Espantosamente linda. Assombrosamente perfeita. A nova campanha internacional da Air France, intitulada L´Envol – O voo  -, me atingiu em cheio quando a vi pela primeira vez na tevê. Chorei de emoção diante dessa apurada e sensível inteligência criativa, que viaja totalmente na contracorrente de mediocridades agressivas e grotescas como a que se vê na propaganda da Peugeot, em que dois funcionários de uma loja de carros se divertem colocando um ”estagiário” em situação difícil.

A peça da Peugeot foi produzida pela agência Loducca. Nota zero. É tão ruim que causaria o efeito contrário em mim se estivesse a fim de comprar um carro. De jeito nenhum, nem pela metade do preço, compro um produto oferecido dessa forma. L´Envol é criação da BETC Euro RSCG. É, de longe, a peça publicitária mais bem-pensada e mais bem-realizada de todas que já vi. E não foram poucas, porque sou telespectadora de hábito estranho se comparada com a maioria: gosto dos intervalos comerciais; espero pelo momento de entrarem no ar. Gosto deles porque, sendo alguém que precisa da palavra para contar histórias, respeito muito quem sabe contá-las de forma quase monossilábica e, às vezes, valendo-se apenas da combinação de imagem e música.

Esse é o caso de L´Envol.  A peça foi toda ela gravada no Marrocos, em tomada única, sem efeitos especiais e sem cortes, interpretando a tecnologia implicada na viagem aérea com um forte toque de sensível humanidade. Sobre um espelho que reflete o céu, dois bailarinos – um homem e uma mulher – evoluem do passo à dança na coreografia, simulando desde o embarque dos passageiros até a decolagem e o voo. Ela é o corpo da aeronave – o feminino é sinônimo de acolhimento e proteção – e ele transforma seus braços em asas. A música é o Adagio 23 de Mozart. O resultado é lindo. Sofisticado. Poético. Convincente: voar com a Air France é tranquilo.

Agora são 11 horas e 57 minutos em Porto Alegre. E estou frustrada, porque hoje não consegui ver a peça em nenhum dos intervalos comerciais. Lamento. Mas lamento também o desaparecimento daquela peça da Red Bull, chamada Nazaré, em que Jesus se diz cansado, decide voltar para casa e abandona o barco. Quando os discípulos perguntam se vai novamente andar sobre a água, ele responde que isso não é problema para quem conhece o caminho das pedras. Adorei! Achei que é coisa de quem faz humor inteligente, perspicaz.

E houve quem detestou, sentindo-se ameçado em sua zona de conforto. Representantes da Igreja Católica e variantes do cristianismo condenaram a propaganda como “desrespeitosa”. Isso não me surpreende. O que me surpreende – e deploro – é que o Conar tenha dado atenção ao chiado deles, tirando-a do ar. E me declaro prejudicada, porque também acredito que Jesus sabia aonde deveria colocar os pés. Era o efeito especial dele. Os espertos ainda o vendem como milagre. Faz parte do pacote com que enchem seus cofres, explorando a necessidade que a maioria dos humanos tem de acreditar no que alivia suas angústias diante da vida e seus mistérios.

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