São três seres humanos do nosso tempo. Um deles é príncipe, já de certa idade, e pode ser o futuro rei do Reino Unido da Grã-Bretanha. Opa! Não é William. É o pai dele, Charles, em pacienciosa espera pelo momento de ganhar o trono. Com o perdão da palavra, a coroa ele já tem e, até demonstração em contrário, sente-muito bem compartilhando sua vida com ela. O outro é um arquiteto norte-americano e mais parece um remanescente dos hippies. Seu nome é Michel Reynolds. O terceiro é Lucilena, uma brasileira catadora de latinhas.

Os três vivem em países diferentes e se movimentam em camadas sociais também diferentes. Na verdade, opostas. O que os aproxima, mesmo que nunca se encontrem para um aperto de mão, é sua contribuição para garantir um meio ambiente saudável às gerações do futuro. Charles e Reynolds foram entrevistados em documentário apresentado pelo canal 502. Simplesmente fantástico, mas foi a história de Lucilena que me emocionou. Embora nunca tenha frequentado a escola para aprender a conjugar os verbos, aprendeu com a vida a conjugar alguns que são básicos: amar, lutar e superar para sobreviver.

O príncipe recebeu o repórter em sua fazenda em Highgrove, onde, em poucas palavras, definiu a importância que ela tem em sua vida. “Aqui garanto a minha sanidade mental”, disse. Na fazenda, ele comanda um projeto que começou há cerca de 30 anos, com foco no resgate da biodiversidade do Reino Unido – fauna e flora – destruída pela Segunda Guerra Mundial.  Colhe o que planta. Come o que colhe. Tudo sem agrotóxico. E não se esquiva de se abaixar e colocar as mãos na terra, contanto que sua coluna vertebral lhe permita esse movimento.

O príncipe que casou com Diana, embora apaixonado por Camila, é muito diferente desse que ganhou o respeito dos seus empregados. Eles o veem como empreendedor empenhado em proteger os recursos que explora. Em outras palavras, é um homem esperto que preserva a árvore para que não lhe falte a sombra. Seu imenso jardim, por exemplo, é um prato cheio do que podemos entender como bom egoísmo ou egoísmo inteligente. Acompanhando o repórter, a coordenadora dos trabalhos repete o que ouve de Charles sobre este espaço, onde o príncipe praticamente não opina, a não ser para estimular, deixando que os jardineiros se expressem na criação de esculturas vivas, feitas de plantas: “O verde alegra os olhos, alimenta a alma e aquece o coração”, diz.                                       

Mas ser filho da rainha e provável futuro rei não lhe garantiu a aprovação fora da fazenda quando deu início a este projeto. “Fui ridicularizado pela imprensa”, lembra. A voz trai resquícios de mágoa do muito que o povo do Reino Unido riu quando soube que Charles costuma trocar ideias com suas plantas em longos papos. E, quando cansou de rir, a situação só piorou. Vendo que ele não dava sinais de desistência da “excentricidade”, os jornais substituíram o deboche pela denúncia: os produtos que o príncipe coloca no mercado não seriam genuinamente orgânicos. Passa pela cabeça dele que esta é uma reação de estranheza natural diante da sua ousadia de ser o primeiro integrante da família real britânica que não se resigna ao papel de passiva representatividade? Ele desconversa. Mas, em outro momento, diz que o filho da rainha nem sempre pode dizer o que pensa. Dá para entender por que conversa com os ciprestes e com as roseiras de seu jardim?                          

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Michel Reynolds enfrentava seus inimigos, que não se contentaram com ironias e o convocaram à guerra. Acabou perdendo a licença para trabalhar como arquiteto, cassada por quem não consegue ver sentido no aproveitamento do material reciclável que tira do lixo para construir o que chama de “casas do futuro”, o que faz desde o início da década de 70 com pneus cheios de terra, latas e garrafas de plástico. Algumas de suas construções foram interditadas porque não tinham instalações para água quente, o que contraria os padrões de arquitetura dos Estados Unidos, mas ele resolveu o problema mantendo-se fiel ao conceito Navio-Terra Biotectura. Agora seus projetos incluem painéis solares e energia geotérmica para garantir a temperatura adequada às casas nas diversas estações do ano, coleta de água da chuva e instalações sanitárias.

Na visão de Reynolds, a situação do planeta Terra é realmente crítica e “precisamos fazer tudo o que pudermos para reverter a situação e evitar uma catástrofe”. Embora incompreendido e condenado, principalmente pelas grandes corporações que veem nele um inimigo de seus lucros, o arquiteto não desiste e vai ganhando adeptos fora do Novo Méxicos, nos EUA, onde já construiu mil “casas do futuro”.  Outras estão ganhando forma na Escócia, na França, na Espanha e na Sibéria. Em 2007, ele conquistou a licença para levantar 16 navios-terra em Brigthon, cidade inglesa.                                                           

Da combinação de Lúcia e Helena surgiu Lucilena. Iluminada e guerreira, num domingo de outubro de 2011 ela chorou muito. Passou perto de um “piripaque” quando abriu a porta de sua nova/primeira casa, sonho longamente sonhado e finalmente realizado por um programa de televisão.

Antes disso, Lucilena nunca foi acarinhada pela vida. Perdeu a mãe aos três anos de idade. O pai, um homem bruto e safado, não ficou muito tempo sozinho. Para piorar a situação, levou para dentro de casa uma mulher danada de ruim com os enteados. Tão má que um dia exigiu dele uma escolha: “Os filhos ou eu”. Foi então que Lucilena e seus irmãos viraram moradores de rua.

Ruim? Péssimo. Mas teria sido pior continuar naquela casa, aonde o pai vinha abusando sexualmente de uma das filhas e Lucilena seria a próxima vítima. Estava livre da tara dele, mas foi preciso “ponhar” muita esperança no coração para não fazer da dor uma lição. Foi assim que ela se transformou na Lucilena das latinhas, que, ao contrário do pai, luta pelos filhos com unhas e dentes. E eles a amam muito por isso.

Charles, da Inglaterra. Michel Reynolds, nos Estados Unidos. Lucilena, no Brasil. Um é príncipe. Outro é arquiteto. Ela cata latinhas para matar a fome de seus filhos e lhes garantir o ensino em sala de aula. No fim e ao cabo, despidos de todas as máscaras sociais, os três têm em comum a vontade de encontrar seu lugar no mundo além do que lhes foi destinado pelas circunstâncias. E cada um deles busca isso do seu jeito e com seus recursos.

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