Estou com a tevê ligada. O canal 42, Multishow, reprisa mais uma vez o final do Big Brother Brasil edição 2012. Quando este programa da TV Globo estreou eu estava fora do País, portanto, não vi os primeiros episódios nem as primeiras eliminações. Passei a acompanhá-los a partir de março, em Capão da Canoa, depois da ginástica nos equipamentos instalados no calçadão, da caminhada no mar e das conversas em família. O que vi no programa é o humano que joga, mas acusa o outro de cometer perfídia quando ele também joga, mesmo que seja para se defender.

Como na prática política, o comportamento entre os confinados foi um vale-tudo, incluindo as deploráveis maledicências de mulheres que pretendiam impor a um homem seu interesse por ele e exigir que ele correspondesse.  A diferença entre nossos parlamentares e os brothers é que, enquanto os políticos se corrompem em busca do poder que lhes dá acesso à possibilidade de fazerem uso indecente do dinheiro público – por que será que o DEM quer agora ver-se livre de Demóstenes Torres? -, nas festas organizadas pela produção do BBB para alegrar os candidatos a “grande irmão” o que derruba limites é o consumo de álcool. E aí vem à tona tudo aquilo que as pessoas, quando estão sóbrias, tentam e conseguem esconder debaixo de suas máscaras sociais.

A TV Globo deve ser apedrejada por colocar tanto álcool à disposição dos confinados?  O dinheiro público deve ser visto como vilão porque a voracidade cega o político? Acredito que não. Se acreditasse no contrário, então deveria pedir o fechamento das empresas que produzem vinho, espumante e cerveja – tadinha da minha mãe, que estaria condenada porque fabricava licores caseiros maravilhosos – e também deveria defender como correto o castigo que os muçulmanos mais radicais impõem às mulheres vítimas de violência sexual, culpando-as pela transgressão dos homens que não conseguiram administrar a própria “tropa de assalto”, como a escritora Camille Paglia define o incessante batalhão de espermatozoides da usina masculina.

Em outras palavras, fazer uso indevido do dinheiro público, valer-se de um cargo político para rechear os próprios bolsos ou consumir álcool como se estivesse tomando água, tudo isso é pecado de quem se deixa corromper, de quem não se administra. A tentação existe. É estratégica na produção do Big Brother Brasil, e a TV Globo não é inocente. Cachoeira, que associam ao parlamentar do DEM, também não é. Mas condenar apenas o corruptor equivale a infantilizar o corrompido, que, se fosse mais inteligente, não cairia na armadilha, pois trataria de dizer não a si mesmo antes mesmo de recusar a oferta. O problema é que poucos, muito poucos, sabem e querem dar conta disso. Na política, esse comportamento beira a tragicomédia. O sujeito age como borderline, pensando que se dará muito bem, quando tudo o que já se viu nos meios de comunicação aponta para um final vexatório: a descoberta da falcatrua.

Fabiane, que acompanhou tantas edições anteriores do BBB, também brincou com a sorte. E deu no que deu: 92% de rejeição. No meu entender, ela só chegou à final porque foi favorecida de duas maneiras: primeiro, pelo teor da última prova para a conquista da liderança, própria para a cabeça feminina; segundo, pela tolerância de Bial diante da “querida”.  Lançada a última pergunta, ela acionou o botão sobre a mesa com muita afoiteza, mas não sabia a resposta. O apresentador foi de uma paciência incomum. Contou até quatro, ela pediu mais tempo e pediu que ele repetisse as opções. Foi atendida e só então respondeu, fora do tempo regulamentar se valesse o rigor alardeado. A edição que o canal 42 está reprisando mostra apenas a resposta dela e sua confirmação como próxima líder.

Terá sido por medo de que ela tivesse um colapso nervoso se não vencesse a prova? Não sei. O que me pareceu é que Bial se juntou a Fael no papel de refém dessa moça. E lhe deu a vitória. De mão beijada. Pagou um mico que o fato de estar “velhinho”, como diz Boninho, não justifica.

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