Será que o desespero tomou conta da Rede Globo? Parece que sim. Há sinais disso inclusive no Jornal Nacional, o programa que é carro-chefe da emissora. Um deles: ao longo desta semana, quando chamou matéria sobre o aumento da criminalidade no México, Patrícia Poeta recorreu ao seriado Chaves, que, pelo jeito, será eterno no SBT. “A situação está violentissíssissima no México”, disse. Brincadeira de muito mau gosto. De quem foi a ideia infeliz? Da apresentadora? Alguns dias antes ela tinha sido comentada como responsável pelo crescimento da audiência do JN.  

Há reincidência no ar. Faz alguns meses, a mesma Patrícia convidou os telespectadores no intervalo de um programa: “Tristeza no enterro das primeiras vítimas do desabamento de prédios no centro do Rio. Veja hoje no Jornal Nacional.” A dor que a morte de uma pessoa provoca nos familiares e amigos é notícia? Não é. Claro que não é. No Brasil e na maior parte do planeta, até onde tenho conhecimento, essa viagem sem volta está na raiz da angústia descrita na literatura psicanalítica; solapa o nosso sono, nos leva aos shoppings, sobrecarrega nossas geladeiras e fomenta a corrida dos cientistas que já prolongam vidas transplantando órgãos e manejam tubos de ensaios em busca de uma brecha que lhes permita chegar ao segredo da vida.

Horas depois do desabamento, enquanto os bombeiros se empenhavam em busca de corpos e sobreviventes nos escombros, uma repórter da mesma emissora ouviu Marcelo, o zelador do prédio de dez andares que veio abaixo. Depois de apresentá-lo, salientou que “ele ainda está abalado” e, a partir de então, tentou transformar a entrevista em cena de telenovela, empreendeu uma verdadeira caça às lágrimas e só encerrou a sessão de tortura quando, finalmente, conseguiu que o homem chorasse. Mas essa não foi a primeira derrapada do tipo cometida pelo jornalismo da Rede Globo. Lembro-me de uma anterior, diante da qual fiquei igualmente embasbacada: no dia do enterro de Dias Gomes, a repórter escalada pela emissora para acompanhar a viúva do autor de telenovelas saiu-se com esta pergunta: “Como a senhora está se sentindo?” Fiquei imaginando que tipo de resposta ela esperava.

E agora o depoimento catastrófico de Xuxa, ocupando um vasto espaço no Fantástico deste domingo. Qual o propósito de tamanha apelação? Foi boa para quem essa confissão de intimidades? Para o programa, certamente, porque atingiu 26 pontos na pesquisa de audiência (recorde do ano). E, se avaliado dentro desse ponto de vista, foi bom também para Xuxa, porque, ao funcionar como alavanca ao programa da noite de domingo, ela reafirmou uma força que a Globo quer explorar mais. Mas o resultado seria o mesmo se a conversa fosse outra, se não tivesse satisfeito a curiosidade dos que consomem mórbidamente a privacidade – física, mental e emocional – das celebridades? O que contam por aí é que a emissora exigiu da loira que assumisse um visual mais “mulher” e que exibisse suas pernas. Por isso, segundo dizem, ela substituiu calças e botas por saias curtas. E será que suas “revelações” fartamente anunciadas como “inéditas e emocionantes” foram igualmente exigidas pela emissora? Não sei. Mas tenho certeza de que, diante dos telespectadores mais exigentes, a “rainha dos baixinhos” pagou um mico. Aliás, o Fantástico também.

E, claro, a Globo. Pelo jeito, precisa disso porque tem concorrente no encalço, roubando audiência. Vinhetas e aberturas caprichosamente produzidas já não bastam para segurar quem gosta do grotesco, do banal, da violência e das intimidades transformadas em espetáculo. Ao longo de toda a sua trajetória, a emissora carioca nunca se preocupou em qualificar o seu telespectador. Pelo contrário, sempre que se limitou a refleti-lo reforçou nele aquilo que agora o leva para outros canais. Fez e faz péssimo uso de sua hegemonia, permitindo “revelações inéditas e emocionantes”, como as de Xuxa no Fantástico, e brincadeiras absurdas como a feita por Patrícia Poeta no Jornal Nacional, quando ela definiu a situação no México como “violentissíssissima”. Por isso, está absolutamente certo quem defende a revisão das concessões  para acabar com o monopólio nas comunicações no Brasil.

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