Mal acordou. Ainda está se espreguiçando quando a mãe entra no quarto e abre a janela.

– Está na hora. Levanta, pede. Também ouve quando ela comenta que o céu está pintado de vermelho e que isso é sinal de chuva nas próximas horas, segundo ditado que sempre traz à conversa quando especula sobre o tempo.

– Abendrot trockeness Brot; Morgenrot nasses Brot.

Depois ela passa pela cama, dá uma batidinha meio carinhosa e meio impaciente no cobertor, tentando acertar os pés de Lúcia, e pede de novo que levante.

– Hoje é sábado e não tem aula; vai, toma o café ligeirinho e mais tarde me dá uma ajuda na arrumação da casa.

Se pudesse dormiria mais um pouco, mas não tem como ignorar o pedido. O dia dela começa invariavelmente às seis. Às nove, a roupa já está nos varais, secando na gangorra do vento; às dez, vê que a mãe caminha pelo pátio arrastando os chinelos; às 11, toma um remédio porque não aguenta mais a dor na coluna e Lúcia gostaria de embarcar com ela no avião da Varig que sobrevoa o vale.

No jardim, povoado por rosas, cravos e margaridas, o ar também prenuncia chuva. Então ouve a mãe dizendo que precisa preparar a massa de uma nova fornada de pão. É a segunda da semana. Primeiro, ela bota lenha a queimar no forno de tijolos. Depois, traz a brasa até a boca e abre um espaço no centro dele para acomodar as formas, uma a uma, com a ajuda de uma pá.

Era assim que imaginava sua vida? Sempre que vê a mãe nessa tarefa, Lúcia tem vontade de lhe fazer essa pergunta. Mas hoje, não. Hoje precisa aproveitar o momento para contar o sonho da noite.

– Tive um sonho tão estranho, mãe. Sonhei que você tinha me levado para conhecer Deus.

– Sério?

– Mas talvez seja melhor não contar, porque você vai ficar muito zangada comigo. Acho que vai, porque esse Deus que eu vi não é nada parecido com aquele que você e o pai dizem que criou o mundo e cuida de tudo que existe…

– Conta assim mesmo. Gosto de saber com que ideias minha filha anda se ocupando em vez de brincar como fazem as outras crianças… E para de molhar o pão no café, menina! Não é assim que se come!

– Ah, mãe. Eu estava brincando no jardim quando você me chamou.

– Vem, vou te apresentar a Deus, disse.

Então me levou pela mão até um lugar bem longe daqui. Quando chegamos, primeiro alguém pediu que dissesse meu nome e minha idade. Depois, disse que Deus estava numa reunião e que eu teria que esperar. Esperei um pouquinho, só um pouquinho, e aí fui levada a uma sala onde vi três homens, todos eles de pé atrás de um enorme balcão. Lembro que um deles tinha um rosto grande e vermelho. Ele vestia uma roupa parecida com uniforme e era toda branca. Não era muito alto.

– Este é Deus, me disseram os outros dois.

– Não achei simpático, mãe. Disse que me parecia um daqueles homens que só pensam em dinheiro e, depois, perguntei por que permite tanta tristeza, tanta coisa ruim no mundo, como a asma do velho Arnoldo, o coração que não parava de crescer no peito do Laurinho e a dor na coluna que a minha mãe lamenta nas manhãs ensolaradas. Ele nem me deixou fazer outras perguntas. Ficou brabo, me chamou de atrevida e mandou que me tirassem da sala. Desse jeito:

– Imediatamente!

– Mãe, você não iria gostar do olhar dele.. era frio…

– E o sonho terminou assim?

– Não, mãe. Quando ele me mandou embora, saí para caminhar. Nem sabia para onde devia ir. Caminhei … caminhei… Caminhei muito tempo e, no fim, descobri um lugar…

– Pelo jeito em que esse sonho vai indo…

– Achei um lugar todo cercado de arame farpado. Era lindo. Muito, muito lindo! Primeiro senti medo e fiquei parada ali, só olhando… Depois resolvi entrar para ver mais de perto as flores nos canteiros e as cabaninhas no meio do arvoredo. Poucas. Sei lá quantas, mas eram todas coloridas, com janelas azuis e telhado branco. Eram todas iguais e ao mesmo tempo me pareciam uma mais bonita que a outra. O chão entre os canteiros era todo coberto por pedras lisas e limpas, como se tivessem sido lavadas há pouco tempo. Mas olha só, que estranho: todas as casinhas estavam fechadas e não tinha gente ali. Não, estou mentindo. Tinha um guarda.

– Quem mora aqui?, perguntei.

– Menina, você invadiu um lugar secreto. Isso aqui é uma reserva florestal e o dono disso tudo é Deus, respondeu.

– Mãe, o que é uma reserva florestal?

– É um lugar onde é proibido entrar para cortar árvores e matar animais. Mas e aí, como é que esse sonho terminou?

– Quando ele falou que o dono é Deus lembrei que Deus tinha me mandado embora daquele jeito – “Imediatamente”! – e saí correndo. Estava apavorada, mãe. Então passei pela cerca outra vez e o arame farpado rasgou minha perna direita de alto a baixo. Doeu, mãe. Quer ver?

– Menina, isso foi apenas um sonho. De onde te vem essas ideias sem pé e sem cabeça? Agora sou eu quem está levando medo…

– Será que Deus tem mesmo esses olhos frios e esse jeito de gente que senta atrás das mesas, manda e desmanda e diz que tem a caneta para mandar embora quem não cumprir as ordens dele, mesmo quando são absurdas… Já pensou que ele pode ter vontade de ser um fazendeiro, de criar muito gado? Então, a qualquer hora do dia ou da noite, vai querer a terra todinha para ele. E, se estiver com pressa ou muito zangado, pode mandar um terremoto para nos despejar, como o Paulo fez na semana passada, quando virou o tabuleiro de xadrez e queria terminar o jogo logo porque estava perdendo. Você nunca pensa que um terremoto pode ser também uma brincadeira de esconde-esconde para Deus?

– Mein Gott! Era só o que me faltava, uma conversa como essa logo no começo de um dia em que não vão faltar trabalho e coisa séria para pensar e resolver. Komm! Schnell, schnell! Senta aqui que eu vou trançar teu cabelo, que hoje está especialmente cheio de nó. Rápido, não temos todo o tempo do mundo…

– Tá bom. Já vou… Ontem, a professora de História avisou que vai ter prova na terça-feira e estou com medo de não tirar uma nota muito boa…

– Não estudaste a lição?

– Estudei, mas tem muito nome e muitas datas nos livros e não consigo me lembrar de tudo na hora de responder às perguntas. Acho que é porque na maioria das vezes não gosto, nem um pouquinho, do que já aconteceu. Deus bem que poderia ter usado o poder dele para impedir tantas barbaridades…

– Ih… a conversa terminou. Depois a gente volta a falar sobre isso. Agora preciso das tuas mãozinhas no preparo da massa do pão nosso de cada dia. Isso… Vai despejando, aos pouquinhos, a água aos poucos sobre a farinha… Deus só ajuda quem se ajuda.

– Então tá, mãe.

Enquanto a mãe traçava o sinal da cruz sobre a massa, que depois cobriu com um pano branco para que crescesse antes de levá-la ao forno, Lúcia prometeu a si mesma que se ajudaria muito. E um dia embarcaria no avião que a levaria para além das montanhas, onde sonho e realidade se dariam as mãos. Ou não.

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