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Costumo guardar-me no silêncio sempre que ouço as pessoas louvando a natureza. Isso não acontece à toa. Acontece, porque nasci no interior do Estado, onde o contato com a realidade não tem camuflagem. É direto. De cara com ela, aprendemos que, antes de produzir o leite que chega às prateleiras dos supermercados em caixas coloridas, a vaca -“de olhos tristes” na canção interpretada por Bethânia -, muge de dor enquanto bota o bezerro no mundo. “Deus quis assim”, ouvia. E pensava: “Esse Deus é muito cruel para a espécie feminina”. 

Por essa e por causa de outras tempestades, a natureza sempre me deixou desconfiada. Ainda criança, gostava dela somente nos pomares, onde bastava ficar na ponta dos pés e esticar o braço para colher uma fruta; nas hortas, de onde vinha a alface para o almoço; nos jardins, que minha mãe povoava de flores e onde armava caramanchões com brincos- de-princesa avançando sobre os cinamomos; na água do Forromeco, em que metia meus pés no alto verão e tentava nadar – sempre sem sucesso – , volta e meia com pensamentos maus contra os “italianos” que vinham da Serra e caçavam peixe atirando bombinhas no rio; e também quando a chuva se fazia compositora que bailava no telhado de zinco.

Mas isso podia fazer durante o dia. À noite minha conversa era com a Lua. Ela sempre foi para mim a face serena, acolhedora e generosa da natureza. Bem acomodada no balanço que pendia da Hovenia Dulcis, eu cantava para ela, fosse minguante ou crescente. E cantava mais quando cheia, agora sentada nos degraus da escada que levava ao jardim, em dupla com meu irmão Wolfram. Ele batendo o ritmo com os pés. O repertório era extenso. E variado. Partíamos da Alemanha cantando “Sah ein Knab ein Rösslein stehen…” e “Am Brunnen vor dem…” ; em terras de Cabral nos apropriávamos do fado – “Em uma casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa…”; na Itália, a preferida era “Va pensiero, sull´ala dorata…” (de Verdi, na ópera Nabucco); e acabávamos a sessão musical em Pernambuco, assaltando um baião de Luiz Gonzaga. Às vezes até o México contribuía com alguma canção. Podia ser Adelita ou então algum lamento apaixonado de Miguel Aceves Mejia.

Tempo maravilhoso. Há pouco, voltei a ele. Aconteceu quando abri a janela para dar uma olhada no movimento lá fora, no fluxo de carros. Que nada! Era a Lua, poeta viajante no céu, quem estava me chamando. Grudei meus olhos nela e vi que não se deixou modificar pela intromissão do homem, que a pisou pela primeira vez em 1969. Continua serena e enigmática. Bela. Luminosa sem ser agressiva. Ainda faz a magia com que retribuía meu encantamento por ela quando criança: o rosto da minha mãe, Mathilda,sempre estava lá. Ele continua lá. E eu continuo amando a Lua.

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