Vai causar barulho

É urgente. O Brasil precisa de uma boa e séria mexida no marco regulatório das comunicações. A Unesco recomenda. A discussão do tema começou há décadas, mas agora ganhou força e se pretende que resulte na criação do Conselho Nacional de Comunicação. A Bahia, famosa pelo tempo que se concede no andar da carruagem, dessa vez apressou o passo e já tem o seu em funcionamento. Agora também o governo do Rio Grande do Sul está colocando o assunto em debate, para recolher sugestões, através da Secretaria de Comunicação e Inclusão Digital (SCID).

Uma coisa é certa: a proposta é polêmica e ainda vai levantar muita poeira até sair do campo das sugestões e se transformar em realidade. Na verdade, isso já acontece. O problema é que nessa partida está em jogo mais do que o interesse pela informação. Fazendo referência a isso, há quem faça previsões pessimistas. “O governo está se metendo numa enrascada” é uma delas. Outra: corre o risco de se ver apontado como inimigo do direito ao acesso à informação que a Constituição do País e a Declaração dos Direitos Humanos, da ONU, defendem como intransferível.

A previsão – manifestada em forma de alerta – foi ouvida pela secretária Vera Spolidoro (na foto com o professor Deivison Campos) no final do painel realizado sobre o assunto no campus Canoas da Ulbra, nesta terça-feira. Muito experiente como jornalista, ela sabe que a proposta enfrenta malquerença entre empresários da comunicação e também entre jornalistas, mas repetiu o que já havia salientado logo no início do encontro: os objetivos do Conselho de Comunicação nada têm a ver com censura e controle da informação; ele não será criado para restringir o acesso à informação. Pelo contrário, vai ampliá-la através da regulação, que implica mudança na política das concessões; universalização da internet em banda larga para todos os lares brasileiros; estímulo à mídia alternativa; e estímulo à regionalização e interiorização através da publicidade oficial, entre outras providências.

O cala-te que a ditadura militar impôs a partir do momento em que o então presidente da República, Costa e Silva, colocou em cena o Ato Institucional Número 5 – o AI5 – é argumento poderoso. Pode interferir para azedar a avaliação da proposta, principalmente quando quem a avalia é alguém que sofreu o impacto dessa imposição nas redações dos jornais, onde até mesmo o Horóscopo era analisado como possível veículo de mensagens contra o status quo. Mas os tempos são outros. As intenções também. E Vera Spolidoro afirma que a censura aos meios de comunicação não será uma decorrência da atuação do Conselho de Comunicação, até porque apenas um dos seus 25 integrantes representará o governo. Os outros 24 serão a voz dos empresários e da sociedade civil.

Então… Estamos entendidos. Não é bem assim, porque um dos nós dessa questão está especificamente ligado aos interesses das empresas que atuam como polvos – jornal, televisão, rádio, telefonia, rede social – e temem o veto à propriedade cruzada. É que  as proposições incluem o aumento do rigor nas concessões, proibindo que apenas um grupo seja proprietário de mais de um veículo de comunicação. O medo diante disso já se manifestou. E foi apontado por Altamiro Borges, da Associação Portal Vermelho. Em março, durante o Seminário Internacional Regulação da Comunicação Pública em São Paulo – boicotado por alguns setores da comunicação -, ele afirmou que “não é para menos que a TV Globo já fez críticas à criação do Conselho Nacional de Comunicação, falando que é censura; e os editoriais dos jornais de São Paulo também”.

Aliás, também o painel promovido pela Faculdade de Comunicação Social da Ulbra, em parceria com o Colóquio de Agências Experimentais de Comunicação (reúne os cursos de Comunicação do Estado), não contou com a participação de alguns convidados, “que preferem não se manifestar publicamente sobre o tema”, segundo informou o professor Deivison Campos. Guilherme Canela, coordenador do setor de Comunicação e Informação do escritório da Unesco no Brasil, tem uma explicação para esse fato: “Nenhum ator que está operando sob a égide do status quo e tem ganhos com isso, seja qual for o setor, aceita mudanças com facilidade”. Mas ele vê que “há certo entendimento comum de que é preciso avançar; que do jeito que está não dá para ficar”. Esta é uma situação favorável para estimular a discussão e “mapear quem é a favor do que (…); digamos que é preciso limpar a área e entender onde estão os pontos de divergência”, porque, enquanto cada um dos envolvidos entender a coisa de um jeito, não se chega a lugar nenhum.

Enfim, o assunto está colocado. A Associação Rio-Grandense de Imprensa participou do encontro na Ulbra. A entidade defende o acesso à informação de forma irrestrita – e isso também significa a democratização de todos os recursos tecnológicos colocados a serviço da comunicação – mas condena qualquer tentativa de controle da informação. Essa foi a mensagem. Além disso, está analisando a proposta do governo e acompanhando os debates que ela vem suscitando através de uma comissão interna. (as fotos são do repórter fotográfico Luiz Munhoz)

O futuro do jornalismo impresso preocupa

Enquanto isso, em Madri, representantes de veículos de comunicação de várias partes do mundo participaram do International Mídia Council. O encontro foi organizado para debater os caminhos da indústria jornalística, sua adaptação ao ecossistema digital, a democratização das notícias, o consumidor e os modelos das empresas. Estava lá Andrew Rashbass, conselheiro do The Economist. E ele, surpreendendo colegas, revelou-se otimista. “O jornalismo tem uma missão a cumprir e o mundo necessita dele”, afirmou.

Mas precisa ser reinventado. Foi a essa conclusão a que chegaram. Como? A questão é que não existe uma receita mágica que possa ser colocada em prática para garantir a sobrevivência do jornalismo tradicional no mundo de hoje, que não para de mudar. Por isso, a turma reunida admitiu que a situação exige alguns cuidados. “Estamos entre a espada e a parede”, advertiu Frank A. Bennack, vice-presidente da Hearts Corporation e presidente do Paley Center for Media. Quem ouviu concordou, porque basta olhar em volta para ver que telefones móveis, provedores e redes sociais criaram uma nova forma de abordar a informação e de consumi-la.

Isso encerra a questão? Não, segundo os participantes do encontro. Na opinião deles, a tecnologia permite ao indivíduo transmitir suas ideias, mas ainda assim não é a solução. “A solução é o jornalismo”, garantiu John Paton, executivo da Digital First Media, uma rede com mais de 800 produtos digitais e impressos em 18 países. Ufa!! Ele afirmou que é preciso diferenciar conteúdo de jornalismo, porém é preciso reinventá-lo, “porque as pessoas querem a informação em tempo real”. E isso se deve ao surgimento do “cidadão repórter”, que desempenhou papel importante durante a chamada Primavera Árabe.

Mas não substitui o jornalismo tradicional. Essa é a opinião de Helen Boaden, diretora da BBC News. Ela contou que “no Reino Unido a audiência não estava interessada na Síria até que mandamos para Homs um de nossos melhores repórteres”; em seguida reconheceu que os meios de comunicação estão sofrendo uma “transição dolorosa”. Para Juan Luis Cebrián, presidente do jornal El País, a vantagem das redes sociais sobre o jornalismo tradicional é a sua maior liberdade de expressão. O problema é “como saber se podemos acreditar nas informações que passam”. Essa é a preocupação de Katharine Viner, diretora do The Guardian. Tudo tem que ser checado e colocado dentro do contexto. Um trabalho insano.

Mas não tem saída. Para Rashbass, o caminho daqui para frente é colher o melhor da imprensa tradicional e da digital. Ele acredita que “o jornal impresso vai reduzir sua circulação significativamente dentro dos próximos cinco anos” e que os tablets ganharão relevo. O importante para garantir o sucesso comercial de qualquer publicação, segundo ele, será manter a independência e oferecer ao leitor um produto com valor, relevância e diferencial.  Mas nem mesmo isso vai impedir que “a impressão massiva em papel pareça um dinossauro dentro de 25 anos”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s