O século XX estava terminando quando Maria Helena Martins, especialista em literatura e professora da USP, me pediu que escrevesse um texto sobre a mulher moderna que se desdobra em várias papeis, dentro e fora de casa. Aceitei o pedido sentindo-me honrada. E ela o colocou na Revista CelpCyro. O espaço faz parte do site dedicado à obra do psicanalista Cyro Martins, pai de Maria Helena. Nele, o leitor encontra, além do resgate da obra literária dele – reconhecido também pela trilogia Gaúcho a Pé, o drama do homem da campanha empobrecido que busca sobrevivência na cidade grande – leituras extremamente importantes e interessantes de outros autores na área do comportamento humano. Reencontrei este texto quando pesquisava sobre o assunto e resolvi publicá-lo no meu blog, até porque a situação que descrevo nele não mudou muito. Ou não mudou.

Quando o cheiro de lentilhas queimando invadiu minha sala de trabalho foi que me dei conta de que a hora rondava o meio-dia. Salvei o texto no computador e disparei em direção à cozinha, onde me aguardava uma panela fumegante. A primeira reação foi despejar seu conteúdo no saco do lixo, mas segurei o gesto a tempo de evitar um segundo estrago naquela manhã para a qual havia acordado com a certeza de que, finalmente, encontraria o fecho para a crônica em andamento.

Mas, que diabos, não seria também desta vez. Novamente, a experiência me assoprava no ouvido, o texto ficaria lá, repousando no arquivo e à espera de uma brecha nas minhas tarefas rotineiras como dona-de-casa e mãe, antes que tomasse o rumo do jornal onde trabalho. “Quem sabe amanhã conseguirei, feito Adélia Prado, transformar o cotidiano em poesia. Quem sabe amanhã conseguirei feito Clarice Lispector desatar o nó das minhas elucubrações existenciais.” Mas naquele momento – “preciso manter a calma” -, a urgência era colocar nova medida de lentilhas no fogo, porque daqui a pouco meu filho voltaria do colégio anunciando, desde a porta, “um buraco no meu estômago, mãe, de tanta fome”.

E mãe que se preza, mesmo agora quando as mulheres já são numericamente superiores aos homens nos bancos das universidades do País e em profissões como a minha, o Jornalismo, não deixa o alimento do filho em segundo plano. A proteína que lhe sirvo é suficiente para mantê-lo forte e saudável? “Vamos menino – ele tem 17 anos – come pelo menos uma colher dessa lentilha, que tem mais ferro do que o feijão”. Ou, já na porta, a caminho do jornal: “Não te esquece de tomar a vitamina”! Por aí segue a ladainha diária. Exagero? Nem tanto, nem tanto. Engana-se quem pensa que meu filho sentiria alívio se eu silenciasse minhas preocupações. Até mesmo quando se queixa ele deixa transparecer certo orgulho de “tanto cuidado”.

À noite, quando volto do jornal, ele me recebe com o pedido que parece uma pergunta, mas é quase uma exigência: “Mãe, prepara um café?! O sorriso que me envia então é devastador e a resposta ao meu argumento de que “já está muito crescidinho para depender tanto dos outros” derruba o que ainda poderia sobrar como barreira: “Mas mãe, é que feito por você fica mais gostoso”. E não se vive também dos elogios de um filho? Então, lá vou eu. Cansada, com os ossos moídos, mas vou. E com renovado prazer.

Sou exceção? Não. Ainda somos assim, em grande maioria, nós, as mulheres deste final de século. Com o que sentimos e com o que sabemos sobre o mundo e sobre nós mesmas educamos aquele que vai ser um adulto no próximo milênio. Na pior das hipóteses, este homem não terá medo de dizer a sua companheira que ela “é a melhor mulher do mundo”. Acreditamos nisso, embora a experiência já tenha nos mostrado que a mãe-boa não consegue evitar que algum dia a imagem da bruxa se sobreponha à face amorosa da amante, instalando o pânico no homem que, para sentir-se confortável na relação, necessita que também a mulher/companheira o aprove de forma incondicional.

“Tenho tido lapsos de memória”, conta a amiga que me segura pelo braço quando já estou a meio caminho do jornal. Ela tem 44 anos de idade, é jornalista como eu e vem sentindo um imenso desconforto físico e emocional sobre o qual não consegue conversar com o marido. Na última tentativa ouviu dele esta indelicadeza: “Tá querendo me dizer que está ficando velha?” Desde então “só penso em ir embora, Maria!”. E eu, cá com meus botões: “Meu Deus, quantas de nós já pensamos nisso?” Mudam as palavras, mas a decepção que carregam é sempre a mesma. Continuará assim? Não acredito que vá mudar.

Por que não? A resposta que me vem não é simples. Uma das conclusões a que consegui chegar, sempre observando o que se passa ao meu redor, é que se comete um erro quando se quer medir a sensibilidade do homem pela sensibilidade da mulher e vice-versa. Somos essencialmente diferentes e não há novidade nessa afirmação. Também é certo que essa diferença não estabelece superioridade ou inferioridade por si só, embora tenha sido explorada para submeter a mulher dentro de vários tipos de situações, incluindo um certo tipo de relacionamento amoroso que, na verdade, não passa de aproximação estratégica ou do que se pode definir como um amor político, que sobrevive no se, na condicional.

A pergunta “Tá querendo me dizer que está ficando velha”? carrega uma dura mensagem. O homem que a faz está querendo dizer que não vai suportar aquilo que no inconsciente dele está arquivado como a imagem da mãe-má, a bruxa. O menino que ainda mora nele continua com medo de ser destruído por esse arquétipo primitivo que a mulher envelhecida lhe sugere. É o que me disse ainda outro dia o presidente da Sociedade Psicanalítica Internacional, o psicanalista austríaco Otto Kernberg.

É com esse homem que convivemos às portas do terceiro milênio. Ele pouco mudou desde o impacto do primeiro voto feminino, que no Brasil aconteceu em 1930. A intensificação do movimento feminista a partir dos anos 50, com a criação da pílula anticoncepcional, também não operou milagres. Ficamos mais livres? Sim, para assumir o controle da natalidade e para decidir se queremos ou não submeter o próprio corpo aos efeitos desagradáveis da pílula. Mas, principalmente, ficamos mais disponíveis para o jogo sexual, com a recomendação de que a mulher “carregue uma camisinha na bolsa”. E há pior: a recomendação já não pode excluir as mulheres em relacionamento estável, porque entre elas o número de contaminadas pelo vírus da Aids cresce assustadoramente, segundo as estatísticas.

De resto, a grande maioria de nós tem dupla jornada de trabalho e ganha um salário que já se tornou indispensável à manutenção da casa, sem perdão para o cansaço, para as olheiras e para a enxaqueca que o stress produz. Tem que continuar bonita, alegre e saber fechar os olhos para as falhas do companheiro, que engorda, senta à mesa sem camisa, fuma um charuto absolutamente fedorento, fala para toda vizinhança participar da conversa e conta piada sem graça.

Sempre é possível ir embora, mas sabendo que a liberdade da mulher cessa onde começa o seu olhar de mãe. E este não consegue se fechar para o rosto do filho. Ele pede e ela atende. Como isso nunca vai parar, não acredito que nossos motivos de queixas desapareçam no próximo século. Ou em qualquer outro. Nossos filhos continuarão pedindo e nossas filhas continuarão atendendo.

A menos que elas sigam o conselho do poeta Guillaume Appolinaire: “Nós os conduzimos até a borda e pedimos que voassem. Eles não arredaram pé. Voem, dissemos. Eles não se mexeram. Nós os empurramos para o abismo. E eles voaram”.

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