A sala é simples. Na verdade, quase tosca. Mas assim que ponho meus pés nela, eles ficam inquietos, acometidos de uma irrefreável vontade de dançar. Então perco a inibição e danço. Quem consegue isso é a força de um tango, tocado por duas mulheres. As mãos de Norma Chagas passeiam pelo teclado do piano; Ione Gutierrez é a acordeonista. Estou numa sala de aula. Ali, chamar as décadas além dos sessenta de “melhor idade” deixa de ser um clichê e se transforma em realidade alegre por obra da música.

Norma vai completar 76 anos em agosto. E em sua já longa caminhada ela sempre teve o acompanhamento de ritmo e melodia. Inevitável, porque em Itaqui, onde nasceu e foi criada, rancheiras e tangos fazem parte do cotidiano. Também porque a música está no DNA da família: a mãe tocava acordeão e a própria Norma teve aulas de piano ainda na infância. Agora aposentada, sobra-lhe tempo para o teclado. Faz isso há quatro anos, com Ione como professora, e sua preferência é mesmo o tango, mas também gosta de música “mais ligeira”, de country e de samba, que, no entanto, considera “bem mais difícil como ritmo”.

Antes de sair da sala, Norma conta que o treino da técnica continua em casa, mais ou menos uma hora por dia, enquanto “o meu marido assiste aos programas de futebol”. A professora Ione, 69, aconselha uma dedicação diária de duas horas a seus alunos. São 14 no Colégio Parobé, mas ela também dá aulas em casa, onde a família trabalha em equipe, ensinando como se toca acordeão, contrabaixo, bateria, teclado, violão, guitarra e como se pode aprimorar o uso da voz através da técnica vocal. No mesmo endereço funciona um estúdio para gravação de CDs.

E nesse ponto da minha visita entra em cena mais uma aluna de Ione. Esta é bem curiosa. Na verdade, é voraz no desejo de expandir seu repertório e vai pedindo orientações sobre várias partituras durante a aula. Dá trabalho à professora. “Calma. É muita coisa ao mesmo tempo”, pede Mas Roswitha, que em setembro vai completar 74 anos, parece uma criança muito feliz com seu brinquedo preferido. Passa para “É o meu Rio Grande do Sul/céu, sol, sul/ terra e cor”, do nativista Leonardo; depois ouço as primeiras notas da belíssima Carruagens de Fogo; segue com um trecho da ária Va Pensiero, da ópera Nabucco, de Giuseppe Verd; ensaia os primeiros acordes de Marcha del Toreador, de Georges Bizet; e termina a aula com Fascinação. Ufa!

“Até a próxima semana”, despede-se. E vai embora. Também vou. Subimos juntas a Borges de Medeiros. Ela diz que agora vai focar o treino nas partituras que abraça. Seu passo ágil deixa muita gente para trás e não trai, de jeito nenhum, a idade que ela tem. Mas o dia é longo. Por isso, antes de voltar para casa, a ex-professora de Biologia, formada em Farmácia pela UFRGS e pintora ainda vai fazer uma visita ao Mercado Público de Porto Alegre, para comprar alimentos sem agrotóxicos na loja da Reforma Agrária. Está muito contente com os progressos que fez nessa hora de aula com Ione Gutierrez, que pode ser contatada através do telefone 3341-1446.

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