-sucedidas. Enquanto isso, estreante no empreendedorismo e cheios de dúvidas, o grupo de amigos se pergunta também sobre outras questões do dia a dia de uma firma. Por exemplo: o trabalho deve ser igualmente dividido entre os integrantes? O que se faz quando alguém tem a impressão de trabalhar mais do que os outros? Como se dividem os custos do investimento entre os membros do time? O professor reconhece que a criação de uma empresa em sociedade nunca é uma coisa fácil, embora soe atraente. “Sobre a ideia original, o time talvez ainda esteja unido, mas já durante a sua concretização vão aparecer diferenças de opinião. Uma criação em grupo funciona melhor quando cada um dos integrantes tem a clara noção de seu papel e não concorre com outros do time. Um deles deve ser o líder, aquele que dá a direção, o outro deve se preocupar com a tecnologia, o terceiro cuida do marketing”, aconselha.

Quanto ao investimento de capital, ele volta a sugerir que sejam comedidos em todos os sentidos. “Aconselho que seja tão pouco quanto possível e o mais tarde que puderem”. Como exemplo, cita o lema do empresário britânico que criou a Virgin: “Não tínhamos dinheiro, portanto tivemos que ser criativos”. Faltin pede que o jovem e seus sócios mantenham os olhos bem abertos na administração dos recursos de que dispõem, não usando o dinheiro em coisas desnecessárias. Com logística, segurança de qualidade e montagem final plenamente à disposição, a preocupação da equipe é com a forma – “inovadora” – como pretendem divulgar a bicicleta no mercado europeu. Mas o professor faz mais um alerta: “Pensem desde agora que vão aparecer imitadores; por isso precisam de um conceito ágil, que pode ser mudado e ampliado para mantê-lo diferente dos copiados”.

Aliás, este é um ponto sobre o qual o jovem se confessa inseguro. Com quem poderia combinar algo sem correr o risco de ver sua ideia roubada? O professor falaria com alguém a respeito de um projeto enquanto não o tivesse levado a um porto seguro?  “Eu guardaria para mim, pelo menos algumas coisas específicas”, é a resposta dele. “Vocês não precisam, por exemplo, dizer a ninguém quem é o contato com o seu principal fornecedor”, acrescenta. “Mas deveriam falar com outros empresários, com alguém que também esteja trabalhando numa ideia de empreendimento; esse não vai roubar seu projeto, porque está ocupado com sua própria ideia. Afora isso, tentem encontrar um business angel  (um mentor)”.

O problema é onde se encontra um mentor. E o que leva uma pessoa desse tipo a ajudar alguém que está apenas começando? Faltin explica que, na maior parte das vezes, o mentor é aquele tipo de gente que sente um verdadeiro prazer em acompanhar a criação de uma empresa. Talvez por lembrá-lo da situação que viveu como empreendedor; talvez porque “tem um coração enamorado de ideias originais e inovadoras; ou porque deseja se associar à firma com capital”.

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4 comentários em “Primeiro a ideia, depois o capital

  1. Oi, Maria! Tudo bem querida?!
    Nossa, gostei demais dessa entrevista comentada no teu post. Vou procurar o livro, pois me pareceu super útil lê-lo. bjos e saudades

    1. Olá, Rosela

      Desculpa responder apenas hoje. Andei por ai, “morenando” minha pele na orla de Capão da Canoa, estive fora do país e quase sempre bem longe do computador. Também gostei muito dessa matéria e quando a postei pensei cá, com meus botões, que “essa é dos interesses da Rosel”. Nos próximos dias vou postar outra – está em processo final de tradução do alemão – e trata do socialismo do século XXI. Acredito que vais gostar de ler e gostaria de um comentário teu sobre as ideias deste estudioso do assunto, que já foi consultor do Chávez. Até!!!!

      1. Olá, Maria! Sim, vou gostar muito de ler e tb de comentar, dar pitaco é comigo, ainda mais se você me pede. ehehehehe Tô na contagem regressiva prá mudança! OBA!!!!! bjos

      2. Assim que estiveres instalada em Santa Catarina vou te fazer uma visita. Além de ti tenho lá uma amiga, a Inês Bernal, que mora em Floripa há anos e a quem devo uma visita. Ainda hoje, quando almoçamos juntas aqui, na minha casa, ela me cobrou. Em outubro, quando estive em Florianópolis, ela estava na Itália. Sinto saudade das nossas conversas – minhas contigo.

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